Nos últimos dias, a imprensa tem falado muito sobre a aprovação do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Para quem acompanha o mundo do agronegócio, o assunto não é novidade, mas as últimas movimentações da UE podem mudar o jogo tanto para produtores europeus quanto para os nossos agricultores.
Se você ainda não entende por que esse acordo gera tanta polêmica, eu também já passei por isso. A sensação é de estar no meio de um tabuleiro de xadrez, onde cada movimento tem consequências para a mesa inteira – e, claro, para o bolso de quem produz alimentos.
Vamos destrinchar, de forma simples, o que a UE fez nos últimos meses para tentar “agradar” o agro europeu e, ao mesmo tempo, garantir que o acordo com o Mercosul siga adiante. Depois, falaremos sobre o que isso pode significar para o agro brasileiro.
1. Salvaguardas agrícolas: o que são e como funcionam?
Em dezembro, parlamentares europeus aprovaram um conjunto de regras chamado salvaguardas. A ideia básica é proteger produtores locais caso o comércio livre cause prejuízos inesperados.
- Se as importações de um produto sensível aumentarem mais de 5% em três anos, a UE pode abrir uma investigação.
- Durante a investigação (de 2 a 3 meses, dependendo do produto), os benefícios tarifários concedidos ao Mercosul podem ser suspensos temporariamente.
- O limite de 5% foi reduzido em relação ao plano original, que previa 10%.
Na prática, isso funciona como um “freio de emergência” para o agronegócio europeu. Se as exportações brasileiras de soja, milho ou carne começarem a “engarrafar” o mercado europeu, a UE tem um mecanismo para conter a competição.
2. Redução de tarifas de fertilizantes
Fertilizantes são um dos custos mais pesados para o produtor. A Comissão Europeia anunciou que vai zerar as tarifas padrão de 6,5% sobre a ureia e 5,5% sobre a amônia. Além disso, está sendo estudada a possibilidade de isenções temporárias da taxa de carbono nas importações.
Para nós, isso pode significar duas coisas:
- Menor concorrência nos preços de fertilizantes importados da América do Sul, já que a UE reduzirá custos de entrada.
- Pressão para que os produtores brasileiros mantenham padrões de qualidade que justifiquem a competitividade.
3. Mais dinheiro para os agricultores europeus
A reforma da Política Agrícola Comum (PAC) 2028‑2034 liberou cerca de 45 bilhões de euros (aprox. R$ 286 bilhões) para os agricultores da UE. Esse fundo será usado, entre outras coisas, para apoiar a transição verde, modernizar fazendas e, curiosamente, para compensar possíveis perdas com o acordo Mercosul‑UE.
Embora o dinheiro pareça bom, ele também serve como “pão e circo” para acalmar protestos que surgiram em países como França, Alemanha e Polônia. Quando os agricultores sentem que têm apoio financeiro, a resistência ao acordo diminui.
4. Pesticidas proibidos: a nova regra europeia
Um ponto quente nas discussões foi a presença de agrotóxicos proibidos na UE em produtos importados. A Comissão Europeia decidiu banir três substâncias – tiofanato‑metilo, carbendazim e benomil – especialmente em frutas como cítricos, mangas e mamões.
Essa medida veio logo depois da França impor um bloqueio a frutas sul‑americanas com resíduos de cinco pesticidas. O objetivo da UE é garantir que as importações atendam aos mesmos padrões sanitários que os produtos europeus.
5. O que tudo isso significa para o agro brasileiro?
Para nós, o acordo ainda tem duas faces:
- Oportunidade de mercado: A UE é um dos maiores consumidores de soja, carne bovina e açúcar. Um acordo bem‑estruturado pode abrir portas e aumentar a demanda.
- Desafio regulatório: As novas exigências de padrões ambientais, sociais e sanitários podem exigir investimentos em certificação, monitoramento de desmatamento e controle de resíduos.
Além disso, a questão do desmatamento na Amazônia continua no centro do debate. Embora o Brasil tenha um Código Florestal que protege áreas de reserva, o desmatamento ilegal ainda é um problema. A UE tem usado isso como argumento para pressionar por mais rigor nas práticas agrícolas.
6. Cenário político: quem está a favor e quem está contra?
Na votação da última sexta‑feira, a França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra o acordo. Já Alemanha e Espanha foram os principais defensores, buscando diversificar suas alianças comerciais após o aumento das tarifas dos EUA.
Esse embate mostra que, embora a UE queira fechar o acordo, ainda há resistência interna. Os agricultores europeus continuam organizando protestos, o que pode levar a mais ajustes nas salvaguardas.
7. Como o produtor brasileiro pode se preparar?
Se eu fosse um agricultor ou exportador, faria o seguinte:
- Investir em certificações internacionais: Sistemas como o Rainforest Alliance ou o ProTerra ajudam a comprovar conformidade com padrões ambientais.
- Monitorar a legislação da UE: Acompanhar mudanças nas regras de pesticidas e nas exigências de rastreabilidade.
- Diversificar mercados: Não colocar todos os ovos na cesta europeia. Explorar mercados da Ásia e do Oriente Médio pode reduzir riscos.
- Fortalecer a cadeia de valor: Desde a produção até a logística, garantir qualidade e eficiência para competir não só no preço, mas também na confiança do consumidor.
Conclusão
O acordo UE‑Mercosul ainda está em fase de consolidação, mas as últimas medidas da Europa mostram que a negociação não é apenas sobre tarifas. Trata‑se de equilibrar interesses políticos, ambientais e econômicos. Para o agro brasileiro, isso pode ser tanto uma janela de oportunidade quanto um convite para elevar nossos padrões.
Eu acredito que, se conseguirmos adaptar nossas práticas e atender às exigências europeias, o acordo pode trazer mais estabilidade e previsibilidade para as exportações. Por outro lado, se não acompanharmos as mudanças, corremos o risco de ver nossos produtos enfrentar barreiras não‑tarifárias que podem ser ainda mais difíceis de superar.
E você, produtor ou consumidor, como vê esse cenário? Compartilhe sua opinião nos comentários – a discussão está apenas começando.



