Você já viu aquele vídeo da comissária da Emirates que bombou no TikTok? Ela contou tudo sobre o salário e os benefícios de trabalhar para uma das maiores companhias aéreas do mundo. A reação foi instantânea: muita gente começou a sonhar com a vida nas nuvens, mas logo percebeu que a realidade no Brasil tem suas próprias regras e particularidades.
Quem pode ser comissário de bordo?
Para quem pensa em seguir essa profissão, o primeiro passo é entender os requisitos básicos estabelecidos pela ANAC. Eles são simples, mas exigem disciplina:
- Idade mínima de 18 anos;
- Ensino médio completo;
- Regularidade com o serviço militar (para homens entre 18 e 45 anos);
- Quitação com a Justiça Eleitoral;
- Domínio da língua portuguesa – ler, escrever e falar;
- Certificado Médico Aeronáutico (CMA) de segunda classe;
- Treinamento inicial aprovado pela ANAC;
- Ao menos 5 horas de voo supervisionado;
- Aprovação em avaliação prática.
Desde janeiro de 2024, a licença de comissário não exige mais a conclusão de curso em escola de aviação nem o exame teórico da ANAC, mas a maioria das empresas ainda pede a formação completa. Por isso, quem quer se destacar deve investir no curso, que costuma durar de três a cinco meses e custar entre R$ 2 mil e R$ 7 mil.
Salário inicial e benefícios
O piso salarial da categoria, segundo a Convenção Coletiva 2024/2025 do SNA, é de R$ 2.694,79. Algumas companhias pagam um pouco mais: Latam (R$ 2.874,52), Gol (R$ 2.806,39) e Azul não tem piso definido, negociando individualmente. Mas o salário‑base não conta tudo.
Com os adicionais – horas de voo diurnas e noturnas, compensação orgânica, vale‑alimentação, pagamento por sobreaviso e remuneração por tempo em solo – a remuneração total costuma ficar entre R$ 4 mil e R$ 6 mil. Além disso, os comissários recebem:
- Diárias que cobrem hospedagem e alimentação em viagens fora da base;
- Passagens com desconto para familiares;
- Plano de saúde e odontológico;
- Seguro de vida;
- Vale‑transporte e auxílio‑creche;
- Treinamentos periódicos e oportunidades de progressão.
No exterior, o número sobe bastante: Emirates, Qatar e Etihad pagam entre US$ 2.500 e US$ 3.500 (cerca de R$ 15 mil a R$ 21 mil), incluindo moradia e transporte. O porém é que o processo seletivo é mais rigoroso e exige fluência em inglês.
Rotina de trabalho e legislação
A Lei do Aeronauta (13.475/2017) e o RBAC‑117 da ANAC definem limites de jornada, descanso e horas de voo para garantir a segurança e o bem‑estar dos tripulantes. Em linhas gerais:
- Jornada diária de 9 a 18 horas, dependendo da operação;
- Limite mensal de voo: 80 h (jato), 85 h (turboélice), 100 h (convencional) ou 90 h (helicóptero);
- Limite anual de voo: 800 a 960 h, conforme o tipo de aeronave;
- Escala divulgada com, no mínimo, cinco dias de antecedência;
- 10 folgas mensais de 24 h, sendo duas consecutivas em fim de semana.
Na prática, o comissário costuma trabalhar em ciclos de voo ao longo do mês, retornando à base entre os blocos e respeitando as folgas previstas. Essa estrutura foi criada a partir de estudos de fadiga humana, garantindo que o profissional esteja sempre apto a reagir em situações de emergência.
Desafios da profissão
O glamour das viagens não esconde alguns desafios difíceis:
- Horários irregulares e turnos noturnos;
- Longos períodos longe da família;
- Pressão para manter a cordialidade mesmo em turbulência ou com passageiros difíceis;
- Responsabilidade direta pela segurança a bordo – incêndios, emergências médicas e situações de risco exigem decisões em segundos.
Além disso, a necessidade de atualização constante – treinamentos de segurança, primeiros socorros e procedimentos de evacuação – faz com que o profissional esteja sempre estudando, mesmo fora do horário de voo.
Oportunidades de crescimento
Depois de ganhar experiência, há várias trilhas de carreira:
- Chefe de cabine: lidera a equipe a bordo, coordena procedimentos e garante a qualidade do serviço;
- Instrutor: ministra treinamentos internos e prepara novos comissários;
- Examinador credenciado: avalia a aptidão de candidatos, exigindo certificação ANAC adicional;
- Áreas de solo: operações aeroportuárias, segurança e gestão de recursos humanos.
O avanço pode ser vertical – assumindo cargos de liderança – ou horizontal, migrando para áreas correlatas da aviação. O diferencial costuma ser a combinação de habilidades técnicas (idiomas, Libras, primeiros socorros) e competências comportamentais (liderança, empatia, gestão de conflitos).
Conselhos práticos para quem quer entrar
Se você está decidido a seguir essa carreira, aqui vão alguns passos que ajudam a tornar o caminho mais fácil:
- Invista na formação: faça um curso reconhecido, mesmo que a lei não exija mais o exame teórico. A prática conta muito nas seleções.
- Domine um idioma: inglês é quase obrigatório nas grandes companhias; espanhol ou até Libras podem ser diferenciais.
- Cuide da saúde: o CMA de segunda classe exige boa condição física e psicológica. Manter-se em forma evita contratempos.
- Ganhe experiência em atendimento: trabalhos em hotelaria, varejo ou call center ajudam a desenvolver a postura de serviço.
- Seja flexível: aceite escalas variadas e esteja preparado para viagens inesperadas – isso demonstra comprometimento.
Por fim, lembre‑se de que a profissão oferece experiências únicas: conhecer novas culturas, fazer amizades ao redor do mundo e desenvolver habilidades que poucas carreiras proporcionam. Se você tem vocação para servir e gosta de lidar com pessoas em ambientes dinâmicos, a cabine pode ser o seu próximo destino.



