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Acordo UE‑Mercosul: O que muda na sua vida e por que isso importa

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Acordo UE‑Mercosul: O que muda na sua vida e por que isso importa

Na última sexta‑feira, os embaixadores da União Europeia deram um passo importante: aprovaram, ainda que provisoriamente, o tão aguardado acordo comercial com o Mercosul. Para quem não acompanha de perto as negociações internacionais, pode parecer só mais um item nas notícias de política externa. Mas, na prática, esse tratado tem o potencial de mexer com o preço da sua cerveja, do seu carro e até do seu celular.



Um resumão do que está em jogo

Em linhas gerais, o acordo prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. Isso significa que produtos que hoje pagam impostos altos para entrar na Europa ou no Mercosul poderão ser vendidos com preços mais competitivos. Além das tarifas, o tratado inclui regras comuns sobre investimentos, padrões regulatórios e até questões ambientais.

Para a União Europeia, o objetivo é criar a maior área de livre comércio do mundo, conectando cerca de 451 milhões de consumidores. Para o Brasil – a maior economia do Mercosul – a oportunidade é abrir portas para novos mercados, diversificar exportações e reduzir a dependência de parceiros como a China.



Por que isso importa para o brasileiro comum?

Você pode estar se perguntando: “Mas eu não sou exportador, como isso me afeta?” A resposta está nos efeitos colaterais que se espalham por toda a cadeia produtiva.

  • Preços de alimentos e bebidas: A redução de tarifas pode baratear vinhos europeus e abrir espaço para chocolates premium. Por outro lado, produtos agrícolas latino‑americanos podem ganhar mais espaço nas prateleiras europeias, pressionando produtores locais.
  • Carros e máquinas: Reduções de impostos sobre veículos e equipamentos industriais podem tornar o preço de carros importados mais atraente, mas também aumentar a concorrência para fabricantes nacionais.
  • Produtos de tecnologia: Acordos sobre minerais críticos, como o lítio, podem acelerar a produção de baterias no Brasil, gerando empregos e inovação.

Em resumo, o acordo tem o potencial de gerar mais opções e, possivelmente, preços menores para o consumidor final. Mas nada vem sem desafios.



Os bastidores da aprovação: quem votou e quem ficou contra

A votação contou com 21 países apoiando o tratado, enquanto Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra. A Bélgica se absteve. Para que o acordo fosse aprovado, era necessário o apoio de pelo menos 15 países que representassem 65% da população da UE – requisito que foi cumprido.

A resistência vem principalmente dos agricultores europeus, que temem concorrência de produtos sul‑americanos mais baratos e com normas ambientais diferentes. Na França, o presidente Emmanuel Macron reiterou que seu país votaria contra o acordo, alegando benefícios limitados para a economia francesa.

Por outro lado, a Itália mudou de posição e passou a apoiar o tratado, o que foi decisivo, já que o voto italiano tem peso estratégico no Conselho Europeu.

Impactos econômicos: números que dão uma ideia do tamanho do negócio

A Comissão Europeia estima que o acordo eliminará mais de 4 bilhões de euros em tarifas por ano nas exportações da UE. Para o Mercosul, a expectativa é que 91% das exportações europeias tenham tarifas reduzidas em até 15 anos, enquanto a UE deve retirar tarifas sobre 92% das exportações sul‑americanas.

Além disso, o acordo inclui a ampliação das cotas de produtos agrícolas isentos de tarifas, o que pode beneficiar produtores de soja, carne bovina e café ao ganhar acesso a mercados europeus sem a pesada carga tributária.

Desafios e críticas: o que ainda pode travar a ratificação

Mesmo com a aprovação dos embaixadores, o acordo ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos nacionais e pelo Parlamento Europeu. A oposição de países como França e Irlanda pode se transformar em bloqueios legislativos, atrasando a assinatura final.

Outro ponto sensível é a questão ambiental. Grupos ecologistas europeus e latino‑americanos cobram garantias de que a expansão agrícola não venha à custa de desmatamento ou de práticas insustentáveis. O acordo inclui compromissos de preservação, mas a fiscalização ainda é um ponto em aberto.

O que podemos esperar nos próximos meses?

Se tudo correr bem, a assinatura oficial poderá acontecer ainda este ano, seguida de um período de adaptação de até dois anos antes da entrada em vigor completa. Nesse intervalo, governos, indústrias e agricultores terão tempo para ajustar políticas, investir em infraestrutura e preparar suas cadeias de suprimentos.

Para o Brasil, isso significa preparar o setor agropecuário para atender a padrões europeus mais rigorosos, ao mesmo tempo em que se busca diversificar a pauta de exportações para incluir mais produtos de alto valor agregado.

Para a Europa, a oportunidade está em reduzir a dependência de fornecedores como a China, especialmente em minerais críticos para a transição verde.

Como você pode se preparar?

Mesmo que você não seja produtor ou exportador, vale a pena ficar de olho nas mudanças. Algumas dicas práticas:

  1. Fique atento ao preço dos alimentos: Acompanhe a variação de preços de vinhos, queijos e carnes nos supermercados. Reduções de tarifas podem aparecer nas prateleiras em poucos meses.
  2. Considere investir em setores ligados ao comércio internacional: Ações de empresas de logística, agronegócio ou tecnologia de baterias podem se beneficiar do aumento do fluxo comercial.
  3. Informe-se sobre normas de origem: Se você tem um pequeno negócio que importa ou exporta, entender as regras de origem do acordo pode abrir portas para tarifas reduzidas.
  4. Preste atenção às discussões ambientais: Consumidores cada vez mais exigem produtos sustentáveis. Empresas que se adaptarem às exigências europeias podem ganhar mercado.

Em suma, o acordo UE‑Mercosul é mais que um documento assinado em Bruxelas; ele tem o potencial de remodelar a forma como consumimos, produzimos e negociamos. O futuro ainda tem incertezas, mas estar informado é o primeiro passo para tirar o melhor proveito dessa nova era de comércio global.