Na última semana, o presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, assinou um manifesto internacional ao lado de outras autoridades monetárias. O documento reforça a importância da autonomia técnica dos bancos centrais num momento de turbulência tanto nos EUA quanto aqui no Brasil, onde o Banco Master está em processo de liquidação. Parece papo de economista, mas a realidade é bem mais próxima do nosso dia a dia.
O que está acontecendo nos EUA?
O Federal Reserve, liderado por Jerome Powell, vem sendo alvo de críticas intensas do ex‑presidente Donald Trump, que pressiona por uma queda mais rápida dos juros. A pressão política chegou a tal ponto que o Departamento de Justiça dos EUA notificou o Fed com intimações de um grande júri, alegando supostas irregularidades em depoimentos ao Senado. Powell respondeu que ninguém está acima da lei, mas que a ação faz parte de um cenário de “ameaças e pressão contínua”.
Por que o Brasil entrou nessa conversa?
Ao assinar o manifesto, Galípolo coloca o Brasil ao lado de instituições como o Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra e o BIS (Banco de Compensações Internacionais). A mensagem é clara: a independência dos bancos centrais é um pilar da estabilidade de preços e, consequentemente, da saúde da economia de cada cidadão.
Mas você pode estar se perguntando: “E eu, que não lido com taxas de juros nem com políticas monetárias, como isso me afeta?” A resposta está na conta de luz, no preço do pão e no rendimento da sua poupança. Quando o banco central tem liberdade para definir a taxa básica de juros (a Selic, no caso do Brasil) sem interferência política, ele consegue controlar a inflação. Menos inflação significa que o poder de compra do seu salário não se desgasta tão rápido.
Liquidação do Banco Master: o que mudou?
Enquanto o debate internacional rola, aqui no Brasil o Banco Central está sob pressão do Tribunal de Contas da União (TCU). O ministro do TCU, Jonathan de Jesus, solicitou esclarecimentos sobre a liquidação “precipitada” do Banco Master. Em novembro passado, o BC decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado após a Fictor Holding apresentar proposta de compra. Pouco depois, o BC rejeitou a aquisição pelo Banco de Brasília (BRB), levantando suspeitas de fraudes envolvendo R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito.
Essa situação gerou um debate sobre até onde vai a autonomia do BC frente ao poder de fiscalização do TCU. Recentemente, o presidente do TCU, Vital do Rêgo Filho, se encontrou com Galípolo para buscar um equilíbrio entre inspeção técnica e independência institucional. O resultado? O BC concordou em permitir uma inspeção sobre o Banco Master, mas sem abrir precedentes que comprometam sua autonomia.
Por que a autonomia dos bancos centrais é tão defendida?
- Estabilidade de preços: Um banco central independente pode focar no controle da inflação, sem ceder a pressões políticas de curto prazo que costumam favorecer gastos públicos inflacionários.
- Confiança dos investidores: Quando o mercado vê que a política monetária é previsível e livre de interferências, há mais fluxo de capital estrangeiro, o que pode gerar mais empregos e melhores salários.
- Credibilidade internacional: Países com bancos centrais autônomos costumam ter notas de crédito mais altas, facilitando empréstimos a custos menores.
Esses pontos podem parecer abstratos, mas têm impacto direto no custo de um financiamento de carro, no rendimento de um CDB ou até na taxa de juros do cartão de crédito.
Riscos de uma interferência política
Se os governantes conseguem influenciar a taxa de juros para atender a interesses eleitorais, a inflação pode subir rapidamente. O Brasil já viveu isso nos anos 1990, quando políticas populistas levaram a hiperinflação, devastando a poupança das famílias. A lição foi dura: a independência do BC se tornou um dos alicerces da nova estabilidade econômica.
Nos EUA, a pressão de Trump para reduzir juros rapidamente poderia ter provocado um aumento da inflação, algo que o Fed tentou evitar nos últimos anos. A disputa entre o Executivo e o Banco Central demonstra como a autonomia é crucial para evitar decisões baseadas em ciclos eleitorais.
O que podemos esperar nos próximos meses?
Com o fim do mandato de Powell previsto para maio, o FED pode passar por uma transição que traga um presidente mais alinhado ao governo americano. No Brasil, a liquidação do Banco Master ainda está em curso, e o TCU pode intensificar sua fiscalização. O que permanece constante é o esforço dos bancos centrais de manter sua independência.
Para nós, consumidores, a mensagem é ficar atento às decisões de política monetária e entender que elas não são meras “notícias de economia”. Elas moldam o cenário de preços, salários e oportunidades de investimento. Quando os bancos centrais conseguem agir com liberdade, o ambiente econômico tende a ser mais previsível e menos volátil.
Então, da próxima vez que ouvir alguém falar sobre “autonomia do Banco Central”, lembre‑se de que isso tem a ver com o preço do seu café, o valor da sua aposentadoria e a possibilidade de conseguir um empréstimo com juros justos.



