Na última segunda‑feira (12), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou a aprovação de um financiamento de R$ 950 milhões para a Inpasa Agroindustrial construir sua sexta biorrefinaria no Brasil. O projeto, que será instalado em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, tem como foco a produção de etanol anidro e hidratado a partir da moagem de milho, sorgo e outros grãos.
Para quem acompanha o agronegócio, esse número já chama atenção: quase um bilhão de reais em recursos direcionados a uma única planta industrial. Mas o que realmente está por trás desse investimento? Por que a escolha recaiu sobre a Bahia, e como isso pode mudar a forma como pensamos energia, emprego e sustentabilidade no país?
Vamos destrinchar os principais pontos – de forma simples, sem aquele jargão técnico que costuma aparecer nas notícias – e entender como isso pode impactar a sua vida, seja você produtor rural, consumidor de energia ou simplesmente alguém que se preocupa com o futuro do planeta.
O que exatamente será produzido?
- Até 1 milhão de toneladas de milho processadas por ano.
- 498 milhões de litros de etanol – tanto anidro (para combustíveis) quanto hidratado (para uso industrial).
- 248,9 mil toneladas de Dried Distillers Grains (DDG), um coproduto rico em proteína, muito usado na alimentação animal.
- 24.862 toneladas de óleo vegetal – que podem virar biodiesel ou ser comercializado como matéria‑prima.
- 185 GWh de energia elétrica produzida a partir da própria biomassa da usina.
Esses números mostram que a planta não será só um gerador de etanol. Ela vai criar um ecossistema completo de produtos que podem ser usados em diferentes cadeias produtivas, desde a pecuária até a indústria química.
Por que a Bahia?
Luís Eduardo Magalhães já se destaca como um dos maiores produtores de grãos do Brasil. A região tem clima favorável, infraestrutura de transporte (rodovias, ferrovias e portos) e, sobretudo, um mercado de agricultores que já produz milho em grande escala. Essa combinação faz da cidade um ponto estratégico para quem quer transformar grãos em energia.
Além disso, a Bahia tem investido pesado em energia renovável nos últimos anos – pense nos parques eólicos e solares que já surgiram no estado. A nova biorrefinaria se encaixa perfeitamente nessa estratégia de diversificação da matriz energética.
Como o financiamento está estruturado?
Do total de R$ 950 milhões, R$ 350 milhões vêm do Fundo Clima, um fundo criado em 2009 ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e gerido pelo próprio BNDES. Os outros R$ 600 milhões são provenientes da linha Finem, que financia projetos de investimento em diversos setores da economia.
Essa divisão mostra duas coisas importantes:
- O projeto tem um forte componente de sustentabilidade, já que parte do recurso vem de um fundo específico para clima.
- Ele também tem viabilidade econômica reconhecida, já que a linha Finem costuma apoiar iniciativas com retorno financeiro sólido.
Impactos econômicos: empregos e renda
Durante a fase de construção, a usina deve gerar cerca de 300 empregos diretos e mais de 3 mil empregos indiretos – isso inclui fornecedores, transportadoras, serviços de alimentação, entre outros. Quando a planta entrar em operação, a estimativa é de 450 a 500 postos de trabalho direto.
Esses números são significativos para a região. Em áreas rurais, a criação de empregos formais costuma ser escassa, e cada nova oportunidade pode melhorar a qualidade de vida das famílias, reduzir a migração para grandes cidades e ainda impulsionar o comércio local.
Etanol de milho vs. etanol de cana: qual a diferença?
Quando pensamos em etanol no Brasil, a primeira coisa que vem à mente é a cana‑de‑açúcar. O etanol de milho ainda é menos difundido, mas tem algumas vantagens:
- Flexibilidade de matéria‑prima: o milho pode ser plantado em áreas onde a cana não se adapta bem, como regiões mais secas.
- Produção de coprodutos: o DDG, rico em proteína, abre oportunidades para a alimentação animal, algo que o etanol de cana não oferece na mesma escala.
- Integração com a cadeia de grãos: agricultores que já cultivam milho podem encontrar na usina um comprador estável, reduzindo a volatilidade de preços.
Por outro lado, a cana ainda tem custos de produção mais baixos em algumas regiões e uma cadeia logística mais consolidada. O importante é que a diversificação de fontes de etanol aumenta a resiliência do setor energético nacional.
Sustentabilidade e redução de emissões
O etanol é considerado um biocombustível, ou seja, sua queima libera CO₂, mas esse carbono foi absorvido pelas plantas durante o crescimento, formando um ciclo quase neutro. Além disso, a energia elétrica gerada pela usina (185 GWh) será proveniente da queima de resíduos da própria produção, diminuindo a dependência de fontes fósseis.
O Fundo Clima, que está investindo R$ 350 milhões, tem como objetivo apoiar projetos que reduzam as emissões de gases de efeito estufa. Portanto, a usina tem um selo verde que pode ser usado para atrair investidores internacionais que buscam projetos com credenciais de baixo carbono.
O que isso significa para o consumidor?
Para o cidadão comum, a mudança pode ser sutil, mas está presente:
- Preço do combustível: um aumento na oferta de etanol pode contribuir para a estabilidade ou até queda dos preços nas bombas, principalmente em regiões onde o etanol tem maior penetração.
- Alimentos mais baratos: o DDG pode reduzir o custo da ração animal, refletindo em preços mais baixos de carnes e laticínios.
- Energia mais limpa: a energia elétrica produzida pela usina pode ser integrada à rede local, ajudando a reduzir a dependência de termelétricas.
Esses efeitos não são imediatos, mas a longo prazo podem gerar um efeito cascata de benefícios econômicos e ambientais.
Desafios e riscos
Como todo grande projeto, a usina de etanol de milho traz alguns desafios:
- Logística de grãos: garantir que o milho e o sorgo cheguem em quantidade e qualidade adequadas exige uma cadeia de suprimentos bem coordenada.
- Preço do milho: flutuações no mercado internacional podem impactar a margem de lucro da usina.
- Aceitação do mercado: o etanol de milho ainda precisa conquistar espaço junto aos distribuidores de combustíveis.
- Impactos ambientais locais: embora o projeto seja sustentável, é fundamental monitorar o uso da água e a gestão de resíduos.
Esses pontos mostram que o sucesso da usina dependerá não só do investimento inicial, mas também de políticas públicas, apoio técnico e da capacidade de adaptação dos produtores.
O futuro da energia renovável no Brasil
A iniciativa do BNDES reforça uma tendência: o Brasil está buscando diversificar sua matriz energética, que ainda depende fortemente de hidroeletricidade (sujeita a secas) e de fontes fósseis. Projetos como este mostram que o país tem potencial para ser líder em biocombustíveis de segunda geração, integrando produção de alimentos, energia e proteína animal.
Se mais estados seguirem o exemplo da Bahia, poderemos ver um cenário onde regiões agrícolas se tornam também centros de energia limpa, gerando empregos, renda e contribuindo para metas climáticas globais.
Como acompanhar o desenvolvimento?
Para quem tem interesse em acompanhar de perto, o BNDES costuma publicar relatórios trimestrais sobre o andamento dos projetos financiados. Além disso, a Inpasa Agroindustrial tem canais de comunicação – como o grupo de WhatsApp do g1 Bahia – onde atualizações sobre a construção, contratação de mão‑de‑obra e indicadores de produção são compartilhados.
Se você é produtor de milho, vale a pena entrar em contato com a Inpasa para entender as condições de compra e possíveis parcerias. Se a sua preocupação é ambiental, fique de olho nos relatórios de monitoramento de emissões e uso de água.
Conclusão
O financiamento de R$ 950 milhões do BNDES para a nova usina de etanol de milho na Bahia representa muito mais do que um simples aporte de capital. É um sinal de que o agronegócio brasileiro está se reinventando, buscando sinergias entre produção de alimentos, energia renovável e geração de empregos.
Para a Bahia, o projeto pode ser um motor de desenvolvimento regional, fortalecendo a posição do estado como polo agroindustrial. Para o Brasil, abre caminho para uma matriz energética mais diversificada e menos dependente de fontes fósseis. E para cada um de nós, pode significar combustível mais barato, alimentos mais acessíveis e um futuro mais sustentável.
Fique de olho nas próximas etapas – a produção plena está prevista para 2027 – e pense em como você pode se beneficiar, seja como produtor, consumidor ou cidadão preocupado com o clima.



