Na última semana, a Casa Branca virou palco de uma reunião que parece tirada de filme de espionagem: Donald Trump, ao lado de executivos das maiores petroleiras dos Estados Unidos – ExxonMobil, ConocoPhillips, Chevron – exigiu que elas invistam, no mínimo, US$ 100 bilhões na Venezuela. O objetivo, segundo o presidente, seria reconstruir a infraestrutura energética do país e, assim, garantir que a produção de petróleo atinja níveis nunca antes vistos.
Para quem acompanha a política energética, a proposta soa como uma mistura de estratégia geopolítica e oportunidade de negócios. Por um lado, os EUA buscam ampliar sua influência na América Latina, reduzindo a dependência de outras potências, como a China, que atualmente compra cerca de 68 % das exportações venezuelanas. Por outro, as empresas americanas se veem diante de um cenário de alto risco, com ativos já confiscados duas vezes e um regime político instável.
Mas a história não para por aí. Trump também anunciou que os EUA irão refinar e vender até 50 milhões de barris de petróleo bruto venezuelano, um movimento que, segundo ele, ajudaria a “desviar” a China e a garantir que a Venezuela use a receita para comprar produtos americanos – de fertilizantes a equipamentos médicos.
O que o presidente Trump propôs na prática?
A proposta de Trump tem três pilares principais:
- Investimento maciço: US$ 100 bi para reconstruir refinarias, oleodutos e instalações de extração que foram degradadas por anos de crise econômica e sanções.
- Compra de petróleo: os EUA refinariam e comercializariam até 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, vendendo-o a preço de mercado.
- Uso da receita: a Venezuela se comprometeria a usar a renda gerada para comprar produtos fabricados nos EUA, fortalecendo a cadeia de suprimentos americana.
Em teoria, o plano parece vantajoso para ambas as partes: a Venezuela teria capital e tecnologia para retomar a produção, enquanto os EUA ganhariam um fornecedor de petróleo menos dependente de terceiros.
A reação das gigantes do petróleo
Nem tudo são flores no corredor da Casa Branca. Darren Woods, CEO da ExxonMobil, declarou que a Venezuela está “ininvestível”. Ele apontou que as empresas americanas já tiveram seus ativos confiscados duas vezes, e que uma terceira tentativa exigiria mudanças muito significativas, tanto políticas quanto jurídicas.
Por outro lado, o vice‑presidente da Chevron, Mark Nelson, mostrou mais otimismo, destacando que a Chevron ainda opera no país e está disposta a assumir novos investimentos. Essa divergência reflete a realidade de que, embora o potencial de reservas venezuelanas seja enorme (mais de 300 bilhões de barris prováveis), o risco de perda de ativos, instabilidade política e sanções internacionais ainda pesa muito.
Por que a Venezuela é um alvo estratégico?
A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, mas a produção caiu drasticamente nos últimos anos, de cerca de 2,5 milhões de barris por dia em 2015 para menos de 500 mil barris hoje. Essa queda tem sido alimentada por sanções, má gestão e falta de investimento.
Para os EUA, garantir acesso a esse recurso pode significar menos dependência da Arábia Saudita e da Rússia, além de criar um contrapeso à influência chinesa na região. A China, que já compra a maior parte do petróleo venezuelano, tem usado esses recursos para fortalecer laços políticos e econômicos com Caracas.
Implicações para a economia global
Se o acordo se concretizar, o mercado de petróleo poderia sofrer alterações notáveis:
- Oferta adicional: 50 milhões de barris de petróleo refinado nos EUA poderiam entrar no mercado, potencialmente reduzindo levemente os preços globais.
- Deslocamento da China: a China perderia parte de sua compra de petróleo venezuelano, o que poderia levar a uma busca por outras fontes, como a Nigéria ou o Oriente Médio.
- Impacto nas sanções: um acordo de US$ 100 bi poderia sinalizar uma flexibilização das sanções, gerando debates sobre a eficácia dessas medidas como ferramenta de política externa.
Além disso, o fluxo de receita que a Venezuela receberia – depositado em contas controladas pelos EUA – poderia ser usado para comprar bens americanos, impulsionando setores como agricultura, farmacêutico e equipamentos de energia.
Cenários futuros e riscos
Apesar das promessas, há vários riscos que podem impedir a realização do plano:
- Instabilidade política: a prisão de Nicolás Maduro por forças americanas aumenta a tensão e pode desencadear resistência interna ou apoio de aliados como a Rússia e Cuba.
- Reação internacional: a comunidade global, especialmente a União Europeia, pode ver o acordo como uma violação das sanções e impor contramedidas.
- Viabilidade econômica: levantar US$ 100 bi exige financiamento, e as empresas podem preferir investir em projetos mais seguros, como campos de xisto nos EUA.
- Risco de corrupção: histórico de desvio de recursos na Venezuela levanta dúvidas sobre a destinação correta da receita.
Se esses obstáculos forem superados, poderemos testemunhar um renascimento da indústria petrolífera venezuelana, com impactos positivos para a economia local e para a balança comercial dos EUA. Caso contrário, o plano pode ficar apenas no papel, reforçando a percepção de que a Venezuela continuará presa a um ciclo de dependência de sanções e falta de investimento.
O que isso muda para nós?
Para o cidadão comum, a discussão pode parecer distante, mas tem reflexos diretos nos preços dos combustíveis, na disponibilidade de produtos importados e até na política externa dos EUA, que influencia acordos comerciais com o Brasil. Um aumento na produção venezuelana poderia aliviar pressões sobre o preço do barril, beneficiando motoristas e indústrias que dependem de energia.
Além disso, o acordo destaca como decisões políticas podem abrir portas para investimentos em setores estratégicos. Se as petroleiras americanas conseguirem garantir retornos, pode haver um efeito cascata de investimentos em infraestrutura, tecnologia e até em energia renovável, já que muitas dessas empresas estão diversificando seus portfólios.
Em resumo, a proposta de Trump é ambiciosa e carregada de simbolismo: controlar o petróleo de um país que tem sido alvo de sanções e ao mesmo tempo oferecer um futuro de prosperidade para a Venezuela – tudo isso enquanto os EUA reforçam sua posição no cenário global. Resta acompanhar como os negociadores vão lidar com os obstáculos e se o plano vai sair do discurso para o campo de produção.



