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Acordo UE‑Mercosul: O que muda no comércio global e por que agricultores europeus protestam

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Acordo UE‑Mercosul: O que muda no comércio global e por que agricultores europeus protestam

Na última semana, a Comissão Europeia deu o sinal verde ao acordo comercial com o Mercosul, criando a maior zona de livre comércio do planeta. Para muitos governos e empresários, a notícia chegou como um suspiro de alívio depois de 25 anos de negociações. Para agricultores de países como França, Polônia e Bélgica, porém, a mesma decisão soa como um alerta vermelho. Neste post, vou analisar o que está em jogo, como isso pode impactar a nossa vida e por que o debate ainda está longe de acabar.



Um marco histórico para o multilateralismo

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o acordo como um “dia histórico” para o multilateralismo. Em suas palavras, o tratado une dois blocos que somam 718 milhões de pessoas e um PIB conjunto de US$ 22,4 trilhões. Do lado europeu, Ursula von der Leyen também celebrou a assinatura, destacando que a UE está enviando um “sinal forte” de crescimento, geração de empregos e proteção aos consumidores.



Por que a UE quer esse acordo?

Além de abrir mercados para produtos agrícolas sul‑americanos, a UE vê no Mercosul uma oportunidade estratégica de reduzir a dependência da China. O bloco pretende garantir acesso a minerais críticos como o lítio, essencial para baterias e a transição energética. A comissão afirma que o tratado eliminará mais de 4 bilhões de euros em tarifas anuais, facilitando a exportação de matérias‑primas e permitindo que empresas europeias concorram em licitações públicas nos países do Mercosul em igualdade de condições.

O ponto de vista dos agricultores europeus

Enquanto políticos e executivos celebram, fazendeiros nas ruas de Paris, Bordeaux, Varsóvia e Bruxelas protestam contra a abertura do mercado europeu a produtos agrícolas sul‑americanos. O medo principal é a concorrência de alimentos mais baratos, produzidos sob normas ambientais diferentes das exigidas na UE. Carne bovina, soja e outros produtos poderiam entrar em grande escala, pressionando os preços internos e ameaçando a subsistência de pequenos produtores.



O que está garantido no acordo?

  • Salvaguardas robustas para proteger os meios de subsistência dos agricultores europeus.
  • Regras de controle sobre importações, com fiscalização rigorosa para garantir o cumprimento das normas.
  • Isenção de impostos para a exportação de minerais estratégicos do Mercosul para a UE.
  • Possibilidade de empresas europeias participarem de licitações públicas nos países do Mercosul nas mesmas condições dos fornecedores locais.

Impactos para o consumidor brasileiro

Para quem mora no Brasil, o acordo pode significar mais oportunidades de exportar produtos como carne, café e soja para a Europa, sem enfrentar tarifas altas. Isso pode gerar mais empregos no campo e estimular investimentos em tecnologia agrícola. Porém, a competição interna também pode aumentar, já que produtores de outros países do Mercosul (Argentina, Paraguai, Uruguai) terão acesso ao mesmo mercado europeu.

Riscos e críticas

Os críticos apontam que o acordo pode aprofundar desigualdades dentro da UE, beneficiando grandes conglomerados agroindustriais em detrimento dos pequenos agricultores. Além disso, há preocupações ambientais: a produção de carne bovina na América do Sul costuma estar associada ao desmatamento da Amazônia e de outras áreas sensíveis. Se o controle não for eficaz, a UE pode acabar importando produtos que contrariam seus próprios compromissos climáticos.

O que esperar nos próximos meses?

O próximo passo é a ratificação pelos parlamentos dos países membros da UE e pelos legislativos do Mercosul. Enquanto isso, a pressão dos agricultores deve continuar, possivelmente gerando ajustes nas salvaguardas ou até mesmo revisões de cláusulas específicas. No Brasil, o Congresso também terá que analisar o texto e garantir que as regras de proteção ao meio ambiente e aos direitos trabalhistas sejam respeitadas.

Como isso afeta o seu dia a dia?

Se você compra carne ou produtos agrícolas importados, pode notar preços mais baixos nas prateleiras, mas também pode enfrentar uma maior rotatividade de marcas. Para quem investe em ações de empresas do setor agro, o acordo abre novas oportunidades de expansão internacional. E, claro, para quem se preocupa com a sustentabilidade, será importante acompanhar como os governos vão fiscalizar o cumprimento das normas ambientais nos países exportadores.

Conclusão

O acordo UE‑Mercosul representa um ponto de virada nas relações comerciais globais, combinando benefícios econômicos e desafios sociais e ambientais. Enquanto governos celebram a integração e a redução de tarifas, agricultores europeus levantam a voz contra possíveis prejuízos ao campo. O sucesso do tratado dependerá da capacidade de equilibrar esses interesses, garantir a proteção ambiental e manter a competitividade dos produtores de ambos os lados. O que parece ser um “dia histórico” para o multilateralismo ainda tem muito a provar nos próximos anos.