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Por que as ações da Azul despencaram mais de 70% e o que isso significa para você

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Por que as ações da Azul despencaram mais de 70% e o que isso significa para você

Se você acompanha a Bolsa, provavelmente ficou de cabelo em pé ao ver as ações da Azul despencarem mais de 70% numa única quinta‑feira. Não é todo dia que vemos um papel perder quase tudo em poucos dias, né? Mas antes de entrar no pânico, vale a pena entender o que realmente está acontecendo e como isso pode afetar o seu bolso ou a sua estratégia de investimento.



## O que provocou a queda brutal?

A primeira coisa que precisamos deixar clara: não houve nenhum escândalo de fraude, nem um desastre operacional que fez a companhia perder a confiança dos passageiros. O que mudou foi a estrutura de capital da Azul. Em dezembro, a empresa anunciou um plano de recuperação judicial que inclui a conversão de parte das dívidas em ações. Em termos simples, quem era credor – e recebia juros – agora passa a ser acionista.

Essa troca obrigatória de dívida por ações fez com que a companhia emitisse **723,9 bilhões de ações ordinárias** e o mesmo número de ações preferenciais, vendidas em lotes de 1 mil e 10 mil papéis. Quando o número de ações em circulação aumenta tanto, o preço de cada ação cai, como acontece em qualquer mercado de oferta e demanda.



## Como funciona o Chapter 11 nos EUA?

A Azul entrou com pedido de proteção sob o chamado **Chapter 11** – a versão americana da recuperação judicial. Esse mecanismo permite que a empresa renegocie suas dívidas, reorganize suas operações e, idealmente, volte a ser lucrativa sem precisar fechar as portas.

Alguns pontos chave do Chapter 11:

– **Proteção contra credores:** Enquanto o plano está em tramitação, os credores não podem cobrar as dívidas.
– **Reestruturação de dívida:** Parte da dívida pode ser convertida em ações, como aconteceu aqui.
– **Continuidade das operações:** A companhia continua voando, pagando salários e mantendo rotas.

Para quem não está familiarizado com o processo, pode parecer burocrático, mas ele tem sido usado por várias companhias aéreas globais, inclusive a **Gol** e a **Latam**, que também passaram por processos semelhantes nos últimos anos.



## Por que isso importa para o investidor comum?

Se você tem ações da Azul no seu portfólio, a primeira reação natural é o medo. Mas vale analisar alguns cenários:

1. **Você comprou antes da conversão:** Se adquiriu as ações antes da emissão massiva, seu custo médio pode ter subido muito. A diluição pode reduzir seu poder de voto e o valor de mercado da sua participação.
2. **Você comprou depois da queda:** O preço está em baixa histórica. Para investidores de longo prazo, pode ser uma oportunidade de comprar barato, contando que a reestruturação dê certo.
3. **Você não tem ações, mas pensa em investir:** Avalie o risco. Empresas em recuperação judicial são mais voláteis, mas também podem oferecer retornos significativos se conseguirem se reerguer.

É importante lembrar que a queda de 70% não significa que a Azul vai à falência. Na verdade, o objetivo da oferta de **R$ 7,4 bilhões** em ações é justamente reduzir o endividamento e dar fôlego para a companhia reorganizar suas finanças.

## O que está por trás das dívidas da Azul?

A pandemia de Covid‑19 foi o gatilho principal. Quando o tráfego aéreo despencou, as companhias perderam receita enquanto os custos fixos – como leasing de aeronaves e salários – permaneceram altos. Somado a isso, tivemos:

– **Desvalorização do real frente ao dólar:** A compra de combustível e peças em moeda estrangeira ficou mais cara.
– **Aumento dos preços do combustível:** Um dos maiores custos operacionais da aviação.
– **Pressões macroeconômicas:** Inflação e juros altos no Brasil elevaram o custo de capital.

Esses fatores empurraram a Azul a buscar um caminho de reorganização, como já fizeram a Gol (2024) e a Latam (2020).

## Qual o futuro da Azul?

A empresa já recebeu a aprovação da justiça americana em dezembro de 2023 para avançar com o plano. O próximo passo é a implementação das fases de captação de recursos e a consolidação da nova estrutura de capital.

Se tudo correr bem, a Azul pode:

– **Reduzir significativamente seu nível de endividamento;**
– **Melhorar a liquidez das ações,** facilitando a negociação no mercado;
– **Focar em rotas mais lucrativas** e otimizar a frota, que inclui o moderno A321M.

Entretanto, há riscos: a volatilidade do mercado de capitais, possíveis atrasos na implementação do plano e a necessidade de manter a confiança dos passageiros e investidores.

## O que eu faria?

Eu costumo dividir a decisão em duas perguntas:

– **Qual é o meu horizonte de investimento?** Se você pretende manter o papel por vários anos, pode tolerar a volatilidade inicial.
– **Qual a minha tolerância ao risco?** Se você não aguenta ver seu investimento despencar 70% de uma vez, talvez seja melhor buscar opções mais estáveis.

Para quem tem curiosidade, recomendo acompanhar os relatórios trimestrais da Azul, analisar a evolução da dívida líquida e observar como o preço das ações reage às notícias de implementação do plano.

## Conclusão

A queda das ações da Azul não é um sinal de catástrofe, mas sim o reflexo de um processo de reestruturação que, embora doloroso a curto prazo, pode trazer benefícios a longo prazo. Entender o que está por trás da conversão de dívida em ações ajuda a tomar decisões mais informadas, seja para vender, comprar ou simplesmente observar.

Se você ainda tem dúvidas, vale conversar com um consultor financeiro ou participar de comunidades de investidores que acompanham o setor aéreo. Afinal, o mercado de ações é feito de informação e paciência.

**Fique de olho nas próximas atualizações** – a Azul promete concluir o processo ainda este ano, e isso pode mudar o cenário de forma rápida.