Nos últimos dias, a manchete que tem circulado nos noticiários americanos é a nova ofensiva de Donald Trump contra o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Não é a primeira vez que o ex‑presidente tenta colocar pressão sobre o banco central, mas desta vez o tom está ainda mais agressivo: Trump chegou a ameaçar processar Powell por suposta má gestão das obras de reforma da sede do Fed, em Washington.
Para quem não acompanha de perto a política monetária dos Estados Unidos, pode parecer um detalhe técnico. Na prática, porém, a disputa tem implicações enormes para a economia global, para a taxa de juros que pagamos nos empréstimos e, claro, para o bolso de quem investe ou tem dívidas.
Vamos entender o que está acontecendo, por que isso importa para nós aqui no Brasil e quais podem ser os próximos passos desse embate entre a Casa Branca e o Fed.
O pano de fundo: a política de juros nos EUA
O Federal Reserve (Fed) tem a missão de controlar a inflação e garantir a estabilidade econômica. Uma das ferramentas principais é a taxa básica de juros – o chamado federal funds rate. Quando o Fed aumenta a taxa, o crédito fica mais caro, o consumo desacelera e a inflação tende a cair. Quando corta a taxa, o crédito fica mais barato, estimulando investimentos e consumo, mas correndo o risco de aquecer a economia demais.
Desde o início de 2023, o Fed tem caminhado lentamente para reduzir a taxa, que chegou a 5,25 %‑5,50 % ao ano. Em 2024, o banco central já fez três cortes consecutivos, chegando a um intervalo entre 3,50 % e 3,75 % ao ano – o menor nível desde setembro de 2022. Ainda assim, a inflação permanece acima da meta de 2 %, o que deixa o Fed cauteloso.
Por que Trump quer cortes mais profundos?
Donald Trump, que ainda tem forte influência sobre o Partido Republicano, tem defendido que os juros deveriam estar “de dois a três pontos percentuais mais baixos”. A lógica dele é simples: juros menores significam empréstimos mais baratos, o que poderia impulsionar o crescimento econômico e, teoricamente, melhorar a popularidade de seu legado.
No entanto, a relação entre taxa de juros e crescimento não é linear. Reduções abruptas podem gerar bolhas de ativos, desvalorizar a moeda e, em casos extremos, levar a crises de crédito. O Fed, por sua vez, tem a responsabilidade de equilibrar esses riscos, priorizando a estabilidade de preços.
A escalada das tensões: de críticas a ameaças de processo
Trump não se contentou apenas com críticas nas redes sociais. Em junho, ele chamou Powell de “burro” e “teimoso”. Mais recentemente, o presidente ameaçou levar Powell à Justiça, alegando que o chefe do Fed teria mentido ao Congresso sobre os custos da reforma da sede do banco central. Segundo o governo, o projeto ultrapassou o orçamento inicial e Powell teria prestado informações incorretas.
Powell respondeu que a investigação faz parte de uma “estratégia sem precedentes” de pressão política para forçar cortes mais agressivos nos juros, mesmo com a inflação ainda alta. Ele enfatizou que o Fed age com base em evidências econômicas, não nas preferências pessoais do presidente.
O que a Justiça tem a dizer?
A Procuradoria dos EUA no Distrito de Colúmbia recebeu uma intimação para investigar o depoimento de Powell ao Congresso em junho do ano passado. A investigação foi autorizada por Jeanine Pirro, procuradora nomeada por Trump. Até o momento, não há indícios de fraude, mas o simples fato de abrir um processo criminal contra o presidente do Fed é inédito e pode criar um precedente perigoso para a independência da instituição.
Vale lembrar que, em 2023, Trump tentou demitir Lisa Cook, diretora do Fed, e o governo federal impediu a ação, reforçando a ideia de que o banco central deve operar livremente das interferências executivas.
Por que a independência do Fed importa para nós?
Se o Fed ceder à pressão política e reduzir os juros de forma descontrolada, podemos enfrentar uma série de efeitos colaterais:
- Desvalorização do dólar: juros mais baixos tornam a moeda menos atrativa para investidores estrangeiros, o que pode enfraquecer o câmbio.
- Aumento da inflação: crédito barato pode inflar preços de bens e serviços, afetando o custo de vida.
- Instabilidade nos mercados: investidores globais monitoram a política do Fed; decisões inesperadas podem gerar volatilidade nos mercados de ações e títulos.
Para o Brasil, tudo isso tem reflexos diretos: um dólar mais fraco pode aliviar a pressão inflacionária importada, mas também pode encarecer commodities exportadas. Além disso, a política de juros dos EUA influencia a taxa Selic, já que o Banco Central do Brasil costuma ajustar sua taxa para manter a atratividade dos investimentos internos.
Qual o futuro da disputa?
Três cenários são possíveis:
- Conciliação: Trump e os republicanos podem aceitar que o Fed continue com sua política cautelosa, talvez negociando cortes moderados nos juros.
- Escalada legal: Caso a investigação avance, Powell pode enfrentar processos que, mesmo que não resultem em condenação, criem um clima de insegurança institucional.
- Intervenção política direta: Se o Congresso, dominado pelos republicanos, decidir alterar a lei que garante a independência do Fed, poderíamos assistir a uma mudança estrutural no sistema monetário americano.
Qualquer um desses caminhos terá impactos globais. A estabilidade do Fed é um pilar da confiança nos mercados financeiros internacionais. Quando essa confiança é abalada, os efeitos se espalham rapidamente, inclusive para a bolsa brasileira, para os juros internos e para a cotação do real.
O que podemos fazer como investidores e cidadãos?
Primeiro, manter a calma. Boatos de crises muitas vezes geram reações exageradas. Segundo, diversificar a carteira: incluir ativos que não dependam exclusivamente da taxa de juros americana, como imóveis, fundos de renda fixa local e moedas alternativas.
Além disso, fique de olho nas decisões do Banco Central do Brasil. Se o Fed mudar drasticamente sua política, o BC pode reagir ajustando a Selic para proteger a inflação e a estabilidade do real.
Em resumo, a briga entre Trump e Powell vai muito além de um desentendimento pessoal. Ela representa um teste à independência de uma das instituições mais importantes da economia mundial. Como isso afeta o nosso dia a dia? Mais juros baixos podem parecer atraentes, mas se forem fruto de pressão política, o risco de inflação e instabilidade pode superar os benefícios.
Fique atento às notícias, acompanhe as análises econômicas e, sobretudo, não deixe que o barulho político dite suas decisões financeiras. O futuro dos juros nos EUA ainda está sendo escrito, e nós somos parte desse grande cenário.


