Na última quarta‑feira, a Comissão Europeia deu um passo que pode mudar a dinâmica do comércio agropecuário entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Em meio a um clima de tensão – agricultores europeus temendo concorrência desleal de carne, açúcar e outros produtos sul‑americanos – a UE anunciou a redução de tarifas sobre fertilizantes e a possibilidade de suspender temporariamente a taxa de carbono nas fronteiras.
Mas por que esse assunto está tão quente? Para entender, é preciso olhar o panorama completo: há quase 25 anos em negociação, o acordo UE‑Mercosul envolve mais de 1 trilhão de dólares em comércio potencial. Enquanto a Europa vê nessa aliança uma forma de diversificar mercados e reduzir a dependência da China, o Brasil – maior exportador de soja, carne bovina e açúcar – espera abrir portas para seus produtos.
O que mudou nas tarifas?
- Tarifa padrão sobre ureia: redução de 6,5% para 0%.
- Tarifa sobre amônia: queda de 5,5% para 0%.
- Proposta de lei que permite isenções temporárias da taxa de carbono nas importações de fertilizantes.
Essas concessões foram apresentadas como um “pacote de boas‑vindas” ao agronegócio sul‑americano, que depende fortemente de insumos como ureia e amônia para manter a produtividade das lavouras.
Por que a taxa de carbono importa?
A taxa de carbono, implementada em 1º de janeiro, cobra pelo CO₂ emitido na produção de itens como aço e fertilizantes importados. O objetivo da UE é evitar que produtos mais baratos – mas com pegada de carbono mais alta – concorram de forma desleal com os produzidos dentro da própria Europa. No entanto, países como França e Itália pediram que fertilizantes fossem excluídos dessa cobrança, alegando que isso poderia encarecer a produção agrícola europeia.
Impactos para o produtor brasileiro
Para nós, que somos grandes exportadores de soja e milho, a redução das tarifas de fertilizantes pode significar custos menores na cadeia de produção. Menos gasto com insumos significa margens mais amplas e, potencialmente, preços mais competitivos no mercado europeu.
Além disso, a suspensão temporária da taxa de carbono pode abrir espaço para que fertilizantes produzidos no Brasil – que ainda tem uma matriz energética mais dependente de fontes fósseis – entrem no mercado europeu sem sofrer um ônus adicional.
Mas há um ponto de atenção: a mesma UE está preocupada com a entrada de carne bovina e açúcar a preços baixos. Se o acordo for assinado, esses produtos também poderão ganhar acesso facilitado, o que pode pressionar produtores locais tanto na Europa quanto no Brasil, que precisará competir não só em preço, mas também em padrões de qualidade e rastreabilidade.
O que os políticos europeus estão fazendo?
Para garantir a aprovação do acordo, a Comissão Europeia tem buscado apoio interno. Países como Alemanha e Espanha já demonstram apoio, enquanto França e Itália permanecem céticos, exigindo garantias de que a concorrência não será desleal. Polônia e Hungria também se opõem, principalmente por questões de soberania agrícola.
Recentemente, a UE propôs um pacote de ajuda de 45 bilhões de euros para agricultores europeus, como forma de acalmar as preocupações. Essa proposta inclui financiamento direto, apoio à transição para práticas mais sustentáveis e revisão de limites de resíduos de pesticidas nas importações.
Como o Brasil pode se preparar?
Se o acordo for ratificado, o agronegócio brasileiro precisará ajustar algumas estratégias:
- Investir em certificações internacionais: qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade serão cada vez mais exigidas pelos compradores europeus.
- Reforçar a competitividade dos insumos: apesar da redução de tarifas, os custos de produção ainda são altos. Parcerias com fabricantes de fertilizantes podem garantir preços mais justos.
- Monitorar a taxa de carbono: caso a suspensão seja temporária, o Brasil deve buscar reduzir sua própria pegada de carbono para não ser penalizado futuramente.
- Diversificar mercados: não depender apenas da UE; fortalecer relações com Ásia e América do Norte pode ser uma estratégia de mitigação.
O que vem pela frente?
O próximo passo é a aprovação do Parlamento Europeu. Se tudo correr bem, a assinatura pode acontecer ainda nesta semana. Contudo, a aprovação não é garantida – ainda há resistência de alguns membros que temem impactos negativos no setor agrícola interno.
Para o Brasil, a expectativa é grande, mas a cautela também é necessária. O acordo pode abrir portas, mas também traz desafios de competição e de adequação a normas ambientais cada vez mais rígidas.
Em resumo, a redução das tarifas de fertilizantes é um sinal de que a UE está disposta a fazer concessões para fechar o acordo. Para nós, produtores e exportadores, isso representa uma oportunidade de reduzir custos e ampliar a presença no mercado europeu, desde que estejamos preparados para atender às exigências de qualidade e sustentabilidade que vêm junto com a porta aberta.



