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Acordo UE‑Mercosul: O que muda para o Brasil e por que você deve ficar de olho

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Acordo UE‑Mercosul: O que muda para o Brasil e por que você deve ficar de olho

Na última sexta‑feira (9), os embaixadores da União Europeia deram o sinal verde, ainda que provisório, para o tão aguardado acordo comercial com o Mercosul. Essa aprovação abre caminho para a assinatura oficial, que deve transformar a relação comercial entre a Europa e a América do Sul. Mas, afinal, o que isso significa para o nosso dia a dia, para as indústrias brasileiras e até para a sua conta no supermercado?



Um pouco de história

As negociações entre a UE e o Mercosul começaram em 1999, mas só avançaram de forma consistente a partir de 2010. Foram mais de 25 anos de mesas‑redondas, documentos técnicos e, claro, muita política. O objetivo sempre foi criar a maior zona de livre comércio do planeta, unindo cerca de 450 milhões de consumidores. Até agora, a UE já tinha acordos com o Canadá, Japão e Coreia do Sul, mas nenhum tão abrangente quanto o que está sendo finalizado agora.



Como funciona o acordo?

Em linhas gerais, o tratado prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas sobre a maioria dos produtos. Para a UE, isso significa que cerca de 92% das exportações do Mercosul – soja, carne, café, açúcar – terão suas taxas baixas ou zero em até 15 anos. Do lado brasileiro, cerca de 91% das exportações para a Europa – máquinas, autopeças, produtos químicos – também se beneficiarão da mesma forma.

Além das tarifas, o acordo cria regras comuns para investimentos, padrões regulatórios e até questões ambientais. Um ponto que tem gerado muita discussão é a ampliação das cotas de produtos agrícolas isentos de tarifas, o que pode abrir espaço para que produtores europeus entrem em mercados que antes eram dominados por produtos latino‑americanos.



Quem ganha e quem perde?

Benefícios para o Brasil: O acesso facilitado a um mercado de 451 milhões de consumidores pode impulsionar setores que ainda são pouco explorados na Europa, como o de biocombustíveis, minerais críticos (lítio, níquel) e tecnologia agrícola. Pequenas e médias empresas que exportam máquinas e equipamentos industriais podem encontrar novos clientes sem a barreira das tarifas.

Desafios para o agronegócio: Agricultores europeus, sobretudo na França, temem que a entrada de carne bovina e soja brasileiras, produzidas com padrões diferentes, possa competir de forma desleal. Essa preocupação já gerou protestos nas ruas de Paris e Dublin.

Impacto no consumidor brasileiro: A redução de tarifas pode baratear produtos importados, como vinhos, queijos e chocolates premium. Por outro lado, produtores locais de laticínios e carnes podem enfrentar maior concorrência, exigindo investimentos em qualidade e sustentabilidade para se manterem competitivos.

Por que a Itália mudou de opinião?

Até dezembro, o governo italiano se mostrava cético, mas a primeira‑ministra Giorgia Meloni acabou apoiando o acordo, condicionando sua decisão a um pacote de 45 bilhões de euros para agricultores. Esse apoio foi decisivo porque, para que o tratado seja aprovado, a UE precisa da maioria qualificada no Conselho Europeu – ou seja, pelo menos 15 países que representem 65% da população do bloco.

A mudança italiana demonstra como a política interna dos países europeus pode influenciar acordos globais. Se a Itália tivesse mantido a oposição, o acordo poderia ter sido bloqueado, atrasando ainda mais a assinatura.

O que ainda falta?

Apesar da aprovação dos embaixadores, ainda são necessárias as confirmações por escrito até as 17h (horário de Bruxelas). Depois disso, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá assinar oficialmente o tratado. O próximo passo será a ratificação pelos parlamentos nacionais da UE e pelos países do Mercosul, processo que pode levar alguns anos.

Enquanto isso, empresas brasileiras já estão se preparando. Algumas indústrias têm investido em certificações de qualidade europeia, enquanto outras buscam parcerias estratégicas para entrar em cadeias de suprimentos europeias.

Como isso afeta a sua vida?

Se você costuma comprar vinhos importados, pode notar preços mais baixos nas prateleiras. Quem tem hobby de cozinhar com ingredientes exóticos pode encontrar mais opções de queijos e chocolates europeus. Para quem trabalha no setor industrial, há chances de novas oportunidades de exportação, especialmente se sua empresa produz componentes que são usados em máquinas agrícolas ou automotivas.

Por outro lado, produtores rurais locais podem precisar adaptar suas práticas para atender a padrões de sustentabilidade cada vez mais exigidos pelos compradores europeus. Isso pode significar investimentos em tecnologia, mas também abre portas para produtos premium com maior valor agregado.

O futuro do comércio global

O acordo UE‑Mercosul chega em um momento de tensão comercial mundial, com políticas protecionistas ainda presentes em alguns países. Ao criar uma alternativa à dependência da China, especialmente no fornecimento de minerais críticos como o lítio, o tratado pode reforçar a segurança de cadeias de suprimentos para baterias e veículos elétricos.

Além disso, ao reduzir barreiras, o acordo pode incentivar a cooperação em áreas como pesquisa agrícola, energia renovável e inovação tecnológica. Para o Brasil, isso representa uma chance de se posicionar como fornecedor estratégico não só de commodities, mas também de tecnologia e know‑how.

Em resumo, a aprovação dos embaixadores da UE é um passo importante, mas ainda há muito caminho a percorrer antes que o acordo entre em vigor. Enquanto isso, vale a pena ficar atento às oportunidades e aos possíveis ajustes que podem surgir nos setores produtivos do nosso país.

E você, já começou a pensar em como tirar proveito dessa nova era de comércio? Seja buscando novos fornecedores, seja acompanhando as mudanças nos preços dos produtos que você consome, o importante é estar informado.