Radar Fiscal

Liquidação do Banco Master nos EUA: o que isso significa para investidores brasileiros

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Liquidação do Banco Master nos EUA: o que isso significa para investidores brasileiros

Na última quinta‑feira (8), o juiz Scott M. Grossman, do Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida, reconheceu a liquidação do Banco Master e bloqueou todos os ativos da instituição em território americano. A decisão, que também alcança o LetsBank, a Master de Investimento e a corretora de câmbio, gera um efeito cascata que vai além das fronteiras dos Estados Unidos.



Para quem acompanha o caso de perto, a notícia traz um misto de alívio e preocupação. Alívio porque a liquidação extrajudicial já havia sido decretada pelo Banco Central e agora tem força executória nos EUA, o que impede que credores tentem cobrar dívidas ou penhorar bens do Master naquele país. Preocupação porque o bloqueio também sinaliza que a disputa judicial ainda está longe de terminar – ainda há espaço para novos recursos, investigações e, sobretudo, perdas para quem tinha dinheiro investido nos produtos do banco.



Mas, antes de mergulharmos nos detalhes técnicos, vale entender por que o Banco Master chegou a esse ponto. Fundado em 1974 como Máxima Corretora, o Master passou por várias reestruturações e, a partir de 2019, sob o comando de Daniel Vorcaro, adotou um modelo de crescimento agressivo. A estratégia consistia em captar recursos a juros muito altos – em alguns CDBs chegavam a 140% do CDI – e aplicar esses recursos em operações de risco elevado, na esperança de obter retornos que cobririam o custo da captação.



O que mudou com a decisão da Justiça dos EUA?

A ordem judicial tem três efeitos práticos imediatos:

  • Bloqueio total dos ativos do Master nos EUA: contas, imóveis, participações societárias e quaisquer bens que estejam sob jurisdição americana ficam indisponíveis para execução.
  • Suspensão de processos: qualquer ação que vise cobrar ou penhorar esses ativos está suspensa enquanto a decisão vigorar.
  • Facilidade para a liquidante – a EFB Regimes Especiais de Empresas – coletar provas, ouvir testemunhas e mapear o patrimônio do grupo.

Essas medidas reforçam a autoridade da liquidação brasileira, tornando‑a “vinculante e exequível” nos Estados Unidos, como destacou o magistrado.

Repercussões no Brasil

No Brasil, o Banco Central já havia decretado a liquidação extrajudicial em novembro passado, afastando a diretoria e acionando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para proteger correntistas e investidores até o limite de R$ 250 mil por pessoa. A decisão nos EUA, porém, traz duas consequências importantes:

  1. Maior segurança para os credores brasileiros: sabendo que os bens no exterior também estão bloqueados, há menos risco de que recursos escapem.
  2. Pressão sobre os processos judiciais: advogados de Vorcaro tentaram impedir o reconhecimento da liquidação nos EUA, mas foram rebatidos. Isso indica que a estratégia de usar tribunais estrangeiros para ganhar tempo pode não funcionar mais.

Impacto nos investidores de varejo

Se você, como eu, já ouviu falar de CDBs que pagavam 140% do CDI, saiba que esses títulos eram o coração da estratégia do Master. Eles atraíam investidores pessoa física que buscavam rendimentos acima da média, mas, na prática, eram financiados por juros altos que o banco precisava pagar. Quando o fluxo de novos recursos diminui, a estrutura entra em colapso.

Para quem ainda tem dinheiro investido nesses CDBs, a primeira ação é procurar o FGC. O fundo cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, e o processo de habilitação costuma ser rápido, mas exige documentação completa. Caso o valor investido seja superior ao teto, a diferença pode ficar sem garantia, o que reforça a importância de diversificar a carteira.

O que o caso Master nos ensina

Alguns aprendizados práticos que levo para a minha própria estratégia de investimento:

  • Desconfie de juros muito acima do mercado. Eles podem ser um sinal de que a instituição está pagando o preço de um risco elevado.
  • Cheque a saúde financeira da instituição. Relatórios do Banco Central, análises de agências de rating e, se possível, auditorias independentes são fontes valiosas.
  • Não coloque todo o seu patrimônio em um único produto. A diversificação protege contra falhas específicas de um emissor.
  • Fique atento às notícias regulatórias. Decisões do TCU, do Banco Central e de tribunais estrangeiros podem mudar o cenário de forma rápida.

O futuro do Master e o papel das autoridades

Com a liquidação reconhecida nos EUA, a EFB tem agora um caminho mais claro para mapear ativos no exterior, o que pode facilitar a recuperação de recursos para os credores. Ao mesmo tempo, a Polícia Federal já abriu inquérito para investigar a contratação de influenciadores que divulgaram mensagens de apoio ao Master nas redes sociais – um caso que evidencia como a guerra de narrativas pode influenciar a percepção do público.

O TCU, que inicialmente pretendia inspecionar o Banco Central, recuou após recurso do BC, mas o caso foi levado ao plenário para evitar críticas. Essa movimentação demonstra que, mesmo em meio a polêmicas, as instituições buscam legitimidade e transparência.

Conclusão

Em resumo, a decisão da Justiça da Flórida reforça a liquidação do Banco Master e protege credores nos EUA, mas também deixa claro que o processo de recuperação ainda tem muito a percorrer. Para nós, investidores, a lição principal é manter a cautela ao buscar retornos extraordinários e estar sempre atento ao panorama regulatório.

Se você ainda tem algum título do Master ou conhece alguém que tem, vale a pena conversar com um consultor financeiro e iniciar o procedimento de habilitação junto ao FGC o quanto antes. E, claro, continue acompanhando as notícias – o cenário pode mudar a qualquer momento.