Eu sempre fico curioso quando escuto falar de acordos comerciais que parecem distantes, mas que acabam mexendo com a gente no dia a dia. O recente avanço do acordo de livre‑comércio entre a União Europeia e o Mercosul é um desses casos. Não é só um papo de diplomatas; tem a ver com o que você vai escolher na próxima visita ao supermercado ou à adega da esquina.
## Vinhos europeus: da prateleira cara ao copo acessível
Hoje, se você quiser um vinho francês ou italiano, tem que encarar uma taxa de importação de 27 % aqui no Brasil. Essa tarifa faz com que, na prática, um rótulo que custa 5 euros na Europa chegue ao consumidor brasileiro quase ao preço de um vinho de 15 euros. O resultado? A maioria das pessoas prefere comprar vinhos da Argentina ou do Chile, que já vêm mais baratos por causa da proximidade e das menores taxas.
Com o acordo UE‑Mercosul, essa tarifa será reduzida gradualmente a zero – entre 8 e 12 anos, dependendo do tipo de vinho. O que isso significa?
– **Mais variedade:** Rótulos que antes eram quase impossíveis de encontrar – como um Chianti clássico ou um Riesling alemão – vão aparecer nas prateleiras.
– **Preços mais competitivos:** Quando a taxa cair, os importadores vão poder repassar parte da economia ao consumidor. Não será um “vinho de 2 reais”, mas a diferença pode ser de 5 a 10 reais por garrafa.
– **Estímulo à cultura do vinho:** Mais opções e preços mais justos podem incentivar brasileiros a experimentar mais estilos, o que, por sua vez, aumenta a demanda por sommeliers, cursos de degustação e até empregos em bares e restaurantes.
### Por que ainda não vemos o preço cair imediatamente?
A redução das tarifas não acontece da noite para o dia. Primeiro, o acordo ainda precisa ser formalizado – os países da UE têm que enviar confirmações por escrito até as 17h (horário de Bruxelas). Depois, o cronograma de eliminação de tarifas se desenrola ao longo de anos. Enquanto isso, os produtores brasileiros de vinho, concentrados principalmente no Rio Grande do Sul, terão tempo para se adaptar, melhorar a qualidade e encontrar nichos de mercado que ainda não foram ocupados pelos europeus.
## Chocolates premium: mais luxo, mas não necessariamente mais barato
No caso do chocolate, a situação é um pouco diferente. O Brasil já tem uma indústria forte, com marcas que vão da Lacta à Dengo. O acordo propõe a redução da tarifa de importação de 20 % para zero – em duas fases, 10 anos para alguns produtos e 15 anos para outros. O efeito esperado?
– **Entrada de marcas premium:** Marcas como Lindt, Godiva ou até chocolaterias artesanais suíças podem abrir lojas ou quiosques em cidades menores, antes limitadas às capitais.
– **Maior disponibilidade:** Você poderá encontrar, por exemplo, um chocolate belga de alta qualidade nas gôndolas do seu supermercado local, algo que antes era raro.
– **Preço ainda elevado:** Mesmo com a tarifa zerada, o preço final ainda inclui custos de transporte, margem dos importadores e o valor do euro convertido em real. Portanto, não espere comprar uma caixa de Godiva por menos de R$ 30.
### Quem realmente ganha com a redução das tarifas?
– **Importadores:** Eles terão mais margem de lucro e poderão investir em distribuição, marketing e expansão de pontos de venda.
– **Consumidores da classe A:** Esses consumidores terão acesso a marcas premium que antes eram difíceis de encontrar. Para a maioria da população, porém, o impacto será mais de variedade do que de preço.
– **Setor de serviços:** Mais vinhos e chocolates no mercado significa mais demanda por sommeliers, chefs, atendentes de lojas especializadas e até cursos de degustação.
## O que isso muda para o seu bolso hoje?
Se você está lendo isso em 2024, ainda não verá mudanças drásticas. Mas vale ficar de olho nos próximos anos:
1. **Acompanhe o calendário de tarifas.** Quando a taxa de 27 % do vinho começar a cair, espere ver promoções de rótulos europeus nas grandes redes.
2. **Explore novas marcas.** Lojas online e importadores menores costumam ser os primeiros a trazer novidades quando as tarifas diminuem.
3. **Planeje compras estratégicas.** Se você tem um evento especial, como um jantar de aniversário, pode valer a pena comprar vinhos europeus agora, antes que a demanda aumente e os preços subam novamente.
## Olhando para o futuro
O acordo UE‑Mercosul ainda está em fase de ratificação, mas ele traz uma promessa de mais diversidade e competição no mercado brasileiro. Para o vinho, isso pode significar uma democratização gradual – mais gente podendo provar um Bordeaux ou um Prosecco sem precisar gastar uma fortuna. Para o chocolate, a mudança será mais de acesso a marcas de luxo, algo que agrada principalmente quem já tem o hábito de consumir produtos premium.
De modo geral, o impacto econômico será positivo, mas distribuído de forma desigual. Enquanto os produtores locais de vinho terão que se reinventar, os consumidores ganharão mais opções. E os importadores? Eles vão se tornar os grandes beneficiados, com margens maiores e mais espaço para inovar.
Fique de olho nas notícias sobre a assinatura do acordo e nos primeiros lotes de vinhos e chocolates que começarão a chegar nas prateleiras. Quem sabe a sua próxima escolha de bebida ou sobremesa não seja influenciada por esse grande movimento de integração econômica?
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*Este artigo foi escrito para trazer clareza sobre como um acordo internacional pode afetar o seu consumo diário. Se quiser saber mais, continue acompanhando nosso blog.*



