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Itália apoia acordo UE‑Mercosul: o que isso muda para o Brasil e o comércio mundial

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Itália apoia acordo UE‑Mercosul: o que isso muda para o Brasil e o comércio mundial

Depois de mais de 25 anos de negociações, o tão falado acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul está prestes a sair do papel. A última peça que faltava? O apoio da Itália. A decisão de Roma pode ser o ponto de virada que vai destravar a ratificação na sexta‑feira, 9 de novembro, quando o Conselho Europeu se reúne para votar.



Por que o voto italiano pesa tanto?

A UE funciona com um sistema de maioria qualificada: para aprovar um tratado, é preciso que os países que representem pelo menos 65% da população total do bloco estejam de acordo. A Itália, com mais de 60 milhões de habitantes, representa quase 12% desse total. Sem o “sim” de Roma, alcançar a barreira dos 65% fica muito mais difícil.

Além do peso demográfico, a Itália tem tradição de ser um “player” decisivo nas últimas rodadas de negociação. Quando o país se alinha à França, que tem se mostrado cética, o acordo pode sofrer um revés. Quando, ao contrário, segue a Alemanha e a Espanha, a aprovação fica praticamente garantida.



O que está em jogo para a agricultura?

O ponto sensível que atrasou o apoio italiano foi a chamada “salvaguarda agrícola”. Essas cláusulas permitem que, se houver risco de prejuízo aos produtores locais, a UE possa impor barreiras temporárias às importações. Até pouco tempo atrás, era preciso comprovar um aumento de 10% nas importações para acionar a medida.

Agora, a regra foi suavizada: basta um crescimento médio de 5% ao longo de três anos para produtos como carne bovina e aves. O prazo de investigação também foi reduzido de seis para três meses – ou até dois, nos casos mais críticos. Essa mudança facilita a reação dos governos europeus frente a eventuais surtos de importações que possam ameaçar os agricultores.

Para o Brasil, que exporta grandes volumes de carne, soja e outros produtos agrícolas, isso significa que o acesso ao mercado europeu pode ficar mais vulnerável a medidas de proteção pontuais. Por outro lado, a existência de um mecanismo claro pode trazer mais previsibilidade para os exportadores, que saberão exatamente quais são os gatilhos.



Impactos econômicos para o Brasil

Se o acordo for ratificado, o Mercosul – formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – ganhará acesso a um dos maiores blocos de consumo do mundo, que representa cerca de 447 milhões de pessoas. As tarifas sobre bens industriais e agrícolas serão reduzidas ou eliminadas gradualmente, o que pode ampliar a competitividade dos produtos brasileiros.

  • Exportações agrícolas: soja, carne bovina, frango, frutas tropicais e café terão tarifas menores, potencializando a penetração em mercados como Alemanha, França e Espanha.
  • Indústria: setores como automotivo, químico e de máquinas podem ganhar novos compradores europeus, impulsionando cadeias de suprimentos transatlânticas.
  • Investimentos: regras claras sobre propriedade intelectual e investimentos podem atrair mais capital europeu para projetos de energia renovável e infraestrutura no Brasil.

Mas há um lado cauteloso. Agricultores brasileiros temem que a concorrência com produtos europeus, especialmente de países com padrões ambientais mais rígidos, possa subir. A questão das agrotóxicos proibidos na UE, por exemplo, já gerou tensões, como a suspensão temporária de frutas sul‑americanas que contenham resíduos de certos fungicidas.

O panorama político na UE

Enquanto a Itália parece pronta para apoiar, a França mantém posição contrária. O presidente Emmanuel Macron argumenta que o acordo ameaça os agricultores franceses, que já enfrentam pressão de importações de produtos sul‑americanos mais baratos. Irlanda, Hungria e Polônia também se alinham ao bloqueio francês.

Do outro lado, Alemanha e Espanha defendem o tratado como forma de diversificar mercados e reduzir a dependência da China. O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, veem no acordo uma estratégia de fortalecimento da posição da UE no comércio global.

O que esperar nos próximos meses?

Se a Itália confirmar o apoio na reunião dos embaixadores da UE, a aprovação formal pode acontecer ainda nesta sexta‑feira. Após a ratificação europeia, o próximo passo será a assinatura oficial entre a UE e o Mercosul, prevista para janeiro de 2025.

No Brasil, o presidente Lula já sinalizou confiança de que a Itália vai mudar de posição, ressaltando que as preocupações dos agricultores europeus podem ser resolvidas rapidamente. Uma assinatura bem‑sucedida reforçaria a imagem de Lula como negociador ativo no cenário internacional.

Para quem acompanha o comércio internacional, a mensagem é clara: o acordo UE‑Mercosul tem potencial de remodelar cadeias de suprimentos, abrir novos mercados e criar oportunidades de investimento. Mas também traz desafios regulatórios e a necessidade de adaptar padrões de produção para atender às exigências europeias.

Em resumo, o apoio italiano pode ser o “voto de Minerva” que selará um pacto que já dura mais de duas décadas. O que isso significa para o consumidor brasileiro? Possivelmente mais opções de produtos importados a preços competitivos e, ao mesmo tempo, um estímulo para que produtores locais busquem padrões de qualidade ainda mais elevados.