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UE e Mercosul: o que a assinatura do acordo em 17 de janeiro significa para o Brasil e o seu bolso

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UE e Mercosul: o que a assinatura do acordo em 17 de janeiro significa para o Brasil e o seu bolso

Depois de mais de 30 anos de conversas, mesas redondas e, às vezes, muita paciência, a União Europeia e o Mercosul finalmente vão assinar um acordo que promete mudar a forma como compramos e vendemos produtos entre os dois blocos. A data está marcada: 17 de janeiro, no Paraguai. Mas, antes de celebrarmos, vale a pena entender o que isso realmente traz para a gente, que vive no dia a dia com preços de alimentos, eletrônicos e até o vinho da janta.



Por que esse acordo é tão importante?

Em termos simples, o tratado cria a maior zona de livre comércio do planeta. Isso significa que tarifas – aqueles impostos que incidem sobre produtos importados – vão ser reduzidas ou até eliminadas gradualmente. Para quem compra um carro alemão ou um queijo francês, isso pode se traduzir em preços mais baixos. Para quem exporta soja, carne ou café, abre portas para alcançar mais de 450 milhões de consumidores europeus.



O que muda na prática para o consumidor brasileiro?

Imagine que você gosta de um vinho tinto da Borgonha. Hoje, ele paga uma tarifa que encarece o rótulo nas prateleiras. Com o acordo, essas tarifas podem cair até 92% nos próximos 15 anos. Resultado? O vinho pode ficar mais barato, e a variedade nas lojas pode crescer. O mesmo vale para chocolates premium, que podem chegar em maior quantidade e com preços mais competitivos.

Mas não é só o que vem da Europa que muda. Produtos brasileiros como carne bovina, soja, café e até componentes de baterias (como o lítio) podem ganhar acesso facilitado ao mercado europeu. Isso pode gerar mais empregos nas áreas de produção e logística, além de incentivar investimentos estrangeiros em fábricas e centros de pesquisa aqui no Brasil.



Quem ganha e quem perde?

O vice‑presidente Geraldo Alckmin destacou que cerca de 30% dos exportadores brasileiros já vendem para a UE – são quase 9 mil empresas. Para elas, a redução de tarifas é um alívio e pode significar aumento de faturamento. Por outro lado, setores da agricultura europeia, sobretudo na França, temem a concorrência de produtos latino‑americanos mais baratos. Essa preocupação já gerou protestos e debates intensos nos parlamentos de Paris e Bruxelas.

Para o Brasil, o risco maior pode vir de setores que ainda dependem de proteção tarifária, como alguns produtores de laticínios ou de bens manufaturados que competem com produtos europeus de alta qualidade. Ainda assim, a expectativa geral é de que os benefícios superem os custos, principalmente se o país conseguir alinhar suas normas ambientais e de sustentabilidade – ponto que a UE tem cobrado.

Os bastidores da aprovação

A aprovação na Comissão Europeia foi quase unânime, mas o Parlamento ainda tem que ratificar o acordo. Países como a França e a Irlanda já se posicionaram contra, temendo impactos negativos nos seus agricultores. A Itália, que inicialmente era cética, acabou mudando de postura e deu o voto decisivo. Essa reviravolta mostrou como a política interna dos países membros pode influenciar acordos globais.

Na América do Sul, o Paraguai foi escolhido como palco da assinatura – uma escolha simbólica, já que o país tem sido um dos mais defensores da integração regional. O evento também reforça a importância do Mercosul como bloco, que inclui Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

O que vem depois da assinatura?

Assinar é só o primeiro passo. O tratado ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos dos países membros da UE e pelos governos do Mercosul. Depois disso, haverá um período de adaptação, onde tarifas serão reduzidas gradualmente. Empresas que já operam no comércio internacional devem ficar atentas aos prazos e às novas regras de origem, que determinam como um produto pode ser considerado “fabricado” em determinado bloco.

Para quem está pensando em empreender, vale a pena observar oportunidades de exportação. Pequenas e médias empresas podem buscar certificações que facilitem a entrada nos mercados europeus, como o selo de sustentabilidade ou de qualidade. Já os consumidores podem esperar mais variedade nas prateleiras e, possivelmente, preços mais competitivos.

Desafios e críticas

Mesmo com o otimismo, há quem aponte desafios. A agricultura europeia, por exemplo, tem medo de que a competição de soja e carne brasileira reduza preços internos e afete pequenos produtores. Na França, os agricultores organizaram protestos e pediram que o governo bloqueie o acordo. O Parlamento europeu terá que equilibrar esses interesses com os benefícios macroeconômicos que o tratado promete.

No Brasil, críticos apontam que a liberalização pode prejudicar setores que ainda precisam de proteção, como a indústria têxtil ou de calçados. Também há a questão ambiental: a UE quer garantias de que o Brasil cumpra metas de combate às mudanças climáticas. O governo brasileiro já se comprometeu a adotar práticas mais sustentáveis, mas a pressão internacional pode aumentar.

O que eu, como cidadão, devo fazer?

Ficar informado já é um grande passo. Quando o acordo entrar em vigor, você poderá notar mudanças nos preços dos produtos que compra. Se você tem uma pequena empresa, vale a pena conversar com consultores de comércio exterior para entender como aproveitar as novas oportunidades. E, claro, participar de debates locais – seja em associações de bairro ou em fóruns online – pode ajudar a garantir que as políticas públicas reflitam as necessidades da população.

Em resumo, a assinatura do acordo UE‑Mercosul em 17 de janeiro pode ser um divisor de águas para a economia brasileira. Ele traz promessas de mais empregos, investimentos e produtos mais baratos, mas também exige atenção aos impactos setoriais e ambientais. O futuro ainda está sendo escrito, e nós somos parte dele.