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Venezuela e EUA negociam a volta do petróleo: o que isso significa para o mundo?

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Venezuela e EUA negociam a volta do petróleo: o que isso significa para o mundo?

A notícia de que autoridades da Venezuela e dos Estados Unidos já estão conversando sobre a retomada da exportação de petróleo bruto venezuelano para os americanos parece um daqueles capítulos de novela internacional que a gente acha que só acontece em filmes. Mas a realidade é bem mais complexa, e entender o que está em jogo pode nos ajudar a perceber como esses acordos afetam não só os governos, mas também o preço da gasolina na bomba, a estabilidade de mercados emergentes e até a política interna de vários países.



## Por que a Venezuela está parada?

Desde dezembro, um embargo imposto pelos EUA – na época de Donald Trump – bloqueou a exportação de petróleo venezuelano. O efeito imediato foi que milhões de barris ficaram empilhados em navios e tanques de armazenamento, sem destino. Sem conseguir vender, a PDVSA (empresa estatal de petróleo) viu sua produção cair, pois não havia onde colocar o crú. A situação virou um verdadeiro gargalo: menos produção, menos receita, menos capacidade de investimento para melhorar a infraestrutura já decadente.

## O que mudou agora?

Segundo a Reuters, cinco fontes dos governos, da indústria e do transporte marítimo confirmaram que há discussões em curso para reabrir as rotas de exportação para as refinarias americanas. Se o acordo for fechado, os navios que antes se dirigiam à China – principal comprador nos últimos anos – poderiam mudar de rota e começar a abastecer a Costa do Golfo dos EUA.



### Por que os EUA se interessam?

– **Infraestrutura pronta**: As refinarias da Costa do Golfo são equipadas para processar o petróleo pesado da Venezuela.
– **Preços competitivos**: Em tempos de alta nos preços globais, o crú venezuelano pode ser uma alternativa mais barata.
– **Influência geopolítica**: Reabrir o mercado pode ser uma forma de pressionar o regime de Nicolás Maduro, ao mesmo tempo que garante energia a preços mais baixos para o consumidor americano.

## O papel da Chevron

A Chevron, gigante americana, já exporta entre 100 mil e 150 mil barris por dia de petróleo venezuelano, operando em joint ventures com a PDVSA. Ela se tornou, nas últimas semanas, a única empresa capaz de mover o combustível de forma contínua, já que outras companhias foram barradas pelas sanções. Se o acordo avançar, a Chevron pode ampliar significativamente seu volume, o que também significa mais dinheiro fluindo para a Venezuela – algo que o governo de Maduro precisa desesperadamente.



## Impactos para o consumidor brasileiro

Embora o Brasil não seja parte direta desse acordo, a dinâmica do mercado global de petróleo tem reflexos aqui. Quando a oferta de crú aumenta – especialmente de um fornecedor tão barato – os preços internacionais tendem a cair. Isso pode se traduzir em bombas de gasolina mais baratas nas próximas semanas, algo que certamente vai agradar a quem acompanha a conta de luz e de combustível no fim do mês.

## Desafios e limitações

– **Investimento pesado**: Como apontou Arne Lohmann Rasmussen, analista da Global Risk Management, aumentar a produção venezuelana não é tarefa simples. O país tem reservas gigantescas – cerca de 303 bilhões de barris – mas a maior parte está em áreas de extração difícil, que exigem tecnologia avançada e capitais que a Venezuela não tem.
– **Sanções persistentes**: Mesmo que os EUA abram caminho para a Chevron, outras sanções ainda limitam quem pode investir e operar no país. Isso cria um ambiente de incerteza que pode atrasar projetos de longo prazo.
– **Infraestrutura decadente**: A rede de oleodutos e refinarias venezuelanas está em estado crítico. Sem reparos urgentes, a produção pode continuar oscilando, o que afeta a confiabilidade das entregas.

## Um olhar histórico

O petróleo moldou a Venezuela por quase um século. Depois de descobrir grandes campos nas décadas de 1920 e 1930, o país se tornou um dos maiores produtores do mundo e ajudou a fundar a OPEP em 1960. A nacionalização em 1976 criou a PDVSA, que durante os governos de Hugo Chávez destinou grande parte da renda ao financiamento de programas sociais. Essa dependência quase total das exportações de petróleo – mais de 90% das receitas entre 1998 e 2019 – fez a economia vulnerável a choques externos.

Quando a produção despencou, de 3,7 milhões de barris por dia em 1970 para menos de 1 milhão hoje, as sanções americanas e a crise interna levaram a uma hiperinflação assustadora – mais de 344 mil por cento em 2019. O cenário econômico atual ainda reflete essa história de altos e baixos.

## O que esperar nos próximos meses?

1. **Negociação concreta**: Se os governos chegarem a um acordo formal, poderemos ver navios carregados de crú venezuelano nas águas do Golfo em poucos meses.
2. **Reação do mercado**: Os preços do petróleo podem reagir de forma volátil, especialmente se a produção da Venezuela subir de forma inesperada.
3. **Repercussão política**: Uma retomada das exportações pode ser usada por Trump (ou por quem vier a sucedê-lo) como prova de que a política externa americana está “funcionando”, ao mesmo tempo em que dá ao regime de Maduro uma válvula de escape econômica.
4. **Impacto nas relações China‑Venezuela**: A China tem sido o maior comprador nos últimos anos; se o fluxo mudar para os EUA, a parceria sino‑venezuelana pode sofrer ajustes estratégicos.

## Conclusão pessoal

Para mim, a notícia traz um misto de esperança e cautela. É bom ver que há espaço para negociação, que pode aliviar a crise humanitária venezuelana e trazer algum alívio ao mercado global. Mas, ao mesmo tempo, lembro que o petróleo nunca foi um caminho fácil para a estabilidade econômica. Países que dependem demais de um único recurso costumam enfrentar crises quando esse recurso entra em turbulência.

Se você, leitor, acompanha os preços da bomba ou se interessa por geopolítica, vale a pena ficar de olho nos próximos comunicados oficiais. Cada anúncio de produção ou de sanção tem o potencial de mudar a conta que você paga no final do mês.

**Fique atento**, compartilhe suas ideias nos comentários e, se quiser saber mais sobre como essas movimentações afetam o seu bolso, continue acompanhando nosso blog.