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Acordo UE‑Mercosul: O que muda para o Brasil e por que você deve se importar

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Acordo UE‑Mercosul: O que muda para o Brasil e por que você deve se importar

Na última sexta‑feira (9), os embaixadores da União Europeia deram um passo importante: aprovaram, provisoriamente, o acordo comercial com o Mercosul. Para quem não acompanha de perto a política internacional, pode parecer apenas mais um documento burocrático. Mas, na prática, esse tratado tem o potencial de transformar a forma como compramos vinhos, chocolates e até aparelhos eletrônicos. Vou contar como tudo isso funciona, o que está em jogo para agricultores, indústrias e consumidores, e por que você sente isso no bolso.



Um pouco de história

O caminho até aqui não foi curto. São mais de 25 anos de negociações, idas e vindas, mesas redondas e protestos. Quando a UE e o Mercosul começaram a conversar, a ideia era simples: abrir portas, reduzir tarifas e criar um bloco de quase 500 milhões de consumidores. Na época, parecia um sonho distante, mas com o tempo a necessidade de diversificar mercados – tanto para a Europa quanto para a América do Sul – foi crescendo.

Hoje, com a aprovação provisória, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem a carta verde para assinar o tratado. Ainda faltam confirmações escritas até as 17h (horário de Bruxelas), mas o sinal está dado: estamos prestes a entrar na maior área de livre comércio do mundo.



Como funciona o acordo?

Em linhas gerais, o tratado prevê:

  • Redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação.
  • Regras comuns para comércio de bens industriais e agrícolas.
  • Facilitação de investimentos e alinhamento de padrões regulatórios.

Para a UE, isso significa eliminar mais de 4 bilhões de euros em impostos sobre exportações a cada ano. Para o Mercosul, a meta é retirar tarifas sobre cerca de 91% das exportações europeias em 15 anos, e a UE fará o mesmo em 92% das exportações sul‑americanas. Em números, são bilhões de dólares que deixam de ser “cobrança extra” nas contas de empresas e consumidores.

O que isso traz para o brasileiro?

Se você mora no Brasil, as mudanças podem aparecer de forma sutil, mas perceptível:

  • Produtos mais baratos: Vinhos franceses, que hoje pagam tarifas elevadas, podem ficar mais acessíveis. O mesmo vale para queijos, azeites e até alguns tipos de máquinas agrícolas.
  • Mais concorrência: Chocolates premium europeus, cafés especiais e até smartphones podem ganhar espaço nas prateleiras, o que força as marcas locais a melhorar qualidade e preço.
  • Oportunidades para exportadores: Empresas brasileiras de carne, soja, café e minério de lítio terão acesso facilitado a um mercado de 451 milhões de consumidores, sem tantas barreiras tarifárias.

Mas nem tudo são flores. Agricultores europeus, especialmente na França, temem que produtos sul‑americanos mais baratos inundem seus mercados, reduzindo margens e colocando em risco empregos rurais. Essa preocupação se reflete nos protestos que aconteceram em Paris e em outras capitais europeias na mesma sexta‑feira.



Quem está a favor e quem está contra?

O apoio dentro da UE não é unânime. Países como Alemanha e Espanha defendem o acordo como estratégia para reduzir a dependência da China, sobretudo no fornecimento de minerais críticos como o lítio – essencial para baterias de carros elétricos. Por outro lado, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra ou se abstiveram, citando impactos negativos ao setor agrícola.

Um ponto de virada foi o apoio da Itália. Até dezembro, o governo italiano mostrava resistência, mas acabou mudando de posição, o que foi decisivo porque a ratificação exige maioria qualificada – ou seja, apoio de pelo menos 65% da população do bloco.

Impactos na prática: exemplos do dia a dia

Vamos imaginar três situações cotidianas para entender melhor:

  1. Jantar com vinho: Você compra um vinho tinto francês que, hoje, tem um custo adicional de cerca de 20% devido à tarifa. Com o acordo, esse percentual pode cair para menos de 5%, o que se traduz em alguns reais a menos na conta.
  2. Compra de smartphone: Um modelo fabricado na Coreia do Sul, mas montado na Europa, paga tarifas de importação sobre componentes sul‑americanos. A redução dessas tarifas pode baixar o preço final do aparelho, beneficiando quem gosta de estar sempre com a tecnologia mais nova.
  3. Exportação de soja: Um produtor de soja no Mato Grosso vê a possibilidade de vender direto para fábricas de biodiesel na Alemanha sem enfrentar tarifas elevadas. Isso aumenta a competitividade e pode abrir novas linhas de crédito para pequenos agricultores.

Esses são apenas exemplos, mas dão uma ideia de como um acordo comercial pode atravessar a cadeia produtiva e chegar até o consumidor final.

Desafios e críticas

Mesmo com os benefícios, há questões que ainda precisam ser resolvidas:

  • Proteção ambiental: A UE tem padrões ambientais mais rígidos que alguns países do Mercosul. Há temores de que a liberalização comercial incentive práticas agrícolas menos sustentáveis.
  • Setor agrícola europeu: Pequenos produtores podem enfrentar concorrência desleal se não houver mecanismos compensatórios.
  • Implementação prática: Reduzir tarifas é um passo, mas a harmonização de normas técnicas e de inspeção pode levar anos.

Essas questões provavelmente vão aparecer nas discussões que ainda virão antes da ratificação final pelo Parlamento Europeu.

O que esperar nos próximos meses?

Depois da aprovação provisória, ainda resta:

  • Envio das confirmações escritas pelos países membros da UE.
  • Debates no Parlamento Europeu, onde grupos de oposição ainda podem propor emendas ou solicitar mais garantias para agricultores.
  • Procedimentos de ratificação nos países do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – que também precisam aprovar o tratado em seus congressos.

Se tudo correr bem, a assinatura oficial pode acontecer ainda neste ano, e a entrada em vigor completa pode levar alguns anos, conforme as etapas de destarifação são implementadas.

Conclusão: por que você deve ficar de olho

Para quem não lida diretamente com comércio exterior, o acordo pode parecer distante. Mas, como mostrei, ele afeta o preço de produtos que compramos, abre oportunidades para negócios locais e influencia políticas de sustentabilidade. Além disso, a dinâmica entre a UE e o Mercosul pode servir de modelo para outras regiões que buscam reduzir a dependência de grandes potências como a China.

Se você tem uma pequena empresa, vale a pena acompanhar as mudanças regulatórias que podem surgir. Se é consumidor, prepare‑se para ver mais opções nas prateleiras e, quem sabe, alguns preços mais amigáveis. E se você tem curiosidade por política internacional, este é um momento raro de ver um acordo tão ambicioso avançar depois de décadas de discussões.

Em resumo, o acordo UE‑Mercosul não é só mais um documento assinado em Bruxelas. É um motor de mudanças que pode tocar a economia, o meio ambiente e até a nossa rotina diária. Fique atento, porque nos próximos meses vamos ver os primeiros efeitos concretos surgindo nas notícias, nas lojas e, quem sabe, até nas conversas de café.