Nos últimos dias, a imprensa tem falado muito sobre a possível intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. Mas, além das manchetes sensacionalistas, o que isso realmente significa para o mercado de petróleo da região e, principalmente, para o nosso bolso?
Por que a Venezuela ainda importa no mapa global?
A Venezuela detém cerca de 17% das reservas mundiais de petróleo – a maior parcela de qualquer país. Em teoria, isso a coloca como uma potência energética. Na prática, a produção caiu para cerca de 800 mil barris por dia, muito abaixo de países como Arábia Saudita ou mesmo dos EUA. A queda começou na era chavista, quando o governo nacionalizou o setor e as grandes companhias ocidentais deixaram o país.
O que Trump ganha com uma Venezuela mais aberta?
Segundo o economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a estratégia de Donald Trump vai muito além de “ajudar a Venezuela”. O objetivo seria limitar a presença da China no mercado latino‑americano de energia. Se a Venezuela voltar a produzir em níveis mais altos, a China – que já compra 80% do petróleo venezuelano a preços baixos – perderá um importante ponto de abastecimento.
Ao mesmo tempo, os EUA poderiam usar a Venezuela como contrapeso a outras nações que também buscam influência na região, como a Argentina de Javier Milei, a Bolívia de direita e a Guiana, onde a ExxonMobil e a Chevron já têm investimentos sólidos.
Impactos para a Petrobras e para o Brasil
Com a Venezuela potencialmente voltando ao jogo, a Petrobras sente a pressão. Em 2025, a estatal recebeu autorização para estudar a prospecção em um dos quase 300 blocos na margem equatorial brasileira. Agora, investidores internacionais podem se perguntar: “coloco meu dinheiro na Venezuela ou na margem equatorial?” Essa competição pode reduzir a margem de lucro da Petrobras, mas também pode acelerar a modernização e a busca por parceiros estratégicos.
Além disso, o aumento da oferta mundial tende a baixar ainda mais o preço do barril – que hoje gira em torno de US$ 60. Analistas já previam essa queda, mas a retomada da produção venezuelana pode intensificar a tendência.
Brasil como fornecedor chave da China
Mesmo que a Venezuela volte a produzir, o Brasil tem um caminho próprio para se tornar ainda mais relevante para Pequim. A produção brasileira deve passar de menos de 4 milhões de barris por dia para cerca de 5 milhões em 2027. Empresas chinesas já operam campos no país, produzindo cerca de 350 mil barris diários.
Isso cria uma situação curiosa: enquanto Trump tenta bloquear a China na Venezuela, a própria China está cada vez mais dependente do petróleo brasileiro. Um cenário de “ganha‑ganha” que pode mudar o tabuleiro geopolítico do petróleo.
O que isso significa para nós, consumidores?
Para quem acompanha a conta de luz ou o preço da gasolina, a principal consequência será a volatilidade dos preços. Se a oferta mundial crescer, os preços tendem a cair – o que pode ser bom a curto prazo. Mas há um risco: mais produção pode levar a um excesso de oferta, provocando crises de preços que afetam a rentabilidade das empresas nacionais e, em última instância, podem gerar cortes de investimentos em exploração e refino.
Outro ponto a observar é a questão dos investimentos estrangeiros. Se investidores americanos voltarem a apostar na Venezuela, pode haver um fluxo de capital que, indiretamente, beneficie projetos de infraestrutura no Brasil, como oleodutos e terminais de exportação.
Perspectivas para os próximos anos
- Curto prazo (1‑2 anos): Expectativa de queda nos preços do barril, com a Venezuela tentando retomar a produção e a China mantendo sua demanda alta.
- Médio prazo (3‑5 anos): Possível consolidação de uma “mini‑OPEP” liderada pelos EUA, que poderia influenciar decisões de produção da Venezuela, Bolívia e até da Argentina.
- Longo prazo (5+ anos): O Brasil pode se firmar como um dos principais fornecedores da China, reduzindo a dependência venezuelana e fortalecendo a posição da Petrobras no cenário global.
Em resumo, a investida de Trump na Venezuela não é só um jogada política; é um movimento que pode redefinir quem controla o petróleo na América Latina. Para nós, a mensagem é ficar de olho nos preços, nas decisões de investimento da Petrobras e nas alianças que se formam entre países que, à primeira vista, parecem estar em lados opostos da mesma moeda.
E você, já percebeu alguma mudança nos preços dos combustíveis nos últimos meses? Compartilhe sua experiência nos comentários – a gente adora trocar ideias sobre como a geopolítica afeta o dia a dia.


