Na última sexta‑feira, recebi a notícia que estava esperando há anos: a União Europeia e o Mercosul vão assinar um acordo comercial histórico no dia 17 de janeiro, em Assunção, Paraguai. Depois de mais de 30 anos de conversas, mesas redondas e muitas idas e vindas, finalmente chegou a hora de colocar a caneta no papel. Mas, antes de comemorar, vale a pena entender o que esse tratado traz de concreto para a gente, que vive de compras, exportações e, claro, da conta de luz no fim do mês.
O que está em jogo?
Em termos simples, o acordo promete reduzir ou eliminar gradualmente tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. Isso quer dizer que produtos europeus – como vinhos, queijos e chocolates – podem ficar mais baratos aqui no Brasil, enquanto nossas carnes, soja, café e até minerais como o lítio podem ganhar mais espaço nas prateleiras da Europa.
Por que isso importa para o consumidor?
- Preços mais baixos em alguns produtos importados: com tarifas menores, os importadores podem repassar a economia para o consumidor final. Pense naquele vinho tinto italiano que costuma custar quase o mesmo que um suco de caju; a diferença pode diminuir.
- Mais variedade nas prateleiras: a chegada de novos produtos pode ampliar a oferta, especialmente em nichos como chocolates premium ou queijos artesanais.
- Impacto nos produtores locais: nem tudo são flores. Agricultores europeus, especialmente na França, temem competição desleal. Isso pode gerar pressão por subsídios ou ajustes nas políticas agrícolas brasileiras.
Benefícios para as empresas brasileiras
Segundo o vice‑presidente Geraldo Alckmin, cerca de 30 % dos exportadores brasileiros já vendem para a UE – são aproximadamente 9 mil empresas. Para elas, a eliminação de tarifas pode significar:
- Aumento da competitividade dos nossos produtos no mercado europeu.
- Possibilidade de expandir a linha de produtos, investindo em qualidade e certificações que atendam às exigências europeias.
- Maior fluxo de investimentos europeus no Brasil, já que o acordo inclui cláusulas de proteção ao investimento.
Além disso, o tratado traz um compromisso do Brasil em combater as mudanças climáticas, o que pode abrir portas para financiamentos verdes e projetos de energia limpa.
Os desafios que ainda permanecem
Mesmo com a aprovação da Comissão Europeia, o acordo ainda precisa passar pelo Parlamento Europeu. Países como França e Irlanda já deixaram claro que vão votar contra, temendo prejuízos para seus agricultores. A França, por exemplo, tem um dos setores agrícolas mais protegidos do mundo e vê o Mercosul como concorrente de baixo custo.
Na prática, isso pode gerar:
- Possíveis retaliações tarifárias ou barreiras não‑tarifárias em setores sensíveis.
- Pressão para que o Brasil ajuste suas normas ambientais e de segurança alimentar.
- Debates internos sobre a soberania econômica versus os benefícios de um mercado ampliado.
O que muda para o pequeno empreendedor?
Se você tem uma pequena fábrica de móveis, por exemplo, pode começar a importar componentes de aço ou madeira da Europa a custos menores. Por outro lado, se produz alimentos artesanais, terá que se atentar às novas regras de rotulagem e certificação que a UE exige. O ponto crucial é se preparar: buscar informações, participar de feiras de negócios e, se possível, contar com consultorias especializadas em comércio exterior.
Como o acordo se encaixa no cenário global?
O bloco europeu vê no Mercosul uma alternativa à dependência da China, especialmente para minerais críticos como o lítio, essencial na fabricação de baterias. Ao mesmo tempo, o acordo serve como resposta a políticas protecionistas dos EUA, que têm levantado tarifas sobre produtos europeus.
Para o Brasil, isso pode significar mais autonomia estratégica: menos vulnerabilidade a choques externos e mais oportunidades de diversificar parceiros comerciais.
Próximos passos até a assinatura
O calendário está apertado. Depois da aprovação da Comissão Europeia, o Parlamento tem alguns meses para deliberar. Enquanto isso, governos e setores produtivos de ambos os lados continuam negociando detalhes, como cotas agrícolas e mecanismos de solução de disputas.
Se tudo correr como esperado, o acordo será assinado em 17 de janeiro e, nos próximos dois a três anos, começaremos a ver os efeitos práticos nas prateleiras, nos relatórios de exportação e, quem sabe, até nas nossas contas de luz.
Fique de olho nas notícias, participe de webinars e, se você tem um negócio que pode se beneficiar, comece a planejar agora. O futuro do comércio está mudando, e quem se antecipa costuma colher os melhores frutos.


