A notícia de que a Justiça dos Estados Unidos reconheceu a liquidação do Banco Master e bloqueou seus ativos no país tem gerado muitas dúvidas. Eu também fiquei intrigado quando li o caso. Afinal, o que acontece quando um banco brasileiro tem sua falência reconhecida em outro continente? E quais são as consequências práticas para investidores, correntistas e para a economia do nosso país?
## Por que a Justiça dos EUA entrou nessa?
O juiz Scott M. Grossman, do Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida, decidiu que a liquidação do Master, já decretada pelo Banco Central, tem força plena nos Estados Unidos. Isso significa que qualquer tentativa de cobrar, penhorar ou bloquear ativos do banco em solo americano está suspensa. A medida foi tomada a pedido da EFB Regimes Especiais de Empresas, a liquidante nomeada pelo BC.
Em termos simples, o que o magistrado fez foi garantir que o processo de liquidação brasileiro seja reconhecido e executado aqui fora, impedindo que credores estrangeiros façam movimentos que possam atrapalhar a ordem estabelecida no Brasil.
## Como isso afeta quem tem dinheiro no Master?
Se você era correntista ou investidor em CDBs do Banco Master, a primeira coisa a entender é que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já está acionado. Ele cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, então, se o seu investimento estava dentro desse limite, você tem direito à restituição – independentemente de onde estejam os ativos do banco.
Para quem tinha valores acima do teto, a situação é mais delicada. O bloqueio dos bens nos EUA impede que credores estrangeiros tomem esses recursos, mas não garante que eles serão devolvidos integralmente. Em geral, esses credores entram na fila de pagamento junto com os nacionais, e a ordem de prioridade segue a lei de falências.
– **Correntistas**: FGC cobre até R$ 250 mil.
– **Investidores de CDBs acima do teto**: ficam na fila de credores, risco maior.
– **Acionistas e controladores**: também entram na lista, mas costumam receber menos.
## O que motivou a liquidação?
O Banco Master tem uma história longa – fundado em 1974 como Máxima Corretora de Valores – mas o ponto de inflexão foi a aquisição do controle por Daniel Vorcaro em 2019. A estratégia foi de crescimento rápido, financiado por CDBs com juros absurdamente altos, chegando a 140% do CDI.
Essas taxas chamavam atenção porque indicavam dificuldade de captar recursos a custos menores no mercado tradicional. O banco acabou recorrendo a investidores pessoa física, oferecendo retornos que pareciam bons demais para ser verdade. Quando o custo da captação sobe demais, o risco de desequilíbrio financeiro aumenta exponencialmente.
Além disso, investigações da Polícia Federal revelaram que parte dos recursos captados foi usada para cobrir déficits operacionais e honrar compromissos antigos – um modelo de “pump and dump” financeiro que depende de entrada constante de novos recursos.
## A tentativa de venda ao BRB e o papel do TCU
Em março de 2025, o Master negociou a venda de 58% do capital ao Banco de Brasília (BRB) por cerca de R$ 2 bilhões. A operação, porém, encontrou forte resistência de órgãos de controle. O Ministério Público e o Tribunal de Contas da União (TCU) apontaram falta de transparência e risco para acionistas do banco público.
O TCU chegou a ordenar uma inspeção no Banco Central, mas acabou suspendendo a medida após recurso do BC. O ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso, acatou o pedido, gerando um recuo que aumentou ainda mais a tensão entre as instituições.
## Por que isso importa para o cidadão comum?
Mesmo que você não tenha nenhum vínculo direto com o Master, a situação traz lições importantes sobre o ambiente de investimentos no Brasil:
1. **Cuidado com promessas de retorno muito acima do mercado** – juros de 140% do CDI são um sinal de alerta. Eles indicam que a instituição está pagando mais do que consegue sustentar.
2. **Entenda a cobertura do FGC** – saber que o FGC protege até R$ 250 mil pode mudar sua estratégia de diversificação.
3. **Acompanhe a regulação** – decisões do BC, do TCU e da Justiça dos EUA mostram como a cooperação internacional pode influenciar processos locais.
## O que esperar nos próximos meses?
A liquidação já está em curso, mas ainda há muitas peças em movimento:
– **Audiências e produção de provas**: a EFB pode ouvir testemunhas e requisitar documentos sobre ativos e passivos do Master nos EUA.
– **Investigação da PF**: o inquérito sobre a contratação de influenciadores para atacar ou defender o banco está aberto. Isso pode revelar ainda mais quem se beneficiou da crise.
– **Decisões do TCU**: o caso será levado ao plenário, o que pode gerar um posicionamento mais forte da Corte de Contas sobre a questão.
Para quem acompanha o mercado, esses desdobramentos podem abrir oportunidades – por exemplo, a venda de ativos de bancos em dificuldades ou a entrada de novos players que buscam preencher a lacuna deixada pelo Master.
## Conclusão: lições e perspectivas
O reconhecimento da liquidação do Banco Master nos EUA é mais do que um detalhe jurídico; ele demonstra como a interconexão dos mercados financeiros exige atenção redobrada. A experiência do Master serve de alerta sobre modelos de negócio insustentáveis, a importância da regulação efetiva e o papel das instituições de proteção ao investidor.
Se você tem investimentos em renda fixa, vale a pena revisar a carteira, conferir se está dentro dos limites do FGC e diversificar. Se ainda não conhece bem o FGC, dedique um tempo para entender como ele funciona – pode ser a diferença entre perder tudo e recuperar parte do seu dinheiro.
Acompanhar as notícias, entender os processos de liquidação e ficar atento às decisões de órgãos como o TCU e a Polícia Federal são hábitos que ajudam a proteger seu patrimônio. E, claro, sempre desconfie de promessas de retorno extraordinário sem explicação clara – o mercado costuma equilibrar as coisas no longo prazo.
Em resumo, a história do Banco Master é um lembrete de que a solidez financeira não se constrói apenas com números altos, mas com transparência, governança e respeito às regras. Vamos observar como os próximos capítulos se desenrolam e, enquanto isso, manter a cautela nas nossas decisões de investimento.


