Na última sexta‑feira (9), a maioria dos 27 países da União Europeia deu um voto favorável ao tão aguardado acordo comercial com o Mercosul. Ainda que a aprovação ainda precise ser confirmada por escrito até 17h (horário de Bruxelas), a notícia já está circulando como fogo em palha seca nas rodas de conversa de quem acompanha economia e comércio internacional.
Para quem não está acostumado a acompanhar acordos de livre comércio, pode parecer algo distante, quase só para diplomatas e grandes corporações. Mas a verdade é que esse tratado tem o potencial de mudar a forma como compramos, vendemos e até mesmo como pensamos sobre a produção de alimentos e bens industriais aqui no Brasil.
Um pouco de história – por que demorou tanto?
O caminho até aqui foi longo: as negociações começaram em 1999, logo após a criação do Mercosul. Foram mais de 25 anos de mesas redondas, idas e vindas, e um monte de cláusulas que precisaram ser afinadas. Cada bloco tem seus interesses – a UE quer acesso a novos mercados e o Mercosul quer reduzir tarifas que ainda são altas para produtos europeus.
O que mudou nos últimos anos? Primeiro, a pressão de empresas brasileiras que veem na Europa um mercado de 451 milhões de consumidores. Segundo, a necessidade da UE de diversificar suas fontes de importação, especialmente após as tensões comerciais globais.
Quem ganha e quem perde?
Não existe acordo que beneficie 100% dos envolvidos. Aqui vai um panorama rápido, em forma de lista, para facilitar a visualização:
- Exportadores brasileiros de carne, soja e café: podem ver tarifas reduzidas, o que significa preços mais competitivos na Europa.
- Indústrias brasileiras de máquinas e equipamentos: terão acesso mais fácil a componentes europeus, potencialmente reduzindo custos de produção.
- Consumidores europeus: ganharão mais opções de produtos sul‑americanos, possivelmente a preços menores.
- Agricultores franceses e de outros países da UE: temem concorrência de produtos latino‑americanos mais baratos, o que pode pressionar os preços internos.
- Pequenos produtores brasileiros: podem enfrentar desafios para se adequar a padrões sanitários e ambientais mais rígidos da UE.
Essas diferenças explicam por que países como a França e a Irlanda ainda se mostram relutantes. O presidente francês, Emmanuel Macron, já declarou que o voto de Paris seria contra o acordo, citando impactos limitados ao crescimento europeu.
O que muda na prática para o brasileiro comum?
Talvez você esteja se perguntando: “E eu, que não trabalho com exportação, como isso me afeta?” A resposta está nos efeitos colaterais que se espalham pela cadeia produtiva:
- Preços de alimentos importados: se a UE reduzir tarifas sobre produtos como queijos, vinhos ou chocolates, pode haver uma leve queda nos preços desses itens nas prateleiras.
- Empregos na indústria: com maior competitividade, empresas brasileiras podem expandir suas linhas de produção, gerando novos postos de trabalho.
- Inovação e tecnologia: o acordo inclui cláusulas sobre padrões regulatórios e investimentos. Isso pode incentivar a adoção de tecnologias mais avançadas nas fábricas brasileiras.
- Impactos ambientais: a UE costuma exigir padrões mais rígidos de sustentabilidade. Isso pode pressionar produtores a adotar práticas mais verdes – algo que, a longo prazo, pode beneficiar o planeta.
É claro que esses efeitos não são imediatos. Leva tempo para que as tarifas sejam efetivamente reduzidas e para que as empresas se adaptem às novas regras. Mas o ponto principal é que o acordo abre portas que antes estavam trancadas.
Desafios que ainda precisam ser superados
Mesmo com a maioria dos votos positivos, ainda há obstáculos:
- Confirmações formais: os países precisam enviar suas confirmações por escrito até o prazo estipulado. Qualquer atraso pode atrasar a assinatura oficial.
- Resistência interna da UE: grupos de agricultores, especialmente na França, podem pressionar seus governos a bloquear ou renegociar partes do acordo.
- Adaptação regulatória: empresas brasileiras terão que atender a normas europeias de segurança alimentar, direitos trabalhistas e meio ambiente, o que pode exigir investimentos significativos.
Se a assinatura acontecer na próxima segunda‑feira (12) em Assunção, Paraguai, como está previsto, o próximo passo será a ratificação pelos parlamentos de cada país. Esse processo pode levar meses, ou até anos, dependendo da complexidade política de cada nação.
Visão de futuro: a maior área de livre comércio do mundo?
Com a UE (cerca de 447 milhões de habitantes) e o Mercosul (aproximadamente 295 milhões), o acordo tem potencial para criar a maior zona de livre comércio do planeta. Isso não é só um número bonito; significa que, em teoria, mercadorias, serviços e investimentos podem fluir com menos barreiras entre dois blocos que representam quase 1,5 bilhão de consumidores.
Para o Brasil, isso pode significar mais estabilidade nas exportações, menos vulnerabilidade a choques externos e, quem sabe, um estímulo para diversificar a pauta exportadora, que ainda depende muito de commodities.
Mas, como todo grande projeto, o sucesso dependerá de como cada parte vai lidar com as questões sensíveis – principalmente as agrícolas. Se a UE conseguir equilibrar os interesses dos seus agricultores com a abertura comercial, o acordo pode ser um marco histórico. Caso contrário, pode gerar tensões que atrasem ou mesmo comprometam o tratado.
De qualquer forma, vale ficar de olho nas próximas semanas. O que acontece nos corredores de Bruxelas e Assunção pode, em poucos anos, estar refletido no preço da carne que compramos, no carro que dirigimos ou até no smartphone que usamos.
E você, já pensou como um acordo internacional pode impactar sua vida cotidiana? Compartilhe suas ideias nos comentários – adoro trocar ideia sobre esses temas que parecem distantes, mas que acabam chegando à nossa mesa de jantar.


