Radar Fiscal

Chevron e o futuro do petróleo venezuelano: o que a negociação com o governo Trump pode significar para o Brasil

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Chevron e o futuro do petróleo venezuelano: o que a negociação com o governo Trump pode significar para o Brasil

Quando a Reuters publicou que a Chevron está negociando a ampliação de sua licença para operar na Venezuela, eu quase senti o cheiro de petróleo no ar. Não é todo dia que vemos uma das maiores petroleiras americanas tentando abrir as portas de um país que, apesar de ter as maiores reservas do planeta, está praticamente bloqueado por sanções e crise econômica. Para quem acompanha de perto o mercado de energia, isso levanta uma série de perguntas: será que a Venezuela vai voltar a ser um fornecedor relevante? E, mais importante ainda, como isso pode impactar o Brasil, que depende tanto de importações de combustível?



Para entender o que está em jogo, é preciso voltar um pouco no tempo. Desde 2015, os Estados Unidos impuseram sanções à Venezuela, visando pressionar o governo de Nicolás Maduro. Essas medidas bloquearam praticamente todas as transações financeiras e impediram que grandes empresas ocidentais comprassem petróleo venezuelano. A única exceção foi a licença concedida à Chevron, que permite à empresa comprar até 500 mil barris por dia, mas apenas para uso interno em suas refinarias nos EUA.

A negociação atual, segundo fontes próximas, tem como objetivo expandir essa licença. Se aprovada, a Chevron poderia não só aumentar a quantidade de petróleo que compra, mas também revender o produto para outros compradores, inclusive dentro da própria América Latina. Isso significaria um salto de produção que, até agora, tem ficado em torno de 1 milhão de barris por dia – um número diminuto comparado aos 3,7 milhões que a Venezuela alcançou nos anos 70.



O presidente Donald Trump tem sido claro: quer ver as gigantes americanas investindo bilhões de dólares na infraestrutura venezuelana. Em um discurso após a prisão de Maduro, ele prometeu que as companhias de energia dos EUA “vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera que está em péssimo estado e começar a gerar lucro para o país”. O apelo é duplo – por um lado, reforçar a influência americana na região; por outro, abrir um novo mercado para o petróleo pesado, que combina bem com as refinarias da Costa do Golfo.

Mas a realidade técnica não é tão simples. O petróleo da Venezuela é predominantemente extrapesado, o que exige unidades de craqueamento e processos de refino mais caros. As refinarias dos EUA já têm a capacidade de processar esse tipo de crú, mas ainda precisam de investimentos em equipamentos que estão, em grande parte, obsoletos ou danificados pela falta de manutenção nos últimos anos. Analistas como Arne Lohmann Rasmussen apontam que, mesmo com capital disponível, a recuperação total pode levar de cinco a dez anos.



Do ponto de vista global, a Venezuela ainda guarda cerca de 303 bilhões de barris de reservas comprovadas – mais que a Arábia Saudita e o Irã juntos. No entanto, a maioria dessas reservas está em campos de difícil acesso, que exigem tecnologias avançadas, como perfuração em águas profundas e processos de extração de petróleo extrapesado. Sem o apoio de grandes investidores e a retirada das sanções, esses recursos permanecem subutilizados, transformando um potencial gigantesco em um ponto de dor econômica para o país.

Para o Brasil, a reabertura do mercado venezuelano pode trazer algumas oportunidades, mas também riscos. Por um lado, a possibilidade de comprar petróleo mais barato poderia aliviar a pressão sobre os preços dos combustíveis no país, especialmente se a Chevron começar a revender parte da produção para refinarias brasileiras. Por outro, um aumento da presença americana na região pode intensificar a rivalidade geopolítica, algo que o governo brasileiro costuma monitorar de perto.

Além disso, há o aspecto da segurança energética. Se a Venezuela conseguir, com investimentos externos, restaurar parte de sua capacidade produtiva, isso poderia criar uma fonte adicional de suprimento para a América do Sul, reduzindo a dependência de importações de petróleo do Oriente Médio. No entanto, a instabilidade política interna e a falta de um marco regulatório sólido ainda são barreiras que podem impedir qualquer avanço significativo.

Em resumo, a negociação da Chevron com o governo Trump pode ser vista como um termômetro da política energética dos EUA na região. Se a licença for ampliada, veremos um fluxo maior de capital americano para a Venezuela, um aumento na produção de petróleo pesado e, possivelmente, novos contratos de exportação que incluam países vizinhos. Para nós, brasileiros, isso pode significar preços mais competitivos nas bombas, mas também uma nova dinâmica de poder que exige atenção cuidadosa.

Eu, pessoalmente, fico dividido. Por um lado, a ideia de ver um país tão rico em recursos sair da crise é inspiradora. Por outro, lembro dos inúmeros acordos que prometem muito e entregam pouco quando as sanções e a política internacional entram em cena. O que fica claro é que o futuro do petróleo venezuelano ainda está longe de ser decidido, e cada passo da Chevron será observado de perto pelos investidores, governos e, claro, pelos consumidores que sentem o preço do combustível no bolso.