Quando penso em banana, a primeira imagem que me vem à cabeça é a fruta amarela, doce, pronta para o lanche da tarde. Mas, se você mora no Espírito Santo, talvez já tenha visto pilhas de bananas pequenas, machucadas ou com manchas que acabam indo direto para o lixo ou para o adubo. E se eu te contar que essas mesmas bananas podem virar um ingrediente valioso para a indústria, gerando renda extra para milhares de produtores?
O problema do desperdício na produção capixaba
Segundo o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), cerca de 10% da colheita de banana no estado não chega ao mercado porque não atende aos padrões de tamanho e aparência exigidos pelos supermercados. Essas frutas são, na prática, descartadas. Tradicionalmente, elas acabam como adubo ou alimento para animais, mas ainda assim representam um volume significativo de produção que poderia ser aproveitado.
O Espírito Santo cultiva banana em 75 das 78 cidades do estado, totalizando 28.600 hectares e cerca de 400 mil toneladas por ano. Alfredo Chaves, na região serrana, lidera a produção com mais de 44 toneladas anuais em apenas 3.200 hectares. A maioria dos produtores são famílias que dependem da banana para garantir a renda ao longo do ano.
Da fruta ao amido: como funciona a tecnologia?
A pesquisa desenvolvida pelo Ifes, em parceria com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), propõe um processo simples e de baixo custo para extrair amido das bananas que seriam descartadas. O método consiste em lavar, triturar e separar o amido por meio de centrifugação e secagem. O resultado? Um pó branco, fino e altamente versátil, pronto para ser usado na fabricação de farinhas, espessantes, produtos de panificação e até bioplásticos.
O extensionista Alciro Lazzarini, do Incaper, destaca que “o impacto seria enorme porque essas bananas que hoje viram adubo, poderiam ser aproveitadas na produção de farinha ou amido, reduzindo o desperdício”. Além de diminuir a quantidade de resíduos, o amido pode abrir portas para novas linhas de produção industrial no estado.
Benefícios diretos para os agricultores
Imagine que cada produtor perca, em média, 10% da sua produção – isso pode representar até mil reais a mais por mês, segundo estimativas da pesquisa. Se esse volume for convertido em amido, o agricultor ganha uma nova fonte de renda sem precisar ampliar a área cultivada. É praticamente dinheiro extra que vem da própria terra.
Além do ganho financeiro, a diversificação da produção traz mais segurança. Em tempos de flutuação de preços no mercado de banana in natura, ter um produto diferenciado como o amido pode equilibrar a balança, ajudando a regular os preços e a manter a estabilidade econômica das famílias.
Impactos na indústria alimentícia
Para as indústrias, o amido de banana oferece um ingrediente natural, livre de glúten e com propriedades funcionais interessantes. Ele pode substituir o amido de milho ou de batata em muitas receitas, atendendo à demanda crescente por produtos mais saudáveis e sustentáveis. Empresas de alimentos congelados, confeitaria e até de bebidas podem se beneficiar dessa nova matéria‑prima.
Ao criar uma cadeia produtiva que vai do campo ao laboratório, o estado também estimula a geração de empregos nas áreas de processamento, logística e pesquisa. Isso significa mais oportunidades de trabalho em regiões que ainda dependem principalmente da agricultura familiar.
Desafios e pontos a melhorar
Como toda iniciativa inovadora, a produção de amido a partir de bananas descartadas enfrenta alguns obstáculos. Primeiro, é preciso capacitar os produtores para coletar e armazenar as frutas de forma adequada, evitando que elas estraguem antes do processamento. Segundo, a infraestrutura de moagem e secagem ainda é limitada; investimentos em equipamentos modernos são essenciais para garantir qualidade e escala.
Outro ponto importante é a aceitação do mercado. Embora o amido de banana seja promissor, ele precisa conquistar consumidores e indústrias que já estão acostumados com outros tipos de amido. Campanhas de divulgação, certificações de qualidade e parcerias estratégicas podem acelerar esse processo.
O futuro: sustentabilidade e inovação no campo capixaba
O que me deixa mais empolgado é perceber como essa iniciativa se encaixa em uma tendência global: transformar resíduos agrícolas em recursos valiosos. Países como a Índia e a Tailândia já utilizam resíduos de banana para produzir biogás e papel. O Espírito Santo tem a chance de se tornar referência nacional, mostrando que é possível conciliar produção, lucro e preservação ambiental.
Se a pesquisa do Ifes evoluir para projetos piloto em cooperativas de agricultores, poderemos ver, em poucos anos, linhas de produção de amido de banana operando em cidades como Alfredo Chaves, Viana ou Linhares. Isso não só aumentaria a competitividade do estado no mercado interno, como também abriria portas para exportação.
Para quem vive de banana, a mensagem é clara: não descarte o que pode ser transformado. Para quem consome, vale a pena ficar de olho nos rótulos e escolher produtos que utilizam amido de banana – é uma escolha que apoia o produtor local e reduz o desperdício.
Em resumo, transformar bananas que vão para o lixo em amido industrial é mais que uma ideia criativa; é uma solução prática que pode gerar renda, empregos e um futuro mais sustentável para o Espírito Santo.



