Quando penso em petróleo, a primeira imagem que me vem à mente costuma ser a de campos dourados, torres de perfuração e navios carregados rumo ao mercado internacional. Mas a realidade da Venezuela é bem diferente: um país que detém cerca de 17% das reservas mundiais, mas que luta para transformar esse potencial em produção efetiva.
Recentemente, a captura de Nicolás Maduro pelos EUA trouxe à tona uma nova promessa do presidente Donald Trump: abrir o setor petrolífero venezuelano para grandes companhias norte‑americanas. A ideia, ao primeiro olhar, parece uma oportunidade de revitalizar a indústria. Na prática, porém, envolve uma série de desafios que vão desde a degradação da infraestrutura até o peso das sanções internacionais.
Para entender por que a Venezuela ainda está longe de aproveitar suas reservas recordes, precisamos mergulhar na história recente do país, analisar os números atuais e refletir sobre as implicações geopolíticas.
O tamanho das reservas: números que impressionam
- 303 bilhões de barris provados – mais que a Arábia Saudita (267 bi) e quase quatro vezes os EUA.
- Maioria do petróleo é extrapesado, exigindo tecnologia avançada e altos investimentos.
- Mesmo com esse volume, a produção diária está em torno de 1 milhão de barris – menos de 1% da produção global.
De boom a queda: a trajetória da produção
Nos anos 1970, a Venezuela produzia cerca de 3,7 milhões de barris por dia. Desde então, a produção despencou, atingindo o ponto mais baixo em 2021, com 665 mil barris diários. No último ano, houve uma leve recuperação, mas ainda está longe do potencial.
Por que a produção caiu?
Alguns fatores são decisivos:
- Infraestrutura precária: instalações antigas, falta de manutenção e equipamentos obsoletos.
- Sanções internacionais: restrições ao acesso a capital, tecnologia e mercados.
- Gestão da PDVSA: cortes orçamentários, greves e decisões políticas que afastaram investidores.
Dependência histórica do petróleo
Desde as descobertas nas décadas de 1920‑30, o petróleo moldou a economia venezuelana. A nacionalização em 1976 criou a PDVSA, que por décadas foi a principal fonte de receita. Entre 1998 e 2019, mais de 90% das exportações venezuelanas vieram do petróleo. Quando a produção caiu, o país entrou em crise profunda, com hiperinflação que chegou a 344.510% em 2019.
Sanções, PDVSA e a relação com os EUA
Os EUA têm uma longa história de interesse no petróleo venezuelano. Hoje, a Chevron é a única empresa americana ainda operando no país, graças a uma autorização especial. As sanções, porém, limitaram drasticamente a presença estrangeira, reduzindo investimentos críticos.
Geopolítica do petróleo venezuelano
O petróleo da Venezuela ainda é estratégico para os EUA, pois se adapta bem às refinarias americanas. A proposta de Trump de abrir o setor a companhias norte‑americanas tem um duplo objetivo: combater o narcotráfico (discurso oficial) e reduzir preços internos de combustíveis (interesse econômico).
Antes das sanções de 2019, os EUA eram o maior comprador do petróleo venezuelano. Agora, a China assumiu esse papel, trocando petróleo por empréstimos, o que intensifica a disputa entre Washington e Pequim na região.
Impactos econômicos atuais
Em 2024, a PDVSA faturou US$ 17,5 bilhões, com 58% da receita vindo das exportações de hidrocarbonetos. O governo recebeu US$ 10,41 bilhões em impostos e royalties. O PIB venezuelano mostrou sinais de recuperação: crescimento de 7,71% no primeiro semestre de 2025 e 8,71% no terceiro trimestre de 2025, impulsionado principalmente pelo setor petrolífero.
Entretanto, a dependência excessiva do petróleo deixa a economia vulnerável. Um estudo do Instituto Tricontinental estima que as sanções dos EUA causaram perdas de US$ 226 bilhões entre 2017 e 2024 – mais que o PIB atual do país.
O que isso significa para nós, leitores?
Mesmo que você não tenha planos de investir em petróleo, entender esse cenário ajuda a perceber como recursos naturais podem ser tanto uma bênção quanto uma maldição. Quando um país depende quase que totalmente de um único produto, qualquer choque – seja político, econômico ou tecnológico – pode transformar sua realidade da noite para o dia.
Para quem acompanha os preços dos combustíveis, a abertura do mercado venezuelano às empresas americanas pode, a longo prazo, influenciar o preço do diesel e da gasolina no Brasil. Mais oferta global tende a reduzir preços, mas isso só acontece se a produção venezuelana conseguir se recuperar de forma sustentável.
Possíveis caminhos para o futuro
Algumas estratégias que podem mudar o jogo:
- Investimento em tecnologia de extração: parcerias com empresas que dominam o fracking e a extração de petróleo extrapesado.
- Desenvolvimento de infraestrutura: modernizar refinarias, oleodutos e terminais de exportação.
- Diversificação econômica: reduzir a dependência do petróleo, investindo em agricultura, turismo e energia renovável.
Se a Venezuela conseguir implementar essas mudanças, o cenário pode mudar drasticamente nos próximos anos. Caso contrário, continuará presa a um ciclo de crises recorrentes.
Conclusão
As reservas recordes da Venezuela são um tesouro que ainda não foi totalmente explorado. A captura de Maduro e a promessa de abrir o setor a investidores norte‑americanos trazem esperança, mas também revelam o quão complexo é transformar potencial em realidade. Infraestrutura em ruínas, sanções rígidas e uma economia dependente de um único recurso criam um labirinto difícil de navegar.
Para nós, a lição é clara: recursos abundantes não garantem prosperidade. É preciso gestão, investimento e, sobretudo, diversificação. Enquanto isso, fique de olho nos preços dos combustíveis e nas notícias internacionais – elas podem impactar diretamente o seu bolso.



