Nos últimos dias, o assunto que tem ocupado as manchetes internacionais é a decisão dos Estados Unidos de assumir um controle “indefinido” sobre as exportações de petróleo da Venezuela. O secretário de Energia, Chris Wright, anunciou que o governo americano vai supervisionar a venda da produção venezuelana, enquanto o ex‑presidente Donald Trump chegou a dizer que o país latino‑americano entregaria até 50 milhões de barris aos EUA. Parece coisa de filme, mas tem implicações reais para a economia global e, claro, para quem acompanha de perto o mercado de energia.
Antes de mergulharmos nos detalhes, vale lembrar que a Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do planeta – cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Energy Information Administration (EIA). Essa cifra ultrapassa a da Arábia Saudita e do Irã, colocando o país em posição estratégica, mesmo que hoje sua produção real esteja em torno de 1 milhão de barris por dia, bem abaixo do potencial.
Mas por que os EUA querem controlar algo que, teoricamente, já está sob sanções? A resposta está no desejo de transformar um recurso abundante em uma alavanca política e econômica. Wright explicou que o governo Trump pretende “vender a produção proveniente da Venezuela para o mercado”, o que, na prática, significa que o lucro das exportações passaria pelos cofres americanos. Essa medida poderia gerar receitas para Washington e, ao mesmo tempo, pressionar o regime de Nicolás Maduro.
O contexto histórico: sanções e a crise da PDVSA
Para entender o que está em jogo, é preciso revisitar a história recente da indústria petrolífera venezuelana. A PDVSA, estatal de petróleo, foi alvo de sanções americanas desde 2019, após a acusação de corrupção e violações de direitos humanos. As restrições impediram que companhias internacionais comprassem equipamentos, tecnologia e até mesmo capital, deixando a infraestrutura em estado crítico.
Consequentemente, a produção despencou de mais de 2,5 milhões de barris por dia, na era de Hugo Chávez, para cerca de 1 milhão hoje. O país tem capacidade de produção muito maior, mas falta investimento e manutenção. É aí que entra a promessa de Trump de abrir o setor para as gigantes americanas, que poderiam injetar bilhões em modernização.
O que realmente significa “controle indefinido”?
Quando Wright fala em “controle significativo” e “indefinido”, ele se refere a duas frentes: primeiro, a supervisão das exportações – quem compra, a que preço e para onde vai; segundo, a destinação dos lucros, que seriam canalizados para o Tesouro dos EUA. Essa abordagem cria uma espécie de “guarda‑chuva” jurídico que permite aos americanos contornar sanções sem romper acordos internacionais.
Na prática, isso pode significar que empresas como ExxonMobil ou Chevron receberiam licenças temporárias para operar em campos venezuelanos, mas sob estrita vigilância de Washington. O dinheiro gerado seria convertido em dólares americanos, fortalecendo a balança comercial dos EUA e, ao mesmo tempo, reduzindo a capacidade de Maduro de usar o petróleo como moeda de troca diplomática.
Impactos para o mercado global de energia
Se os EUA começarem a comprar entre 30 e 50 milhões de barris – o que equivale a até dois meses de produção venezuelana – o efeito imediato será um aumento da oferta de petróleo “pesado” no mercado americano. As refinarias da Costa do Golfo, acostumadas a processar esse tipo de crú, poderiam melhorar seus estoques e reduzir preços domésticos.
Entretanto, há um lado menos otimista: a entrada de mais petróleo venezuelano pode pressionar os preços globais, afetando países que dependem de exportações de petróleo para equilibrar suas contas. Além disso, a dependência de um fornecedor politicamente volátil pode gerar incertezas para investidores.
Desafios técnicos e econômicos
Mesmo que o governo americano esteja disposto a investir, transformar a produção venezuelana em níveis “históricos” – que chegavam a cerca de 3 milhões de barris por dia – exigiria dezenas de bilhões de dólares e anos de trabalho. Como destacou Wright, “por que não?” mas a realidade inclui a necessidade de substituir bombas corroídas, reparar oleodutos e modernizar refinarias que não recebem manutenção há décadas.
Especialistas como Arne Lohmann Rasmussen, da Global Risk Management, alertam que o retorno pode ser lento. Investimentos massivos não garantem resultados imediatos; o risco de atrasos, corrupção e instabilidade política permanece alto.
Geopolítica: o que isso revela sobre a estratégia americana?
A decisão de controlar as vendas de petróleo venezuelano vai além da economia. É também um movimento de pressão sobre um regime que Washington considera antidemocrático. Ao garantir que os lucros do petróleo fluam para os EUA, o governo tenta minar a capacidade de Maduro de financiar aliados, como a Rússia ou a China.
Ao mesmo tempo, essa postura pode gerar atritos com outros países latino‑americanos, que veem a intervenção americana como mais um exemplo de ingerência. O Brasil, por exemplo, tem laços comerciais com a Venezuela e pode sentir os efeitos indiretos caso os preços do petróleo sofram volatilidade.
O futuro da produção venezuelana
Se tudo correr como o plano americano, a Venezuela poderia, a médio prazo, retomar parte de sua produção perdida, mas sob forte influência externa. A PDVSA, que já está enfraquecida, poderia se tornar um parceiro de joint‑venture com empresas norte‑americanas, perdendo parte da soberania sobre seu principal ativo.
Por outro lado, se as sanções permanecerem rígidas e os investimentos não forem suficientes, a produção pode permanecer estagnada, mantendo a Venezuela em um estado de dependência de ajuda humanitária e de fluxo de capitais externos controlados.
Conclusão: o que devemos observar?
Para quem acompanha o mercado de energia, a principal questão é como essa política afetará os preços do barril nos próximos meses. Para os analistas políticos, o foco será na resposta de Caracas e na reação de aliados como a Rússia. E para o cidadão comum, a mensagem é clara: o petróleo continua sendo uma moeda de poder, capaz de mudar estratégias de governos e influenciar a vida de milhões.
Se você acompanha de perto as notícias de energia, vale ficar de olho nas próximas declarações de Chris Wright e nas movimentações de grandes companhias americanas. O cenário ainda está se desenhando, e cada decisão pode ter repercussões que vão muito além das fronteiras da Venezuela.



