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Instabilidade na Venezuela faz ouro e prata dispararem: o que isso significa para o seu bolso

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Instabilidade na Venezuela faz ouro e prata dispararem: o que isso significa para o seu bolso

Na última segunda‑feira (5), os mercados internacionais acordaram com uma boa notícia para quem acompanha o preço dos metais preciosos: o ouro subiu 3% e a prata quase 8%. O que impulsionou esse salto foi a escalada da instabilidade política na Venezuela, depois da captura do presidente Nicolás Maduro por forças norte‑americanas. Se você já ouviu falar que ouro e prata são “refúgios seguros” em tempos de crise, agora é a hora de entender exatamente por que isso acontece e como isso pode afetar a sua carteira de investimentos.



Contexto político que mexeu nos metais

A Venezuela vive um dos momentos mais turbulentos de sua história recente. A retirada de Maduro, que ocorreu numa operação militar apoiada pelos Estados Unidos, gerou uma onda de incertezas sobre a continuidade das políticas econômicas e, principalmente, sobre a produção de petróleo – a maior fonte de receita do país. A presidente interina, Delcy Rodríguez, tentou abrir um canal de diálogo com o presidente americano Donald Trump, mas a tensão já estava instalada nos mercados.

Quando os investidores percebem risco geopolítico – seja por conflitos armados, sanções ou mudanças bruscas de governo – eles costumam procurar ativos que não dependam de nenhum país ou governo específico. O ouro, que tem sido usado como reserva de valor há milênios, e a prata, que combina essa característica com aplicações industriais, são os primeiros candidatos.



Por que o ouro sobe em tempos de crise?

O ouro tem duas funções principais no mundo financeiro: reserva de valor e proteção contra a inflação. Quando a confiança nas moedas fiduciárias (como o dólar ou o real) diminui, o ouro entra como um “dinheiro de verdade”. Ele não pode ser impresso, não tem risco de calote e, historicamente, mantém seu poder de compra ao longo de séculos.

Além disso, o metal não gera rendimentos (não paga juros nem dividendos), mas seu preço tende a subir quando as taxas de juros caem. No cenário atual, com a política monetária dos EUA ainda em fase de ajuste pós‑pandemia, os juros reais permanecem baixos, o que favorece ainda mais o ouro.

Prata: o irmão mais barato, mas com força própria

A prata costuma ser vista como o “ouro barato”. Ela tem tudo de seu irmão mais caro – reserva de valor, proteção contra inflação – mas ainda oferece um diferencial: sua demanda industrial. Desde painéis solares até eletrônicos, a prata está presente em muitas cadeias produtivas. Quando a economia global demonstra sinais de fraqueza, a prata pode reagir ainda mais rápido que o ouro, como aconteceu nesta segunda‑feira, quando subiu quase 8%.

Esse salto maior pode ser explicado por dois fatores: primeiro, investidores que buscam segurança podem iniciar suas posições em prata antes de migrar para ouro; segundo, a volatilidade dos mercados de energia (como o petróleo) costuma impulsionar a prata, que também é usada em componentes de energia limpa.



Como a crise venezuelana afeta o petróleo e, por consequência, os metais

Embora a Venezuela detenha as maiores reservas de petróleo do mundo, sua produção está em torno de um milhão de barris por dia – uma fração do que países como a Arábia Saudita produzem. Ainda assim, qualquer mudança na política de exportação venezuelana tem eco nos preços do petróleo, que por sua vez influenciam os metais.

Com o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciando a abertura do setor petrolífero venezuelano para grandes empresas americanas, o risco de um bloqueio prolongado diminuiu. Analistas da SEB apontam que isso pode levar a um fluxo mais estável de petróleo venezuelano ao mercado internacional, o que tende a reduzir a pressão inflacionária nos preços de energia. Menos pressão inflacionária costuma ser boa notícia para o ouro, pois reduz a necessidade de buscar refúgio em ativos alternativos.

O que isso significa para o investidor brasileiro?

Se você tem uma carteira de investimentos diversificada, esse movimento pode ser uma oportunidade de reforçar a parte de “proteção”. Muitos consultores recomendam que, em tempos de incerteza, entre 5% e 10% do patrimônio seja alocado em ativos de reserva, como ouro ou prata.

Mas atenção: a compra física de barras ou moedas exige cuidados com armazenamento e segurança. Uma alternativa prática são os fundos de investimento em ouro (ETF) ou os contratos futuros negociados na B3. Eles permitem exposição ao preço do metal sem precisar lidar com a logística de guarda.

  • ETF de ouro (BOVA11): acompanha o preço do ouro em dólares, com liquidez diária.
  • ETF de prata (SILV11): oferece exposição ao preço da prata, também com alta liquidez.
  • Fundos de metais preciosos: geridos por gestores especializados, podem combinar ouro, prata e até platina.

Para quem prefere a compra direta, vale observar a taxa de câmbio. O ouro está cotado a US$ 4.459,50 por onça‑troy (cerca de 31,1 g). Se o dólar está em alta, o preço em reais pode subir ainda mais, mesmo que o ouro mantenha o valor em dólares.



Riscos e armadilhas a evitar

Embora o ouro seja considerado seguro, ele não é isento de riscos. Primeiro, o preço pode ficar estagnado por períodos longos, especialmente se a inflação estiver sob controle e os juros subirem. Segundo, a volatilidade pode ser alta: em poucos dias o ouro pode perder até 5% de valor, o que pode assustar investidores menos experientes.

Outro ponto importante é a questão tributária. No Brasil, a venda de ouro físico ou de cotas de fundos está sujeita ao Imposto de Renda sobre ganhos de capital (15% sobre lucros acima de R$ 20 mil por mês). Já os ETFs têm tributação semelhante à de ações, com isenção para vendas até R$ 20 mil mensais.

História: ouro em crises anteriores

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Para colocar em perspectiva, vale lembrar que o ouro já reagiu de forma semelhante em outras crises:

  • Crise do petróleo (1973‑1974): o preço do ouro disparou de US$ 35 para quase US$ 200 por onça.
  • Queda da Bolsa de Nova‑York (2008): o ouro subiu mais de 30% enquanto o S&P 500 despencava.
  • Crise da zona euro (2011‑2012): o ouro alcançou recordes históricos acima de US$ 1.800.

Esses episódios mostram que, independentemente da origem da crise – seja geopolítica, econômica ou sanitária – o ouro costuma ser o “porto seguro” escolhido pelos investidores.

O futuro: o que esperar nos próximos meses?

Com a situação venezuelana ainda incerta, e as tensões entre EUA e Rússia ainda latentes, é provável que o ouro continue a ser bem‑recebido pelos mercados. Se o presidente interino da Venezuela conseguir estabilizar a produção de petróleo, poderemos ver uma leve correção nos preços do ouro, mas ainda dentro de uma faixa alta.

Quanto à prata, sua trajetória dependerá também da demanda industrial. Se a transição para energia limpa acelerar, a prata pode ganhar ainda mais força, já que é essencial para painéis solares e veículos elétricos.

Em resumo, para quem pensa em proteger o patrimônio ou buscar diversificação, a atual alta dos metais preciosos oferece um ponto de partida interessante. Avalie seu perfil de risco, considere a forma de exposição (física, ETF ou fundos) e não esqueça de levar em conta os custos de tributação e de armazenagem.

Se quiser acompanhar de perto as variações de preço, recomendo usar aplicativos de acompanhamento de cotações em tempo real e, claro, ficar de olho nas notícias sobre a Venezuela – elas podem ser o gatilho para a próxima grande movimentação nos mercados.