Quando penso em inovação no campo, a imagem que me vem à cabeça costuma ser a de drones sobrevoando grandes plantações ou sensores inteligentes espalhados por milhas de terra. Mas a última novidade que vi na TV TEM me fez repensar isso: produtores cultivando alfaces e outras hortaliças dentro de piscinas gigantes, cheias de água nutrida. Parece cena de ficção científica, mas é realidade aqui no interior de São Paulo.
O método, chamado de floating ou cultivo flutuante, funciona como uma hidroponia avançada. Em vez de bandejas ou tubos, as plantas crescem em tanques de 50 a 65 metros de comprimento por 8 metros de largura, cheios de água que contém todos os nutrientes que as raízes precisam. Cada um desses tanques comporta cerca de 50 mil pés de alface, rúcula, espinafre e outras variedades. No caso do produtor Vítor Marin, são 18 tanques que, juntos, entregam 47 toneladas de hortaliças por mês – o que representa 70% da produção total da fazenda.
Mas por que usar piscinas? A resposta está na eficiência. A água, ao contrário do solo, permite que os nutrientes sejam distribuídos de forma homogênea, garantindo que todas as plantas cresçam no mesmo ritmo. Além disso, a oxigenação é feita com nano‑bolhas, que aumentam a disponibilidade de oxigênio nas raízes e estimulam um crescimento mais rápido e saudável. Um sistema automatizado controla a irrigação, a temperatura e a cobertura das estufas, reduzindo a necessidade de mão‑de‑obra intensiva.
O resultado, na prática, é impressionante: 75 toneladas de hortaliças por mês quando somamos a produção tradicional de hidroponia. Essa quantidade não só abastece mercados regionais, como também reduz a dependência de importação de alimentos frescos. Para quem mora em grandes centros como São Paulo capital, isso significa ter alface mais fresca, produzida a menos de duas horas de distância.
Além da produtividade, o cultivo flutuante traz benefícios ambientais. Como a água circula em um sistema fechado, o consumo de recursos hídricos é muito menor que o da agricultura convencional. Não há necessidade de arar o solo, o que preserva a estrutura da terra e evita a erosão. Também diminui o uso de pesticidas, já que o ambiente aquático pode ser controlado com soluções biológicas mais precisas.
Entretanto, nem tudo são flores. O investimento inicial para montar uma piscina de 50 metros de comprimento e instalar o sistema de nano‑bolhas pode ser alto. Vítor admite que ainda mantém parte da produção em sistemas tradicionais porque o custo de entrada ainda é um obstáculo para pequenos produtores. Mas, segundo especialistas, o retorno do investimento costuma ser rápido, já que a produtividade aumenta em até 30% nos primeiros dois anos.
Para quem pensa em adotar a técnica, alguns passos são essenciais:
- Planejamento da estrutura: escolher um local plano, com fácil acesso à energia elétrica e à água.
- Instalação das bombas e dos difusores de nano‑bolhas: garantir que a oxigenação seja constante.
- Formulação da solução nutritiva: adaptar a concentração de macro e micronutrientes ao tipo de hortaliça.
- Automação: usar sensores de pH, condutividade elétrica e temperatura para ajustar a solução em tempo real.
Outra vantagem que costuma passar despercebida é a flexibilidade de cultivo. Como a água pode ser aquecida ou resfriada rapidamente, é possível produzir o ano inteiro, independentemente das condições climáticas externas. Isso abre espaço para diversificar a produção, experimentando variedades que antes eram inviáveis na região.
Mas será que esse modelo vai substituir totalmente a agricultura tradicional? Ainda não. Cada método tem seu nicho. O cultivo em solo ainda é mais barato para culturas de grande escala, como soja e milho, que exigem áreas extensas. O flutuante, por outro lado, brilha em hortaliças de alto valor agregado, onde qualidade e rapidez de colheita são diferenciais competitivos.
O futuro parece apontar para uma combinação de técnicas. Imagine um cenário onde fazendas de médio porte tenham áreas de solo, estufas hidropônicas e tanques flutuantes interligados por um sistema de gestão de recursos. Essa integração pode otimizar o uso de água, energia e insumos, criando um modelo mais resiliente frente às mudanças climáticas.
Se você ainda tem dúvidas, vale a pena visitar alguma fazenda que já utiliza o floating. Ver de perto a água cristalina, as raízes saudáveis e a colheita constante pode mudar a percepção sobre o que é possível fazer no campo. E, se estiver pensando em investir, procure consultorias especializadas em hidroponia avançada – elas podem ajudar a dimensionar o projeto e a garantir que o retorno seja tão rápido quanto o crescimento das plantas.
Em resumo, a técnica de cultivo em piscinas flutuantes está transformando a forma como produzimos hortaliças no interior de São Paulo. Mais produtividade, menor consumo de água, menos pesticidas e a possibilidade de produção o ano inteiro são argumentos fortes para quem busca inovação sustentável. Ainda há desafios, principalmente financeiros, mas a tendência é clara: a agricultura do futuro será cada vez mais inteligente, e o floating já está dando o primeiro passo.



