Os Correios sempre foram parte do nosso cotidiano – seja enviando um presente, recebendo uma conta ou acompanhando a entrega de uma compra online. Quando a estatal anuncia números que indicam queda de receitas e aumento de despesas, a gente sente que algo pode mudar na nossa rotina. Mas o que exatamente está acontecendo e como isso pode afetar a gente, cidadão comum? Vou destrinchar o orçamento de 2026 dos Correios, explicar o plano de reestruturação e, principalmente, trazer alguns insights práticos para quem depende desse serviço.
## Um panorama rápido do orçamento
Em 2026, os Correios preveem **R$ 17,7 bilhões** em receitas correntes – um recuo de 26% em relação ao ano anterior, quando a expectativa era de R$ 24 bilhões. Ao mesmo tempo, as despesas correntes devem subir **21%**, passando de R$ 24 bilhões em 2025 para **R$ 29 bilhões**. Em números simples: a empresa vai ganhar menos e gastar mais. Essa combinação gera um cenário de déficit que, se nada mudar, pode chegar a **R$ 23 bilhões** de prejuízo só em 2026.
## Por que as receitas estão despencando?
1. **Concorrência crescente** – Desde 2019, a participação dos Correios no mercado de encomendas caiu de 51% para 22% em 2025. Empresas privadas de logística, como a Jadlog e a Loggi, ganharam espaço, especialmente nas entregas internacionais.
2. **Taxa das blusinhas** – O programa *Remessa Conforme*, criado em 2023, impôs 20% de imposto sobre compras internacionais até US$ 50. Isso desestimula o uso dos Correios para pequenas importações.
3. **Queda geral de envios** – O volume de correspondências físicas continua em declínio, reflexo da digitalização de documentos e contas.
Esses fatores, somados, fizeram com que a receita até setembro de 2025 fosse apenas 60% do que se esperava para o ano inteiro. Para fechar a meta, a empresa precisaria arrecadar quase o dobro nos últimos três meses – algo pouco provável sem mudanças estruturais.
## Onde o dinheiro está indo?
– **Pessoal**: A folha de pagamento sobe R$ 1,5 bilhão (10,5%). Mesmo com o programa de demissão voluntária (PDV) que visa cortar até 15 mil cargos, a empresa ainda tem que pagar salários, benefícios e encargos.
– **Despesas operacionais**: Custos com prestação de serviços, publicidade e administração aumentam em R$ 5 bilhões.
– **Redução de gastos com dirigentes**: Curiosamente, os gastos com a alta gestão caem 33,48%, de R$ 13,9 milhões para R$ 8,8 milhões.
Além disso, os Correios já firmaram um empréstimo de **R$ 12 bilhões** com um consórcio de bancos (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa). O contrato tem carência de três anos e pagamentos que só começam em 2029, mas já indica que a estatal está recorrendo a crédito para equilibrar o caixa.
## O plano de reestruturação: o que muda na prática?
### 1. Corte de custos com pessoal
O objetivo é reduzir R$ 2,1 bilhões nos custos de folha, com um PDV que pode levar a demissões voluntárias de até 10 mil funcionários nos próximos dois anos. Isso representa um recorte de **18%** na folha total.
### 2. Venda de imóveis e fechamento de agências
A estatal pretende vender **R$ 1,5 bilhão** em imóveis que não são operacionais e fechar cerca de **mil agências** – um quinto do total de unidades. As agências mais deficitárias serão as primeiras a fechar, o que pode significar menos pontos de atendimento em cidades menores.
### 3. Redução de despesas com plano de saúde
A expectativa é economizar **R$ 500 milhões** por ano ao renegociar contratos de assistência médica.
### 4. Investimento em tecnologia (2027‑2030)
Um empréstimo de **R$ 4,4 bilhões** do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS será usado para automatizar centros de tratamento, renovar a frota de veículos e modernizar a TI. A ideia é tornar a operação mais eficiente e, quem sabe, recuperar parte da participação de mercado.
## Como isso afeta você?
– **Pra quem mora em cidades pequenas**: O fechamento de agências pode significar que você terá que percorrer distâncias maiores para enviar ou retirar correspondências. Fique atento às comunicações dos Correios sobre a localização de pontos de atendimento.
– **Para quem compra online**: A concorrência já está trazendo prazos menores e preços mais competitivos. Se os Correios reduzirem a frequência de entregas ou aumentarem tarifas, pode ser hora de experimentar outras transportadoras.
– **Empreendedores**: Pequenas empresas que dependem do serviço de envios podem precisar renegociar contratos ou buscar alternativas de logística para evitar surpresas com custos.
– **Consumidor final**: A taxa de juros dos empréstimos dos Correios (115% do CDI) indica que a estatal está pagando um preço alto por crédito. Caso isso se traduza em aumento de tarifas de envio, o bolso do consumidor será o primeiro a sentir.
## O que pode acontecer nos próximos anos?
– **Equilíbrio em 2026 e lucro em 2027?** – O plano prevê que, com os cortes e investimentos, a empresa volte a ter lucro a partir de 2027. Mas isso depende da execução eficaz das mudanças e da capacidade de reconquistar clientes.
– **Novos empréstimos?** – O presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, não descartou a necessidade de mais até **R$ 8 bilhões** em crédito. Se isso acontecer, pode haver mais pressão sobre o Tesouro e, indiretamente, sobre os contribuintes.
– **Transformação digital** – Se a modernização dos centros de tratamento for bem-sucedida, poderemos ver serviços mais rápidos, rastreamento em tempo real e, talvez, novos produtos digitais (como carteiras eletrônicas ou soluções de e‑commerce integradas).
## Dicas práticas para se preparar
1. **Confira o ponto de atendimento mais próximo** – Use o site dos Correios ou aplicativos de mapa para saber se a agência da sua região vai permanecer aberta.
2. **Avalie alternativas de entrega** – Se você costuma enviar encomendas com frequência, pesquise preços e prazos de concorrentes como Jadlog, Total Express ou transportadoras regionais.
3. **Acompanhe as tarifas** – As tarifas de postagem podem ser reajustadas a partir de 2026. Fique de olho nas publicações oficiais e nos comunicados da empresa.
4. **Planeje com antecedência** – Se você tem um negócio que depende de envios mensais, considere firmar contratos de longo prazo com descontos ou criar um estoque de material de embalagem para evitar custos inesperados.
## Conclusão
Os números dos Correios para 2026 pintam um quadro desafiador: menos receitas, mais despesas e a necessidade de empréstimos. O plano de reestruturação tenta cortar custos, vender ativos e investir em tecnologia, mas o sucesso dependerá da execução e da resposta do mercado. Para nós, usuários, o impacto pode ser sentido nas agências que fecham, nas tarifas que aumentam e nas opções de entrega que se multiplicam. A boa notícia é que a concorrência está cada vez mais forte, o que pode nos dar mais escolha e, potencialmente, melhores preços.
Fique atento às mudanças, planeje seus envios e, se possível, explore alternativas. Afinal, o futuro dos Correios ainda está sendo escrito, e nós fazemos parte dessa história.



