Na última sexta‑feira, as ruas de Caracas foram marcadas por explosões e, em meio ao caos, os Estados Unidos anunciaram a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa. O que parecia mais uma operação de combate ao narcotráfico acabou revelando uma teia de interesses muito mais complexa – envolvendo petróleo, rivalidade com a China e até um retorno à famosa Doutrina Monroe.
O que realmente motivou a ofensiva?
Para quem acompanha as notícias internacionais, a primeira reação costuma ser “é mais um golpe dos EUA contra um regime comunista”. Mas, se a gente olhar além da retórica, três pilares aparecem como verdadeiros motores da ação americana:
- O petróleo venezuelano: a maior reserva comprovada do planeta.
- A presença crescente da China na América Latina: um rival estratégico que Washington quer conter.
- A Doutrina Monroe reinventada: a ideia de que o hemisfério ocidental é território de interesse prioritário dos EUA.
1. Petróleo: a reserva que ainda vale ouro
A Venezuela tem cerca de 303 bilhões de barris de petróleo – mais do que Arábia Saudita ou Irã. O problema? A maior parte desse petróleo é extra‑pesado, o que requer tecnologia cara e investimentos enormes. Por causa das sanções, a produção está estagnada, mas o potencial permanece.
Para os americanos, isso significa duas coisas:
- Um suprimento de combustível que pode ser usado nas refinarias do Golfo, reduzindo o preço da gasolina nos EUA.
- Um ponto de pressão sobre o governo de Maduro, que depende das receitas do petróleo para se manter no poder.
Especialistas como Marcos Sorrilha, da Unesp, afirmam que Trump vê o petróleo venezuelano como “uma estratégia de barateamento do preço do combustível para os americanos”. Se a Venezuela voltar a produzir em escala, o mercado interno dos EUA pode ganhar um alívio nos custos de energia.
2. A China como grande parceira de Caracas
Depois que Washington impôs sanções severas, a China entrou em cena como principal comprador do petróleo venezuelano. Dados da Energy Information Administration mostram que, em 2023, 68% das exportações de petróleo da Venezuela foram para a China. Em troca, Pequim concedeu quase US$ 50 bilhões em empréstimos ao longo da última década.
Essa relação tem duas implicações para os EUA:
- Um rival econômico que ganha influência na região.
- Um risco geopolítico: se a China controlar recursos estratégicos como o petróleo venezuelano, pode usar isso como moeda de troca em negociações globais.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, explica que Trump quer impedir que a China se aprofunde na América Latina, mantendo os laços “bem atados” ao continente.
3. A Doutrina Monroe de volta ao centro da política
Em janeiro, a Casa Branca divulgou um novo documento de política externa que, explicitamente, cita a Doutrina Monroe – aquela que, desde 1823, dizia que potências europeias não deveriam interferir nas Américas. Agora, a ideia foi adaptada para o século XXI: “retomar” os princípios da doutrina para proteger a segurança e a prosperidade da região.
Na prática, isso significa:
- Um aumento da presença militar dos EUA na América Latina.
- Pressão diplomática e econômica contra governos que se alinhem à China.
- Um convite aberto a empresas americanas para explorar mercados latino‑americanos, inclusive na Venezuela.
Marcos Sorrilha compara essa estratégia à “Open Door Policy” dos inícios do século XX, quando os EUA incentivavam a abertura dos mercados latino‑americanos para suas empresas, usando a força quando necessário.
Como isso afeta o Brasil?
Embora o Brasil não esteja entre os dez maiores detentores de reservas de petróleo, ele é o sétimo maior produtor mundial**, com cerca de 4,3 milhões de barris por dia. A proximidade geográfica e o interesse americano em garantir que a região não se torne um “ponto de apoio” da China faz com que Washington esteja mais atento ao que acontece ao sul.
Alguns analistas apontam que a mudança de postura de Trump em relação ao presidente Lula – que agora é visto como um aliado potencial – tem a ver com a necessidade de alinhar o Brasil a uma agenda que favoreça a produção de petróleo e a contenção da influência chinesa.
O que pode acontecer a seguir?
Não há respostas definitivas, mas alguns cenários são plausíveis:
- Escalada militar: se a Venezuela resistir, os EUA podem intensificar bloqueios navais e até lançar mais ataques pontuais.
- Negociação de petróleo: Washington pode tentar fechar acordos secretos para comprar petróleo venezuelano a preço de favores, garantindo suprimento barato.
- Confronto diplomático com a China: Pequim pode responder com sanções ou reforçando sua presença em outros países da região, como Bolívia ou Equador.
- Impacto nos preços globais: qualquer interrupção na produção venezuelana pode influenciar o preço do barril, afetando consumidores nos EUA e no mundo.
Para nós, leitores que acompanham a política internacional, o importante é perceber que o que parece ser um “golpe” isolado tem ramificações econômicas, estratégicas e até ambientais. O petróleo, apesar de ser um recurso antigo, ainda dita o ritmo das grandes jogadas geopolíticas.
Conclusão
O ataque de Trump à Venezuela não foi motivado apenas por combate ao narcotráfico. Por trás da operação, há um interesse claro em garantir acesso a uma das maiores reservas de petróleo do planeta, conter a expansão da China na América Latina e reviver, de forma mais agressiva, a Doutrina Monroe.
Se você está se perguntando como isso pode mudar sua vida, pense nos preços da gasolina, nas notícias sobre sanções que chegam ao seu feed e nas discussões sobre soberania nacional. A geopolítica pode parecer distante, mas ela afeta o bolso, o emprego e até a segurança dos países da região.
Fique de olho nas próximas movimentações – tanto nos corredores de Washington quanto nas ruas de Caracas – porque o futuro da energia e da influência global está sendo escrito aqui, agora.



