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Correios 2026: Por que a queda de receitas e o aumento de despesas podem mudar o jeito que você recebe e envia pacotes

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Correios 2026: Por que a queda de receitas e o aumento de despesas podem mudar o jeito que você recebe e envia pacotes

Se você já ficou horas na fila da agência, já reclamou do prazo de entrega ou simplesmente se perguntou por que o preço do envio de uma encomenda parece subir a cada ano, a resposta pode estar bem mais perto do que imagina: no orçamento dos Correios para 2026.

O que o orçamento realmente diz?

Na última terça‑feira (30) o Diário Oficial da União publicou a previsão orçamentária da estatal. Os números são assustadores: receitas caindo 26% e despesas subindo 21%. Em termos de dinheiro, isso significa que a empresa espera arrecadar R$ 17,7 bi em 2026 – um recuo de R$ 6,3 bi em relação ao que projetou para 2025 – enquanto os custos vão subir de R$ 24 bi para R$ 29 bi.

Como chegamos aqui? Um histórico de perdas

Os Correios não chegaram a esse ponto de repente. Nos últimos 12 trimestres a empresa registrou prejuízos consecutivos. Em 2024 a receita total foi de R$ 18,9 bi, já abaixo dos R$ 19,2 bi de 2023 e dos R$ 19,8 bi de 2022. Em 2025, até setembro, a arrecadação foi de R$ 12,3 bi – apenas 60% do que se esperava para o ano inteiro. O que está acontecendo?

  • Concorrência crescente: a abertura do mercado de entregas internacionais para empresas privadas reduziu a fatia dos Correios de 51% em 2019 para 22% em 2025.
  • Taxa das blusinhas: o imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, criado em 2023, diminuiu o volume de encomendas que chegam pelos Correios.
  • Inovação tecnológica: enquanto concorrentes investem pesado em automação e rastreamento em tempo real, a estatal ainda luta para modernizar centros de tratamento e frota.

Despesas que disparam – onde está o dinheiro?

O aumento de R$ 5 bi nas despesas correntes tem duas fontes principais:

  • Programa de Demissão Voluntária (PDV): a empresa pretende desligar até 10 mil funcionários nos próximos dois anos, o que gera custos de rescisão, indenizações e benefícios temporários.
  • Despesas com pessoal: mesmo com o PDV, a folha de pagamento sobe R$ 1,5 bi (10,5%) passando de R$ 14,2 bi para R$ 15,7 bi, refletindo reajustes salariais e encargos sociais.

Curiosamente, os gastos com dirigentes diminuem 33,48%, caindo de R$ 13,9 mi para R$ 8,8 mi, mas isso não compensa o aumento geral.

Empréstimos: a tábua de salvação ou a armadilha da dívida?

Para equilibrar o caixa, os Correios fecharam um acordo de R$ 12 bi com um consórcio de bancos privados (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa). Até agora, R$ 10 bi já foram liberados. As condições são:

  • Carência de três anos – os pagamentos mensais começam só em dezembro de 2029.
  • Taxa de juros de 115% do CDI, abaixo do teto de 120% estabelecido pelo Tesouro.
  • Garantia da União – o governo cobre a dívida caso a estatal não consiga honrar os pagamentos.

O presidente Emmanoel Rondon não descartou a necessidade de novos empréstimos, podendo chegar a mais R$ 8 bi, seja via Tesouro ou novas operações de crédito.

O plano de reestruturação: cortes, vendas e modernização

O documento orçamentário traz um plano ambicioso para reverter a situação:

  • Corte de R$ 2,1 bi nos custos com pessoal – principalmente através do PDV e da redução de até 15 mil postos de trabalho.
  • Venda de imóveis – R$ 1,5 bi em ativos não operacionais serão alienados.
  • Fechamento de mil agências – a rede, que conta com cerca de 5 mil unidades, terá pontos deficitários desativados.
  • Reformulação do plano de saúde – economia estimada em R$ 500 mi por ano.
  • Investimento em tecnologia – R$ 4,4 bi entre 2027 e 2030, vindos de um empréstimo do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, para automação, renovação da frota e modernização de TI.

O objetivo é simples: equilibrar as contas em 2026 e voltar a registrar lucro a partir de 2027.

O que isso significa para quem usa os Correios?

Para o cidadão de bem, as mudanças podem trazer tanto benefícios quanto incômodos. Vamos dividir em duas partes: o que pode melhorar e o que pode piorar.

Possíveis melhorias

  • Serviços mais ágeis: a modernização da infraestrutura pode reduzir o tempo de triagem e entrega.
  • Preços mais competitivos: ao reduzir custos, a estatal pode oferecer tarifas mais atraentes, especialmente para pequenas empresas que dependem do serviço de encomendas.
  • Novas opções digitais: investimentos em TI podem trazer aplicativos mais robustos, rastreamento em tempo real e opções de auto‑atendimento nas agências.

Possíveis desafios

  • Fechamento de agências: se a sua cidade perde a agência mais próxima, você terá que se deslocar mais longe ou usar pontos de coleta parceiros.
  • Redução de funcionários: menos pessoal pode significar filas maiores no curto prazo, até que a automação compense.
  • Dependência de empréstimos: se a dívida não for bem administrada, pode gerar novos cortes ou até privatizações parciais.

Como se preparar?

Não é preciso virar economista, mas alguns passos simples podem evitar surpresas:

  1. Monitore a tarifa: acompanhe os reajustes anunciados pelos Correios e compare com concorrentes como Jadlog, Mandaê ou transportadoras regionais.
  2. Planeje envios com antecedência: se você tem um negócio que depende de entregas, considere negociar contratos de volume ou usar serviços de coleta em domicílio.
  3. Explore pontos de entrega alternativos: lojas parceiras, lockers e agências de conveniência podem ser mais convenientes caso a agência tradicional feche.
  4. Fique de olho nas notícias: mudanças de política de crédito ou novos empréstimos podem impactar a estabilidade da empresa.

O futuro dos Correios: privatização ou transformação?

Existe um debate antigo sobre a privatização total ou parcial da estatal. O atual plano de reestruturação, com venda de imóveis e fechamento de agências, já parece um movimento na direção de um modelo mais “lean”. No entanto, o fato de o governo garantir os empréstimos indica que ainda há vontade política de manter a empresa sob controle público.

Se a tendência for a privatização parcial, podemos esperar que investidores busquem melhorar a eficiência, mas também que os preços sejam ajustados para maximizar lucro, o que pode pesar nos pequenos remetentes.

Por outro lado, se a reestruturação for bem‑sucedida, os Correios podem voltar a ser uma opção viável e até competitiva, especialmente em áreas onde a logística privada ainda não chegou.

Conclusão: o que você deve levar da notícia?

Em resumo, o orçamento de 2026 mostra que os Correios enfrentam uma encruzilhada. A queda de receitas e o aumento das despesas são sinais claros de que o modelo antigo não funciona mais. O plano de corte de custos, a busca por empréstimos e os investimentos em tecnologia são tentativas de virar o jogo.

Para quem depende dos serviços – seja para enviar um presente, receber um documento importante ou gerir um e‑commerce – a mensagem é: esteja preparado. Acompanhe as mudanças, ajuste suas estratégias de envio e, se possível, diversifique os parceiros logísticos. Assim, você não será pego de surpresa caso uma agência feche ou os preços mudem.

E, claro, continue acompanhando as notícias. O que parece distante hoje pode ser a realidade da sua caixa de correio amanhã.