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Eletronuclear à beira do colapso: o que a crise de caixa significa para a energia do Brasil

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Eletronuclear à beira do colapso: o que a crise de caixa significa para a energia do Brasil

Eu sempre acompanho as notícias sobre energia porque, no fundo, todo mundo depende dela – da luz da casa ao aquecimento das indústrias. Quando li que a Eletronuclear, responsável pelas usinas nucleares de Angra, está com caixa para apenas dois ou três meses, a reação foi imediata: “Mas como assim?”. A situação vai muito além de um simples número no balanço; ela mexe com a segurança energética, com a conta de luz dos consumidores e até com a política de investimentos do país.

## Por que a Eletronuclear está em apuros?

O diretor‑presidente interino, Alexandre Caporal, descreveu a situação como “crítica”. A empresa tem quase R$ 7 bilhões em empréstimos com bancos públicos (Caixa e BNDES) e, sem a suspensão temporária da cobrança – o chamado *stand‑still* – o fluxo de caixa vai “sangrar até morrer”. Em termos práticos, isso significa que, se nada mudar, a Eletronuclear não conseguirá honrar despesas operacionais, pagar funcionários ou manter as usinas Angra 1 e 2 em funcionamento.

### Principais fatores que levaram ao rombo

– **Paralisação da Angra 3**: a obra, iniciada há mais de uma década, está parada há 10 anos. Sem a conclusão, a Eletronuclear perde a única fonte de receita futura que poderia equilibrar as contas.
– **Custo da dívida**: o serviço da dívida já soma R$ 800 milhões só neste ano. Quando incluímos manutenção das usinas, o gasto supera R$ 1 bilhão.
– **Descompasso tarifário**: as tarifas aprovadas pela Aneel para Angra 1 e 2 não cobrem os custos reais de operação. Historicamente, o governo federal cobria esse déficit com aportes de cerca de R$ 5 bilhões (2015‑2021). Agora, sem esses recursos, a empresa sente o peso.
– **Falta de definição do CNPE**: o Conselho Nacional de Política Energética ainda não decidiu o destino da Angra 3. Sem essa clareza, o BNDES considera a usina como “não existente” para fins regulatórios, dificultando qualquer renegociação.

## O que está sendo negociado?

Caporal pede que os bancos públicos suspendam a cobrança dos empréstimos por mais alguns meses. A suspensão já foi concedida por seis meses em 2024, mas ele alerta que isso é apenas um paliativo. O objetivo é ganhar tempo até que o CNPE tome uma decisão – seja pela retomada da obra, seja por um “stand‑still” definitivo, que impediria novos pagamentos.

### Por que o BNDES resiste?

O BNDES tem receio de abrir precedentes: se conceder um *stand‑still* sem uma solução concreta para Angra 3, outras estatais poderiam exigir o mesmo. Além disso, o banco avalia que, do ponto de vista regulatório, a usina ainda não existe, o que complica a justificativa para suspender a dívida.

## Impactos para o consumidor

– **Conta de luz**: se a Eletronuclear precisar recorrer a empréstimos adicionais ou a aportes emergenciais, o custo pode ser repassado aos consumidores via aumento de tarifas.
– **Segurança de abastecimento**: Angra 1 e 2 são responsáveis por cerca de 3 % da matriz elétrica brasileira. Uma interrupção ou redução de capacidade poderia pressionar o sistema, especialmente em períodos de seca, quando a hidrelétrica tem menor produção.
– **Investimentos futuros**: a incerteza pode desestimular novos projetos de energia limpa ou renovável, já que investidores buscam estabilidade regulatória.

## Estratégias de sobrevivência da Eletronuclear

A empresa não está parada. Caporal descreve um conjunto de medidas para reduzir o déficit:

– **Corte de despesas**: ajustes em pessoal, terceirização e revisão de contratos.
– **Reequilíbrio tarifário**: renegociação com a Aneel para que as tarifas reflitam melhor os custos reais.
– **Busca por receitas alternativas**: o presidente espera receber, ainda no primeiro trimestre de 2026, cerca de R$ 1 bilhão do Fundo de Descomissionamento, que acumula recursos destinados à desativação futura das usinas.

### O Fundo de Descomissionamento

Esse fundo é alimentado pelas tarifas de Angra 1 e 2, já incluídas na conta de luz dos consumidores. Embora ainda não haja usina a ser desativada, o Tribunal de Contas da União reconheceu o direito da Eletronuclear ao ressarcimento. A empresa pretende entrar com medida cautelar para liberar esses recursos mais rapidamente. O fundo já tem cerca de R$ 3,2 bilhões, enquanto o custo estimado para desativar Angra 1 e 2 é de R$ 7,5 bilhões. A ideia é que, com a remuneração ao longo dos próximos 40‑60 anos, o montante seja suficiente.

## O que o governo pode fazer?

Apesar de Caporal negar a necessidade de aporte imediato do Tesouro, o Relatório de Riscos Fiscais da União de 2025 menciona a Eletronuclear como empresa em risco. Algumas opções estão na mesa:

1. **Aporte emergencial**: injeção de recursos para cobrir o déficit de caixa imediato.
2. **Garantia de stand‑still**: formalizar a suspensão dos pagamentos até que o CNPE decida.
3. **Revisão do contrato de dívida**: alongar prazos, reduzir juros ou converter parte da dívida em participação acionária.
4. **Aceleração da decisão do CNPE**: definir se Angra 3 será concluída ou abandonada, permitindo um planejamento claro.

## Comparação com os Correios – mito ou realidade?

Caporal afirma que a situação da Eletronuclear não se compara à crise dos Correios, que também recorreu a empréstimos com aval do Tesouro. A diferença principal é que a Eletronuclear não precisa de uma injeção direta de recursos; ela busca apenas a suspensão dos pagamentos para ganhar fôlego. Ainda assim, ambas as empresas mostram como a falta de planejamento de longo prazo pode gerar crises profundas.

## Olhando para o futuro

Se a Eletronuclear conseguir um acordo de *stand‑still* e o CNPE decidir pela retomada da Angra 3, a empresa pode voltar a ter uma perspectiva de crescimento e até reduzir a dependência de empréstimos. Por outro lado, se a decisão for o abandono da obra, a Eletronuclear terá que se reinventar, talvez focando em eficiência operacional, diversificação de negócios ou até em parcerias internacionais.

### O que eu penso sobre tudo isso?

Para mim, a lição maior é que a energia não é apenas questão de tecnologia, mas de gestão financeira e política. Quando o governo deixa de dar clareza sobre projetos estratégicos, como Angra 3, ele cria um efeito dominó que atinge a conta de luz, a confiança dos investidores e, em última análise, o bem‑estar da população.

Se você, leitor, sente o peso das contas de luz ou se preocupa com a segurança energética, vale a pena acompanhar de perto essas negociações. Elas podem influenciar decisões que vão do preço da sua tarifa até a disponibilidade de energia nos momentos críticos.

**Fique de olho**: a próxima reunião do CNPE pode mudar tudo. Enquanto isso, a Eletronuclear tenta respirar, cortando custos, renegociando dívidas e buscando recursos no fundo de descomissionamento. O futuro da energia nuclear no Brasil ainda está em construção – literalmente.

*Este texto traz uma análise pessoal baseada nas declarações do presidente interino da Eletronuclear e nas informações públicas disponíveis até o momento.*