Se você ainda recebe suas contas, compras online ou aquela carta da tia, provavelmente já sentiu na pele o peso dos Correios. A estatal vem passando por uma crise profunda nos últimos três anos, acumulando prejuízos que chegam a bilhões de reais. Mas, apesar de tudo, o último trimestre trouxe um sinal que vale a pena analisar: um pequeno, porém significativo, aumento nas receitas de encomendas e mensagens.
O que os números realmente dizem?
De acordo com as demonstrações financeiras de 30 de setembro, os Correios registraram R$ 7,2 bilhões em receita de encomendas e R$ 3,6 bilhões em mensagens. São os maiores valores desde 2022. Em termos absolutos, isso representa um crescimento de R$ 107 milhões nas encomendas (1,5% em relação a 2023) e R$ 58 milhões nas mensagens (1,7%).
Esses números, embora modestos, são importantes porque surgem em meio a um cenário de prejuízos acumulados: R$ 6 bilhões no 3º trimestre de 2025, contra R$ 2,1 bilhões no mesmo período de 2024. Ou seja, a empresa está perdendo dinheiro, mas está conseguindo gerar um pouco mais de receita em alguns serviços.
Por que a receita total ainda cai?
A resposta está no programa “Remessa Conforme”, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023. Essa medida introduziu um imposto de importação de 20 % sobre compras internacionais de até US$ 50, que antes eram isentas para empresas. Além disso, a legislação passou a permitir que transportadoras privadas façam o frete interno de mercadorias internacionais, tirando um pedaço significativo do volume que antes era exclusivo dos Correios.
O efeito foi drástico: a receita total caiu R$ 2,2 bilhões entre o acumulado até setembro de 2023 e o mesmo período de 2025 – um recuo de 66 % do que havia sido arrecadado no ano da implantação da taxa. Sem contar a perda de participação de mercado, que foi de 51 % em 2019 para apenas 22 % em 2025.
Onde está o crescimento?
O destaque vai para a categoria “outros”, que engloba serviços de logística, marketing, malote, venda de chips, entre outros. Esses produtos subiram 13,8 % (R$ 117 milhões). Mesmo assim, eles representam apenas 7,5 % do total de receitas, então o impacto ainda é pequeno.
- Logística e conveniência: crescimento acima de 10 %.
- Venda de chips e serviços de marketing: ainda incipientes, mas com potencial de expansão.
Para quem acompanha o mercado, isso indica que os Correios ainda têm margem para explorar serviços de valor agregado, mas precisa de estratégia e investimento.
O plano de reestruturação: o que muda?
O presidente Emmanoel Rondon apresentou um plano ambicioso para virar o jogo até 2027. Os principais pontos são:
- Corte de custos: R$ 2 bilhões em despesas com pessoal, incluindo um Programa de Demissão Voluntária (PDV) que deve reduzir a força‑workforce em 15 mil pessoas (cerca de 18 % da folha).
- Venda de ativos: R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais.
- Fechamento de agências deficitárias: cerca de mil unidades, reduzindo a rede de 5 mil para algo em torno de 4 mil pontos.
- Reformulação do plano de saúde: economia estimada em R$ 500 milhões anuais.
Além disso, a empresa busca captar R$ 8 bilhões adicionais para 2026, seja via aporte do Tesouro ou novo empréstimo. Já foi garantido um empréstimo de R$ 12 bilhões para aliviar o caixa, mas a proposta original de R$ 20 bilhões foi recusada por conta das altas taxas de juros.
Investimento e futuro: onde os Correios querem chegar?
O objetivo de receita para 2027 é de R$ 21 bilhões, um salto em relação aos R$ 18,9 bilhões de 2024. Para alcançar isso, a estatal pretende investir R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, com financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS. O dinheiro será usado em:
- Automação de centros de tratamento.
- Renovação e descarbonização da frota.
- Modernização da infraestrutura de TI.
- Redesenho da malha logística.
Essas ações têm o potencial de melhorar a eficiência, reduzir custos operacionais e, principalmente, tornar o serviço mais competitivo frente às transportadoras privadas.
O que isso significa para nós, consumidores?
Primeiro, é provável que vejamos mudanças no número de agências físicas. Se você mora em cidades menores, pode ser que a agência mais próxima seja fechada, mas a empresa promete reforçar a entrega em domicílio e pontos de coleta alternativos.
Segundo, a modernização da frota e a automação podem significar entregas mais rápidas e menos erros de rastreamento. Quem já sofreu com pacotes perdidos ou atrasados pode sentir uma melhora nos próximos anos.
Terceiro, a busca por novos serviços (como logística para e‑commerce, venda de chips ou soluções de marketing) pode abrir oportunidades para pequenos empreendedores que precisam de suporte logístico mais barato.
Desafios que ainda permanecem
Mesmo com o plano, alguns obstáculos são difíceis de ignorar:
- Dependência de políticas públicas: o programa “Remessa Conforme” mostra como mudanças regulatórias podem impactar drasticamente a receita.
- Concorrência agressiva: empresas como Mercado Livre, DHL e FedEx já têm presença forte no mercado de e‑commerce.
- Pressão fiscal: a necessidade de captar mais recursos pode gerar mais endividamento.
Para que o plano dê certo, será crucial que a gestão mantenha foco na eficiência e na inovação, sem perder o compromisso de universalização que caracteriza o serviço postal brasileiro.
Conclusão: vale a pena ficar de olho?
Eu acredito que o pequeno crescimento nas receitas de encomendas e mensagens é mais que um detalhe; é um indicativo de que, mesmo em meio a perdas, a empresa ainda tem capacidade de gerar valor. Se o plano de reestruturação for bem executado, os Correios podem voltar a ser uma opção viável tanto para quem envia cartas quanto para quem precisa de soluções logísticas mais sofisticadas.
Para o consumidor, isso pode significar menos surpresas desagradáveis e, quem sabe, até novos serviços que facilitem o dia a dia. Para quem acompanha o mercado, é um caso clássico de empresa estatal tentando se reinventar em um cenário cada vez mais competitivo.
Então, da próxima vez que você for à agência ou rastrear um pacote, lembre‑se de que há muito mais acontecendo nos bastidores do que parece. E, quem sabe, em alguns anos, a história dos Correios pode virar um exemplo de superação e inovação no Brasil.



