Na última quarta‑feira (24) o Diário Oficial publicou o Decreto nº 12.797, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, oficializando o reajuste do salário mínimo para R$ 1.621 a partir de 1º de janeiro de 2026. Parece simples: de R$ 1.518 para R$ 1.621, um aumento de R$ 103. Mas, se a gente olhar mais de perto, tem muita coisa acontecendo por trás desses números – e isso pode afetar o dia a dia de quase 60 milhões de brasileiros.
Por que o salário mínimo importa tanto?
O salário mínimo não é só o valor que um trabalhador formal recebe por mês. Ele serve como referência para:
- Benefícios como seguro‑desemprego, BPC (Benefício de Prestação Continuada) e abono salarial;
- Contratos de trabalho que pagam múltiplos do piso;
- O cálculo do salário médio nacional, que influencia negociações coletivas e políticas de renda.
Em termos de números, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) estima que quase 60 milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente desse valor. Ou seja, o reajuste tem um efeito dominó que vai muito além do trabalhador que tem o contrato de R$ 1.518.
Como o reajuste foi calculado?
Se a Constituição fosse seguida à risca, o ajuste seria apenas pela inflação medida pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Até novembro, a inflação foi de 4,18 %, o que levaria o piso a cerca de R$ 1.582.
O governo Lula, porém, prometeu retomar a “política de valorização do salário mínimo”, que inclui um ganho real acima da inflação. A regra aprovada em 2023 combina:
- Inflação (4,18 %);
- Um acréscimo real limitado a 2,5 % – teto imposto pelo arcabouço fiscal para controlar a dívida pública.
Somando os dois fatores, chegamos ao novo valor de R$ 1.621.
O que muda no seu bolso?
Para quem recebe o salário mínimo ou benefícios atrelados a ele, o impacto é direto: um aumento de R$ 103 por mês. No cálculo anual, isso representa mais de R$ 1,2 mil a mais de renda.
Mas o efeito não para por aí. O aumento também eleva o poder de compra das famílias, porque o valor agora cobre melhor os itens listados na Constituição (moradia, alimentação, saúde, educação, etc.). Em teoria, isso pode reduzir a necessidade de recorrer a crédito ou a programas de assistência social.
Impactos na economia nacional
O salário mínimo tem um papel de “âncora” nos salários de toda a cadeia produtiva. Quando o piso sobe, muitas empresas acabam ajustando salários médios, o que pode gerar:
- Maior consumo interno, impulsionando o PIB;
- Pressão inflacionária, se o aumento de custos for repassado aos preços;
- Elevação das despesas obrigatórias do governo (previdência, seguro‑desemprego, etc.).
Segundo cálculo oficial, cada R$ 1 de aumento no salário mínimo gera cerca de R$ 420 milhões em despesas adicionais em 2026. Com os R$ 103 de aumento, isso soma aproximadamente R$ 43,2 bilhões em gastos obrigatórios.
Esses recursos, que antes podiam ser usados em investimentos ou políticas discricionárias, agora ficam comprometidos com a manutenção do piso. É um ponto de atenção para quem acompanha a política fiscal: mais gasto obrigatório pode significar menos espaço para projetos de infraestrutura, saúde ou educação.
Prós e contras do reajuste acima da inflação
Vantagens:
- Valorização real do trabalhador – o salário não perde poder de compra;
- Estímulo ao consumo – famílias com renda mais alta tendem a gastar mais, movimentando o comércio;
- Redução da desigualdade – o piso mais alto beneficia quem está na base da pirâmide.
Desvantagens:
- Pressão sobre o orçamento público – aumento de despesas obrigatórias;
- Possível efeito inflacionário – se as empresas repassarem custos;
- Risco de aumento de informalidade – pequenos negócios podem ter dificuldade de arcar com salários mais altos.
E se o salário mínimo fosse desvinculado dos benefícios?
Alguns economistas defendem que o BPC, o seguro‑desemprego e outras prestações deveriam ser corrigidas apenas pela inflação, e não pelo piso. A ideia é aliviar a conta pública, já que esses benefícios representam uma parte significativa das despesas obrigatórias.
Por outro lado, desvincular os benefícios pode criar uma “dupla camada” de proteção social: quem tem contrato formal ganha mais, mas quem depende de benefícios vê seu valor estagnado. Isso pode ampliar a sensação de injustiça social, principalmente em períodos de alta inflação.
O que esperar para o futuro?
O próximo reajuste do salário mínimo será definido em 2027, seguindo a mesma lógica de inflação + parcela real limitada. Se a economia brasileira mantiver crescimento próximo ao teto de 2,5 % e a inflação permanecer estável, podemos esperar aumentos semelhantes.
Entretanto, a política fiscal e o debate sobre a vinculação dos benefícios ao piso ainda estão em aberto. Mudanças nessa regra podem alterar o panorama para trabalhadores, empresas e para o próprio orçamento do governo.
Como se preparar?
Se você recebe o salário mínimo ou tem algum benefício atrelado a ele, vale a pena:
- Reavaliar seu planejamento financeiro – o aumento de R$ 103 pode abrir espaço para quitar dívidas ou criar uma reserva de emergência;
- Ficar atento ao custo de vida – embora o poder de compra melhore, alguns preços podem subir em resposta ao aumento do consumo;
- Buscar qualificação – com salários mais altos no mercado, pode ser um bom momento para investir em cursos que aumentem sua empregabilidade.
Para quem tem empresa, o desafio será equilibrar o aumento de custos com a necessidade de manter preços competitivos. Estratégias como otimização de processos, adoção de tecnologia e renegociação de fornecedores podem ajudar.
Em resumo, o reajuste para R$ 1.621 é mais do que um número no Diário Oficial. Ele reflete decisões políticas, econômicas e sociais que vão tocar a vida de milhões de brasileiros. Entender como funciona, quais são os impactos e como se adaptar pode fazer a diferença entre aproveitar a oportunidade e sentir o peso da mudança.



