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Eletronuclear à beira do colapso: o que a crise dos empréstimos significa para a energia do Brasil

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Eletronuclear à beira do colapso: o que a crise dos empréstimos significa para a energia do Brasil

Quando eu li a entrevista do Alexandre Caporal, presidente interino da Eletronuclear, na última segunda‑feira, confesso que a primeira reação foi de preocupação. A empresa, responsável pelas usinas nucleares de Angra, está dizendo que só tem caixa para sobreviver por dois a três meses. Parece cena de filme, mas é a realidade de uma estatal que tem papel estratégico no nosso mix energético.

Por que a Eletronuclear está com o caixa tão baixo?

O ponto de partida da crise não é um mistério: a paralisação da construção da terceira usina, Angra 3, há cerca de dez anos. Enquanto o projeto fica estagnado, a empresa continua pagando juros sobre empréstimos que foram feitos para financiar a obra. São quase R$ 7 bilhões que vêm de bancos públicos – a Caixa Econômica Federal e o BNDES – e que, segundo Caprol, precisam ter a cobrança suspensa, senão a Eletronuclear “sangra até morrer”.

O que está em jogo?

Além da dívida, a Eletronuclear tem despesas operacionais altas nas usinas Angra 1 e Angra 2. Os custos com pessoal, manutenção e serviços sempre foram superiores ao que a Aneel permite incluir nas tarifas. Até 2021, o governo federal fez aportes de cerca de R$ 5 bilhões para cobrir esse déficit, mas, após a privatização da Eletrobras e a restrição de recursos, a companhia perdeu esse apoio direto.

  • Caixa para 2‑3 meses: sem suspensão dos pagamentos, a empresa pode entrar em falência.
  • Serviço da dívida: R$ 800 milhões só neste ano.
  • Custos operacionais: mais de R$ 1 bilhão por ano nas usinas já em operação.

O papel dos bancos públicos

O BNDES tem sido o maior obstáculo para a suspensão dos pagamentos. A instituição argumenta que, sem uma definição clara do futuro de Angra 3, a usina “não existe” do ponto de vista regulatório. Em 2024, o governo concedeu um “stand‑still” de seis meses, mas agora a pressão aumenta porque o prazo está se esgotando.

O que o governo pode fazer?

Caprol deixa claro que não pretende pedir aporte direto ao Tesouro, mas admite que a suspensão temporária da cobrança é essencial. Existem três caminhos possíveis:

  1. Concessão de novo stand‑still: os bancos públicos deixam de cobrar os juros e parcelas por mais alguns meses.
  2. Definição do CNPE sobre Angra 3: se o Conselho Nacional de Política Energética decidir pela retomada ou pelo abandono definitivo da obra, a situação financeira se estabiliza.
  3. Aporte emergencial: embora o presidente tenha descartado, o Relatório de Riscos Fiscais da União de 2025 ainda menciona a possibilidade de aporte para estatais em dificuldade.

Angra 3: o ponto crucial

Angra 3 está localizado no litoral do Rio de Janeiro, e sua conclusão é vista como a chave para garantir a segurança energética do país. Sem a usina, o Brasil depende mais de fontes térmicas e hidrelétricas, que têm maior volatilidade. O ministro da Mina e Energia, Alexandre Silveira, prometeu uma decisão até o fim de 2025, mas até agora nada concreto.

Outras fontes de receita: o Fundo de Descomissionamento

Caprol conta que a Eletronuclear deve receber cerca de R$ 1 bilhão do Fundo de Descomissionamento ainda no primeiro trimestre de 2026. Esse fundo, alimentado pelas tarifas de Angra 1 e 2, tem o objetivo de garantir recursos para a desativação segura das usinas quando chegarem ao fim de sua vida útil (previsto para daqui a 40‑60 anos). Apesar da resistência da ANSN, a empresa planeja entrar com medida cautelar para liberar o dinheiro.

Impactos para o consumidor

Você pode estar se perguntando: “E eu, que pago a conta de luz todo mês, como isso me afeta?”. Em teoria, a crise pode levar a um reajuste tarifário. A Eletronuclear já busca um reequilíbrio junto à Aneel, mas qualquer aumento nas tarifas de Angra 1 e 2 pode ser repassado ao consumidor final. Por outro lado, se o governo decidir por um aporte ou pela suspensão dos pagamentos, o impacto imediato pode ser menor.

Comparação com os Correios

Caprol foi questionado se a situação da Eletronuclear se assemelha à crise dos Correios. Ele responde que são “situações muito distintas”, pois a Eletronuclear não precisa de um aporte direto – ainda que a suspensão dos pagamentos seja quase a mesma solução.

O que eu, como cidadão, posso fazer?

Embora a decisão final esteja nas mãos de autoridades e bancos, nós podemos acompanhar e cobrar transparência:

  • Fique de olho nas notícias sobre a próxima reunião do CNPE e sobre eventuais decretos de suspensão de pagamentos.
  • Exija debates públicos sobre o custo‑benefício da energia nuclear versus outras fontes renováveis.
  • Considere a eficiência energética em casa: reduzir o consumo ajuda a diminuir a pressão sobre o sistema como um todo.

Perspectivas para o futuro

Se o governo conseguir definir o destino de Angra 3 ainda em 2025, a Eletronuclear pode respirar aliviada e voltar a focar na operação das usinas já existentes. Caso contrário, o risco de um colapso financeiro aumenta, o que pode gerar um efeito dominó na matriz energética nacional.

Em resumo, a situação da Eletronuclear é um alerta sobre como projetos estratégicos, quando paralisados, podem gerar um efeito cascata de problemas financeiros. A esperança está na decisão do CNPE e na vontade política de garantir que a energia nuclear continue a ser parte do nosso mix energético, sem colocar em risco a saúde financeira da estatal.

Vamos acompanhar de perto, porque o que acontece nos bastidores da Eletronuclear acaba refletindo diretamente na conta de luz de todo brasileiro.