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Alphabet compra Intersect: o que a corrida por energia limpa significa para a gente

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Alphabet compra Intersect: o que a corrida por energia limpa significa para a gente

Um investimento que vai além de números

Na segunda‑feira (22), a Alphabet – controladora do Google – anunciou a compra da desenvolvedora de energia limpa Intersect por US$ 4,75 bilhões em dinheiro, assumindo também as dívidas da empresa. O valor pode parecer apenas mais um número gigante nos noticiários de negócios, mas, na prática, esse movimento tem impactos que vão tocar a nossa vida cotidiana nos próximos anos.

Por que a Alphabet está gastando bilhões em energia?

Para entender o porquê, precisamos lembrar que a tecnologia que usamos todos os dias – do buscador do Google aos vídeos do YouTube, passando pelos assistentes virtuais – depende de centros de dados gigantescos. Cada um desses centros consome muita eletricidade, e a demanda só aumenta com a explosão da inteligência artificial (IA) generativa.

Modelos como o ChatGPT, o Gemini da própria Alphabet e outras redes neurais exigem potência de cálculo que, por sua vez, requer energia. Quando a IA começa a gerar texto, imagens ou código em tempo real, o consumo de energia dos data centers pode subir 30 % ou mais. E, como a maioria das redes elétricas dos Estados Unidos ainda luta para acompanhar esse ritmo, as empresas de tecnologia começaram a buscar fontes próprias de energia limpa para garantir disponibilidade e, ao mesmo tempo, reduzir a pegada de carbono.

O que a Intersect traz para a mesa?

A Intersect já possui US$ 15 bilhões em ativos, com projetos que somam cerca de 10,8 gigawatts (GW) de capacidade – o suficiente para gerar mais de 20 vezes a energia da Usina Hidrelétrica Hoover, no sudoeste dos EUA. Esses projetos incluem parques eólicos, solares e sistemas avançados de armazenamento, como o projeto Quantum no Texas, que combina baterias de última geração com um complexo de data centers do Google.

Até 2028, a expectativa é que a maior parte desses empreendimentos esteja em operação ou em fase avançada de desenvolvimento. Ou seja, estamos falando de uma infraestrutura que pode abastecer milhões de lares e, simultaneamente, alimentar os servidores que dão vida à IA que usamos diariamente.

Como isso afeta o consumidor brasileiro?

Mesmo que os ativos estejam nos Estados Unidos, o efeito cascata chega até nós. Primeiro, a redução de custos de energia para o Google pode significar serviços mais baratos ou, ao menos, menos pressão para repassar aumentos de preço ao usuário final. Segundo, a pressão das gigantes de tecnologia está incentivando governos e empresas ao redor do mundo a investirem em energia renovável para atender à crescente demanda de IA.

Se o Brasil conseguir atrair parte desses investimentos – seja com parques solares no Nordeste ou projetos eólicos no Sul – poderemos ver um aumento da capacidade instalada nacional, mais empregos verdes e, claro, uma matriz energética ainda mais limpa.

Riscos e desafios

  • Dependência de tecnologia estrangeira: A maior parte da infraestrutura ainda está nos EUA, o que pode criar uma dependência estratégica para empresas que dependem de IA.
  • Impacto ambiental local: Embora a energia seja limpa, a construção de grandes parques pode gerar impactos em ecossistemas locais se não houver planejamento adequado.
  • Regulação e incentivos: A expansão depende de políticas públicas que favoreçam renováveis, algo que ainda varia bastante entre estados e países.

O futuro dos data centers e da IA

Com a Alphabet consolidando sua presença no setor de energia limpa, podemos esperar uma tendência de data centers verdes. Isso significa que, nos próximos anos, os servidores que alimentam a IA serão cada vez mais alimentados por energia 100 % renovável. Além de reduzir a pegada de carbono, isso traz benefícios operacionais: menos risco de apagões, custos de energia mais estáveis e, potencialmente, maior eficiência.

Outra novidade que a Alphabet trouxe à tona foi a ideia de parques industriais de gigawatts, áreas planejadas para abrigar tanto a produção de energia limpa quanto os data centers que a consomem. Essa integração vertical pode ser um modelo a ser replicado em outros países, inclusive aqui no Brasil, onde a disponibilidade de terra e recursos renováveis é abundante.

O que podemos fazer agora?

Se você se interessa por tecnologia, energia ou finanças, vale a pena ficar de olho nos seguintes pontos:

  1. Acompanhar os investimentos da Alphabet: Cada anúncio pode sinalizar novas oportunidades de negócios, especialmente em startups de energia limpa.
  2. Entender o impacto nas tarifas: Embora a redução de custos ainda seja incerta, a competição por energia renovável pode pressionar fornecedores a oferecer preços mais competitivos.
  3. Investir em energia sustentável: Se você tem interesse em investir, fundos que focam em infraestrutura de energia limpa podem se beneficiar dessa corrida.
  4. Participar de discussões públicas: A expansão de parques de energia limpa costuma envolver licenças ambientais. Engajar-se nas consultas públicas pode garantir que projetos sejam desenvolvidos de forma responsável.

Conclusão

A compra da Intersect pela Alphabet não é apenas mais uma transação de bilhões de dólares. É um sinal claro de que a era da IA está intimamente ligada à energia limpa. Para nós, consumidores e cidadãos, isso significa que a tecnologia que amamos pode, ao mesmo tempo, impulsionar a transição energética mundial.

Se tudo correr como o esperado, dentro de poucos anos veremos data centers alimentados 100 % por fontes renováveis, menos emissões de carbono e, quem sabe, tarifas de energia mais estáveis. É um futuro que ainda depende de políticas, investimentos e da nossa capacidade de cobrar responsabilidade das grandes corporações. Mas, ao menos, o caminho está sendo traçado, e nós podemos – e devemos – acompanhar cada passo.