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Quando um Comercial de Havaianas Virou Batalha Política: O Que Isso Revela Sobre Nós

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Quando um Comercial de Havaianas Virou Batalha Política: O Que Isso Revela Sobre Nós

Se você acompanha as redes sociais, provavelmente já viu o último comercial da Havaianas estrelado por Fernanda Torres. O que parecia ser apenas mais um anúncio de fim de ano acabou virando um verdadeiro campo de batalha ideológico, com políticos, influenciadores e internautas se posicionando de forma apaixonada. Mas, afinal, como um simples vídeo de chinelos pode gerar tanto debate? Neste post eu vou destrinchar o caso, analisar o que está em jogo e refletir sobre o que isso significa para a gente no dia a dia.

O Comercial em Si

A campanha, lançada em 18 de dezembro, mostra Fernanda Torres falando que não quer que você “comece 2026 com o pé direito”. A frase, que brinca com a expressão popular de sorte, evolui para um discurso mais amplo: “não é nada contra a sorte, mas vamos combinar que sorte não depende de você. Depende da sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada…”. O tom é leve, quase poético, e termina com o clássico slogan da marca: “Havaianas, todo mundo usa”.

Por que a direita reagiu?

Em poucos dias, deputados como Nikolas Ferreira (PL-MG), Bia Kicis (PL-DF) e Eduardo Pazuello (PL-RJ) usaram o X (antigo Twitter) para criticar a mensagem. Para eles, a frase “não começar o ano com o pé direito” seria uma indireta política, um sinal de que a marca estaria se posicionando contra certos grupos. O discurso se transformou em pedidos de boicote e em memes que circulavam rapidamente.

  • Interpretatividade: A expressão “pé direito” tem conotação de boa sorte, mas também pode ser vista como metáfora de “começar bem”. Em um clima político polarizado, qualquer frase pode ser lida como código.
  • Visibilidade da marca: Havaianas é um ícone nacional. Quando algo tão reconhecível entra no debate, ele ganha força amplificada.
  • Contexto eleitoral: Estamos em ano de eleições. Qualquer sinal percebido de alinhamento ideológico pode ser usado como munição.

O Papel das Redes Sociais

O vídeo acumulou mais de 6 milhões de visualizações no Instagram Reels em poucos dias. Curiosamente, ele não apareceu no feed principal da conta oficial, o que gerou suspeitas de que a Havaianas poderia estar tentando minimizar a repercussão. Essa estratégia, intencional ou não, alimentou ainda mais a curiosidade dos internautas.

Nas redes, a discussão rapidamente tomou um tom de humor. Usuários criaram memes, montagens e piadinhas, transformando a polêmica em conteúdo viral. Essa reação mostra como, no Brasil, o humor costuma ser a válvula de escape para tensões políticas.

O Que Isso Diz Sobre a Publicidade Hoje?

Não é a primeira vez que uma campanha publicitária gera polêmica. No entanto, o caso das Havaianas ilustra alguns pontos importantes:

  1. Publicidade como discurso: Marcas estão cada vez mais conscientes de que seus anúncios carregam mensagens que podem ser interpretadas politicamente.
  2. Expectativas do público: Consumidores esperam que as empresas assumam posições claras – seja por alinhamento ideológico ou por neutralidade.
  3. Risco de boicote: Quando uma parcela da população sente que seus valores foram atacados, o boicote pode se tornar real, afetando vendas.

Como Isso Afeta Você, Consumidor?

Talvez você se pergunte: “E eu, o que ganho com esse drama?”. A resposta está na forma como escolhemos consumir e apoiar marcas. Quando um produto vira símbolo de disputa política, somos forçados a refletir sobre nossos próprios valores e sobre o que estamos dispostos a pagar – não apenas em dinheiro, mas também em termos de identidade.

Alguns pontos práticos para quem quer navegar nessa realidade:

  • Pesquise antes de comprar: Saiba quem está por trás da marca e quais são suas posições públicas.
  • Considere alternativas: Se o boicote parece justificável, procure concorrentes que ofereçam qualidade semelhante.
  • Não se deixe levar só pelos memes: Humor é ótimo, mas vale a pena analisar se há fundamentos reais na crítica.
  • Use o seu voto como consumidor: A escolha de apoiar ou não uma marca pode influenciar suas estratégias de comunicação.

Um Olhar para o Futuro

O que podemos esperar nos próximos anos? A tendência é que as empresas continuem a caminhar na linha tênue entre entretenimento e comentário social. Com a polarização crescente, cada campanha pode ser vista como um teste de resistência. Por outro lado, o público também está ficando mais crítico e menos tolerante a mensagens que consideram manipuladoras.

Para quem trabalha com marketing, a lição é clara: entender o clima político e cultural antes de lançar um spot pode evitar surpresas desagradáveis. Para nós, consumidores, a lição é usar a própria atenção como ferramenta de escolha consciente.

Conclusão

Um comercial de chinelos, ao que parece, não deveria ser motivo de debate político. Mas no Brasil de hoje, tudo pode ser interpretado como sinal de posicionamento. A campanha da Havaianas mostrou como uma frase simples pode ser amplificada, transformada em meme e ainda gerar discussões sérias nas esferas do poder.

Seja qual for a sua opinião – a favor, contra ou simplesmente indiferente – vale a pena observar como esses episódios revelam a relação íntima entre consumo, identidade e política. Afinal, no final das contas, quem decide onde colocar os pés, também decide que tipo de mensagem quer levar consigo ao longo do caminho.