Quando ouvi dizer que o IGP‑M encerrou 2025 em deflação, confesso que a primeira reação foi de alívio. Afinal, esse índice costuma ser chamado de “inflação do aluguel” e, se ele está negativo, parece que os aluguéis vão despencar. Mas a realidade é um pouco mais complexa. Neste post eu explico, de forma simples, como o IGP‑M funciona, por que ele recuou este ano e, principalmente, o que isso pode (ou não) mudar no seu bolso.
IGP‑M: o que é e por que ele importa?
O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP‑M) é calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e acompanha a variação de preços em três cadeias da economia:
- IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo) – 60% da composição; mede o custo de bens no atacado.
- IPC (Índice de Preços ao Consumidor) – 30%; reflete o custo de vida das famílias.
- INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) – 10%; acompanha os preços da construção civil.
Tradicionalmente, locadores e inquilinos usam o IGP‑M como referência para reajustar contratos de aluguel a cada 12 meses. Por isso, quando o índice sobe, o aluguel tende a subir; quando ele cai, o aluguel pode ficar mais barato – desde que o contrato permita a redução.
2025: um ano de deflação no IGP‑M
Os números divulgados pela FGV mostram que, no acumulado de 2025, o IGP‑M registrou queda de 1,05%. Em dezembro, o índice recuou 0,01%, encerrando um ano marcado por oscilações:
- IPA caiu 0,12% em dezembro, acumulando -3,35% no ano.
- IPC subiu 0,24% em dezembro, mas ainda assim ficou abaixo da alta de novembro.
- INCC foi o único componente em alta, +0,21% no mês e +6,01% no acumulado.
Essa deflação reflete duas forças principais:
- Desaceleração da atividade econômica global, que limitou a transmissão de custos ao longo da cadeia produtiva.
- Melhora nas safras agrícolas brasileiras, reduzindo o preço das matérias‑primas.
Com menos pressão sobre os custos de produção, os preços no atacado recuaram, puxando o IPA para baixo e, consequentemente, o IGP‑M.
Mas será que o aluguel vai cair?
A resposta curta é: não necessariamente. Existem três motivos que explicam por que a deflação do IGP‑M não garante redução automática nos aluguéis:
- Contratos antigos ainda podem usar o IGP‑M, mas muitos proprietários migraram para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que continua em alta. Se o seu contrato está atrelado ao IPCA, o reajuste seguirá a tendência inflacionária.
- Oferta e demanda por imóveis têm peso maior que o índice. Em cidades onde a demanda por aluguel supera a oferta, os preços podem subir mesmo com IGP‑M negativo.
- Renegociação de contratos vencidos costuma acontecer em termos mais favoráveis ao locador, principalmente se o mercado estiver aquecido.
Em resumo, a queda do IGP‑M abre a porta para possíveis reduções, mas elas dependem de cláusulas contratuais e das condições do mercado imobiliário local.
Como analisar se o seu aluguel vai mudar
Se você está curioso para saber se o próximo reajuste será maior, menor ou zero, siga estes passos práticos:
- Cheque o contrato: veja qual índice está previsto – IGP‑M ou IPCA – e se há cláusula que permite redução quando o índice ficar negativo.
- Observe a data de reajuste: o cálculo costuma usar a variação dos 12 meses anteriores ao mês de aniversário do contrato.
- Consulte o mercado da sua região: procure anúncios de imóveis semelhantes ao seu e compare preços. Se a tendência for de alta, o locador pode argumentar que o índice não reflete a realidade local.
- Negocie: mesmo que o índice permita redução, você pode propor um ajuste menor ou até um congelamento temporário, sobretudo se houver dificuldades financeiras.
Impactos no seu orçamento e no planejamento financeiro
Para quem tem o aluguel como a maior despesa fixa, entender esses detalhes faz diferença. Uma redução de 1% no aluguel pode representar, em média, R$ 200 a menos por mês em um contrato de R$ 2.000. No acumulado, isso equivale a R$ 2.400 de economia anual – dinheiro que pode ser direcionado para investimentos, reserva de emergência ou pagamento de dívidas.
Por outro lado, se o seu contrato usa o IPCA, que tem projeções de alta acima de 3% ao ano, você pode esperar um aumento de R$ 60 a R$ 70 mensais. Nesse cenário, vale rever o orçamento, cortar gastos supérfluos ou até buscar alternativas de moradia mais baratas.
O que esperar para 2026?
Os analistas apontam que a tendência de desaceleração econômica pode se manter, mas há sinais de que a inflação global ainda pode subir novamente, impulsionada por questões geopolíticas e pelos custos de energia. Se isso acontecer, o IPA pode retomar a alta e o IGP‑M pode voltar a ser positivo.
Além disso, a discussão sobre a substituição do IGP‑M pelo IPCA em contratos de aluguel tem ganhado força nos tribunais. Caso haja uma mudança normativa, os reajustes futuros podem ficar mais alinhados à inflação ao consumidor, que tem se mantido em patamares mais elevados.
Resumo rápido para quem não tem tempo
- IGP‑M 2025: -1,05% (deflação).
- IPA (60% do índice) foi o principal responsável pela queda.
- INCC (10%) continua em alta, refletindo pressão na construção civil.
- Aluguel pode cair apenas se o contrato usar IGP‑M e prever redução em caso de índice negativo.
- Fique de olho no IPCA, na oferta/demanda local e nas cláusulas do seu contrato.
Em última análise, a notícia de que o IGP‑M ficou negativo traz um sopro de esperança, mas não garante aluguéis mais baratos. O melhor caminho é analisar seu contrato, entender o mercado da sua cidade e, se possível, negociar. Assim, você transforma uma informação macroeconômica em uma decisão prática para o seu bolso.



