Quando ouvi falar que o cofundador da Oracle, Larry Ellison, colocou na mesa uma garantia pessoal de US$ 40,4 bilhões para a proposta da Paramount à Warner Bros. Discovery, minha primeira reação foi de surpresa. Não é todo dia que vemos um bilionário usar o próprio patrimônio como “caução” em uma disputa que parece ter mais a ver com quem controla o conteúdo do que com números de balanço.
O que está em jogo?
A Warner Bros. Discovery possui um dos catálogos mais valiosos de Hollywood: clássicos do cinema, franquias como Harry Potter e Matrix, além da HBO e do serviço HBO Max. Esse acervo vale ouro na chamada guerra do streaming, onde quem controla o conteúdo tem maior poder de atrair e reter assinantes.
As duas propostas que se enfrentam
Do lado da Paramount Skydance, a oferta chega a US$ 108,4 bi, com pagamento de US$ 30 por ação – valor maior que o da Netflix. No entanto, a estrutura financeira é mais complexa, exigindo a captação de recursos adicionais. Já a Netflix propôs um acordo de US$ 82,7 bi, com US$ 72 bi em dinheiro e assunção de dívidas, oferecendo mais segurança ao conselho da Warner.
Por que a garantia de Ellison importa?
Ellison não está simplesmente “apoiando” a Paramount; ele está assumindo um compromisso formal de cobrir eventuais falhas no financiamento. Em termos práticos, isso significa que, se a Paramount não conseguir levantar todo o dinheiro necessário, o patrimônio de Ellison será usado como lastro. Essa postura tem dois efeitos imediatos:
- Reduz o risco percebido pelos acionistas da Warner, que temiam que a oferta da Paramount fosse frágil.
- Mostra a seriedade da disputa, já que um dos maiores nomes da tecnologia está disposto a arriscar seu próprio capital.
O que o conselho da Warner pensa?
Antes da garantia de Ellison, o conselho já havia recomendado rejeitar a proposta da Paramount, preferindo a oferta da Netflix por ser mais “limpa”. A diferença está na previsibilidade: a Netflix não precisa levantar novos recursos, enquanto a Paramount depende de financiamentos que ainda não estão garantidos. A garantia de Ellison tenta fechar essa lacuna, mas ainda há dúvidas sobre se isso será suficiente para mudar a opinião dos diretores.
Impactos para o consumidor
Se a Paramount sair vitoriosa, podemos esperar algumas mudanças no acesso ao conteúdo:
- Possível manutenção de lançamentos nos cinemas, já que a Paramount se comprometeu a não retirar filmes da tela grande.
- Uma estratégia mais agressiva de bundling – pacotes que combinam streaming, cinema e até jogos.
- Talvez menos foco imediato em conteúdos exclusivos da Netflix, que poderia perder a oportunidade de ampliar seu catálogo com as propriedades da Warner.
Riscos para investidores
Para quem acompanha o mercado de ações, a disputa traz volatilidade. A Warner já viu seu preço oscilar conforme as notícias surgiam. Se a Paramount fechar o negócio, os acionistas da Warner receberão US$ 30 por ação, um prêmio sobre a oferta da Netflix. Por outro lado, se a Netflix permanecer como única opção, o valor pode ser menor, mas a transação seria mais estável.
O papel de Larry Ellison no cenário de tecnologia e mídia
Ellison não tem histórico direto em entretenimento, mas sua presença sinaliza uma tendência: os magnatas da tecnologia estão cada vez mais interessados em conteúdo. Pense na compra da Disney pela AT&T (que acabou revertida) ou no investimento da Apple em produção de séries. O objetivo é garantir que o fluxo de dados (streaming) esteja atrelado a um conteúdo exclusivo e de alta qualidade.
Possíveis cenários futuros
1️⃣ Paramount vence: A Warner se torna parte do portfólio da Paramount, criando sinergias entre filmes, séries e jogos. A Netflix teria que buscar outras aquisições para manter seu ritmo de crescimento.
2️⃣ Netflix fecha o acordo: A Warner se integra ao ecossistema da Netflix, potencialmente reforçando a presença da plataforma nos cinemas e ampliando seu catálogo de franquias.
3️⃣ Stalemate: Se nenhuma das partes conseguir superar as objeções do conselho, a Warner pode permanecer independente, mas com a pressão de buscar outras parcerias ou reestruturações internas.
O que devo fazer como investidor ou consumidor?
Se você tem ações da Warner, fique de olho nas próximas declarações do conselho – elas vão determinar se o preço das ações sobe ou cai. Para quem assina serviços de streaming, a melhor estratégia é diversificar: mantenha assinaturas em mais de uma plataforma para garantir acesso ao maior número de conteúdos possível.
Conclusão
A garantia de US$ 40,4 bi de Larry Ellison é, sem dúvida, um movimento ousado que eleva o nível da disputa entre Paramount e Netflix. Mais do que números, ela representa a crescente importância do conteúdo como ativo estratégico. Seja qual for o desfecho, o futuro do entretenimento – e o seu bolso – será moldado por essas grandes jogadas de poder.
Fique ligado, porque nos próximos meses vamos ver anúncios, reações de mercado e, possivelmente, novos participantes entrando nessa batalha. Enquanto isso, aproveite seus filmes favoritos, independentemente da plataforma, e lembre‑se de que, no fim das contas, quem controla o conteúdo controla a história que todos consumimos.



