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Por que Trump quer mexer na Venezuela? O petróleo, a China e a velha Doutrina Monroe explicados

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Por que Trump quer mexer na Venezuela? O petróleo, a China e a velha Doutrina Monroe explicados

Nos últimos dias, as manchetes têm sido dominadas por declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela. Se você, como eu, ainda se pergunta o que realmente está por trás desse discurso, este texto é para você. Vou destrinchar os motivos econômicos, geopolíticos e estratégicos que impulsionam a ofensiva dos EUA, e ainda mostrar como isso pode afetar a América Latina – inclusive o Brasil.

O pano de fundo: Venezuela, petróleo e sanções

A Venezuela tem a maior reserva comprovada de petróleo do mundo – cerca de 303 bilhões de barris, o que representa 17% das reservas globais. Esse número impressiona, mas a realidade do país é bem diferente: a maior parte do petróleo é extra‑pesado, exige tecnologia avançada e, devido à crise econômica e às sanções, grande parte dessas reservas permanece subexplorada.

Desde que o governo de Nicolás Maduro assumiu o poder, os Estados Unidos impuseram uma série de sanções que bloquearam o acesso a capitais, tecnologia e mercados. O resultado? refinarias venezuelanas paradas, produção em queda e um país que depende de empréstimos – sobretudo da China – para vender seu ouro negro.

Por que o petróleo venezuelano interessa tanto a Trump?

Para entender, precisamos olhar para o que acontece nas refinarias americanas, principalmente aquelas da Costa do Golfo. Elas são projetadas para processar petróleo pesado, exatamente o tipo que a Venezuela produz. Se os EUA conseguissem garantir um fluxo estável desse petróleo, poderia haver duas vantagens claras:

  • Baratear o preço dos combustíveis nos EUA: mais oferta = preços menores na bomba.
  • Reduzir a dependência de fornecedores rivais: ao substituir parte do petróleo importado da Arábia Saudita ou da Rússia, os EUA ganhariam mais autonomia energética.

O professor Marcos Sorrilha, da Unesp, afirma que esse é um dos principais motivos de Trump: “O petróleo venezuelano seria uma estratégia de barateamento do preço do combustível para os americanos.”

A China no tabuleiro

Enquanto Washington tenta apertar o cerco, a China tem se consolidado como a maior compradora de petróleo venezuelano. Em 2023, 68% das exportações de petróleo bruto da Venezuela foram destinadas ao gigante asiático. O que está em jogo?

  • Empréstimos chineses: cerca de US$ 50 bi foram concedidos à Venezuela nos últimos dez anos, em troca de garantias de petróleo.
  • Influência geopolítica: a presença chinesa na América Latina tem crescido, e a Venezuela se tornou um ponto de apoio estratégico para Pequim.

Para os EUA, isso representa uma ameaça direta ao seu tradicional domínio hemisférico. Como aponta a economista André Galhardo, “A China tem exercido uma influência muito grande nos países latino‑americanos, e os EUA não têm interesse nessa aproximação geopolítica chinesa.”

Doutrina Monroe revisitada

Em janeiro, a Casa Branca divulgou um novo documento de política externa que, curiosamente, faz referência explícita à Doutrina Monroe – a política de 1823 que declarava que nenhuma potência europeia poderia interferir nas Américas. Agora, a ideia foi adaptada para o século XXI: os EUA querem garantir que a América Latina permaneça sob sua esfera de influência, especialmente contra a China.

Esse retorno à “Monroe 2.0” tem duas faces:

  1. Segurança regional: combater o que Washington chama de “tráfico de drogas” e “regimes corruptos”.
  2. Interesses econômicos: abrir mercados para empresas americanas e garantir acesso a recursos estratégicos como o petróleo.

Em outras palavras, a retórica anti‑drogas pode ser mais um pretexto do que um objetivo real.

O que isso significa para o Brasil?

Embora o Brasil não esteja no topo da lista de reservas, ele é o sétimo maior produtor mundial, com cerca de 4,3 milhões de barris por dia. A aproximação dos EUA com a América do Sul tem duas implicações diretas para nós:

  • Mercado interno de energia: com a demanda global por petróleo aumentando, o Brasil pode se tornar ainda mais relevante como fornecedor alternativo.
  • Alinhamento político: a mudança de tom de Trump em relação a Lula – passando de crítico a “homem bom” – reflete uma estratégia de conquistar aliados sul‑americanos para conter a China.

Além disso, a descoberta de reservas na margem equatorial e o interesse em projetos na África indicam que o governo brasileiro está buscando diversificar suas fontes de energia e ampliar sua presença internacional.

Outros players: Argentina e Vaca Muerta

A Argentina também entrou na jogada. Com a formação de Vaca Muerta, um dos maiores campos de xisto do mundo, o país atraiu olhares de investidores americanos. A lógica é parecida: garantir fontes de energia fora da dependência da Rússia ou da OPEP.

Assim, a estratégia de Trump não se limita à Venezuela; ela abrange toda a região que possui recursos energéticos estratégicos.

Qual o futuro? Possíveis cenários

1️⃣ Escalada militar: se os EUA decidirem por uma ação direta, poderemos ver bloqueios ainda mais agressivos a navios venezuelanos, possivelmente até um confronto naval.

2️⃣ Negociação de energia: há rumores de que Washington está tentando fechar acordos secretos para comprar petróleo venezuelano, o que poderia aliviar as sanções em troca de concessões.

3️⃣ Intensificação da presença chinesa: se a China continuar financiando a Venezuela, pode transformar o país em um “porto seguro” para seus investimentos na região, desafiando ainda mais a hegemonia americana.

4️⃣ Impacto regional: países como Brasil, Colômbia e Peru podem ser pressionados a escolher lados, o que pode gerar novas alianças ou até tensões diplomáticas.

O que eu, como cidadão, posso fazer?

Entender o panorama é o primeiro passo. Depois, vale ficar de olho nas decisões de política externa dos nossos governos, especialmente nas discussões sobre energia e comércio. Se a Venezuela for usada como tabuleiro de xadrez entre EUA e China, as consequências podem reverberar nos preços dos combustíveis, nas oportunidades de investimento e até nas relações diplomáticas que mantemos.

Por fim, vale lembrar que, apesar da retórica de “defesa da democracia”, a história mostra que intervenções militares costumam trazer mais sofrimento para a população local. Manter um olhar crítico e buscar fontes diversificadas de informação ajuda a evitar que a narrativa oficial nos engula.

Fique atento, compartilhe este artigo com quem se interessa por política internacional e, se quiser aprofundar, acompanhe os debates no Congresso sobre a nova política externa dos EUA.