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Atraso no acordo UE‑Mercosul: o que a frustração da indústria alemã revela para o Brasil e para a Europa

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Atraso no acordo UE‑Mercosul: o que a frustração da indústria alemã revela para o Brasil e para a Europa

Eu sempre fico de olho nas notícias de comércio internacional, porque elas acabam mexendo no nosso dia a dia de formas que a gente nem imagina. Quando li que as associações empresariais da Alemanha — a maior economia da Europa — expressaram frustração com o novo adiamento da assinatura do acordo de livre‑comércio entre a União Europeia e o Mercosul, percebi que tem muito mais em jogo do que apenas números de exportação.

## Por que esse acordo é tão importante?

O acordo UE‑Mercosul está em negociação há quase 25 anos. Quando finalmente fosse assinado, ele seria o maior tratado de redução de tarifas já feito pela UE, abrangendo setores que vão do agro ao automotivo, passando por mineração e bens de consumo. Para o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, seria uma porta de entrada quase livre para um mercado que soma mais de 450 milhões de consumidores.

Para a Alemanha, que tem um parque industrial altamente dependente de exportações, o acordo representa uma oportunidade de diversificar cadeias de suprimento e reduzir a dependência da China. Como apontou a diretora do BDI, Tanja Goenner, “o novo adiamento representa um retrocesso para a credibilidade da Europa como ator geoestratégico”.

## O que mudou nos últimos meses?

– **Pressão dos Estados‑Membros** – Enquanto Alemanha, Espanha e países nórdicos defendem o acordo, França e Itália ainda têm dúvidas, temendo a concorrência de commodities mais baratas que podem prejudicar os agricultores europeus.
– **Contexto político nos EUA** – A política tarifária do ex‑presidente Donald Trump ainda ecoa, forçando a UE a buscar alternativas para proteger suas exportações.
– **Questões ambientais** – Organizações civis europeias cobram garantias de que a expansão agrícola no Mercosul não vá aumentar o desmatamento na Amazônia.

Esses fatores criam um clima de negociação delicado, onde interesses nacionais colidem com a visão de uma Europa mais competitiva.

## O ponto de vista da indústria alemã

A associação da indústria automobilística (VDA) e a Câmara de Comércio Alemã (DIHK) foram bastante claras:

– **85 % das exportações europeias para o Mercosul ainda pagam tarifas** – isso gera um custo adicional de cerca de 4 bilhões de euros por ano, segundo Volker Treier, da DIHK.
– **Potencial de crescimento de até 39 % nas exportações até 2040** – se o acordo for concluído, a BGA estima esse salto, que poderia transformar a balança comercial da UE.
– **Sinal de fraqueza** – Hildegard Mueller, presidente da VDA, disse que “a UE envia um sinal de fraqueza” ao adiar o tratado, num momento em que a competitividade europeia é crucial.

Essas declarações mostram que, para a Alemanha, o atraso não é só uma questão de calendário, mas de reputação e de futuro econômico.

## E para o Brasil? Por que isso importa?

Do outro lado, o Mercosul tem muito a ganhar. Imagine que a tarifa sobre soja, carne bovina ou café seja drasticamente reduzida: os produtores brasileiros teriam acesso a preços mais competitivos na Europa, o que poderia impulsionar investimentos em tecnologia agrícola e gerar mais empregos.

Mas há também riscos:

– **Dependência de poucos mercados** – Se o Brasil concentrar exportações na UE, pode ficar vulnerável a mudanças de política comercial europeia.
– **Pressão por padrões ambientais** – A UE tem exigências cada vez mais rígidas sobre sustentabilidade. Produtores que não se adaptarem podem perder mercado.

## O que podemos esperar nos próximos meses?

1. **Negociações internas da UE** – A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu reunir apoio suficiente dos Estados‑Membros. Isso pode significar concessões a países como França e Itália, talvez com cláusulas de salvaguarda para o setor agrícola.
2. **Reações do setor privado** – Empresas alemãs já estão preparando estratégias de contingência, como buscar fornecedores alternativos ou investir em parcerias de longo prazo no Mercosul.
3. **Impacto nos consumidores** – Se o acordo for finalmente assinado, podemos ver preços mais baixos de produtos como carne e soja nas prateleiras europeias, e, ao mesmo tempo, mais opções de bens manufaturados alemães no Brasil.

## Como isso afeta a gente, que não trabalha com comércio internacional?

Mesmo que você não seja exportador, as decisões de grandes blocos econômicos têm reflexos no seu bolso:

– **Preços de alimentos** – Reduções de tarifas podem baixar o custo de carnes e grãos importados, influenciando o preço no supermercado.
– **Empregos em setores ligados** – Um aumento nas exportações de automóveis ou máquinas alemãs para o Mercosul pode gerar mais vagas em fábricas brasileiras.
– **Inovação e tecnologia** – A abertura de mercados costuma trazer investimentos em pesquisa e desenvolvimento, que acabam beneficiando consumidores com produtos melhores.

## Um olhar para o futuro

Se a UE conseguir superar as divergências internas, o acordo UE‑Mercosul pode ser um marco de cooperação em tempos de protecionismo crescente. Por outro lado, se o adiamento se transformar em um impasse permanente, tanto a Europa quanto o Mercosul perderão uma chance de fortalecer suas cadeias de suprimento e reduzir a dependência de outros parceiros, como os EUA ou a China.

Para nós, brasileiros, vale ficar de olho nas notícias e nos posicionamentos das indústrias locais. A pressão da Alemanha e de outros países europeus pode acelerar reformas internas no Mercosul, como a modernização de normas sanitárias e ambientais, que são fundamentais para que o acordo seja realmente benéfico.

Em resumo, o que parece ser apenas “mais um adiamento” na pauta política tem ramificações que tocam a produção agrícola, a indústria automotiva, o comércio de minerais e, claro, o preço dos produtos que compramos todo dia. A frustração da indústria alemã é, na verdade, um sinal de que o tempo está correndo e que decisões estratégicas precisam ser tomadas antes que oportunidades se dissipem.

**Fique atento**: nos próximos meses, acompanhe as declarações dos ministros de comércio da UE, os debates no Parlamento Europeu e, claro, as reações dos sindicatos e agricultores tanto na Europa quanto na América do Sul. O futuro do comércio global pode estar se decidindo agora, e nós somos parte desse cenário, mesmo que de forma indireta.

*(Este texto tem cerca de 950 palavras.)