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Trump promete “boom econômico” antes das eleições de meio de mandato: o que realmente está em jogo?

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Trump promete “boom econômico” antes das eleições de meio de mandato: o que realmente está em jogo?

Na noite de 17 de dezembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, subiu ao púlpito da Casa Branca para um discurso que mais parecia um monólogo de campanha do que uma atualização de governo. Em menos de 20 minutos, ele fez promessas de crescimento, culpou o antecessor Joe Biden por tudo que dá errado e ainda anunciou um “dividendo” de US$ 1.776 para os militares. Mas, para quem acompanha a política e a economia americana, o recado tem nuances que vão muito além das frases de efeito.

O contexto: meio de mandato e eleições de 2026

Trump está a quase um ano do próximo pleito de meio de mandato, que decide quem controla a Câmara dos Representantes e o Senado. Esse cenário coloca o presidente em uma posição delicada: ele precisa não só manter sua base, mas também convencer eleitores indecisos de que a economia está de pé – ou que vai estar, muito em breve.

O discurso foi marcado por uma decoração natalina que contrastava com o tom de “lamúrio” que permeou a fala. Ele começou lembrando que herdou “uma bagunça” há onze meses e que agora está “consertando” tudo. Essa narrativa de herói que salva o país é clássica na retórica de Trump, mas vale analisar o que ele realmente entregou até aqui.

Promessas de “boom econômico” para 2026

Trump garantiu que os preços vão cair “muito rapidamente” e que o país está pronto para um “boom econômico”. Ele citou números impressionantes: 18 trilhões de dólares em investimentos estrangeiros, mais fábricas e empregos. Essa cifra, porém, não vem acompanhada de detalhes sobre onde esses investimentos estão sendo feitos, quais setores se beneficiam ou como isso se traduz em salários reais para os trabalhadores.

  • Investimentos declarados: sem especificar indústrias, regiões ou prazos, o número soa mais como um slogan do que um plano concreto.
  • Política tarifária: Trump atribui o crescimento às tarifas que impôs, mas as próprias tarifas costumam elevar os preços ao consumidor e criar incertezas para empresas que dependem de cadeias de suprimentos globais.
  • Desemprego: embora tenha havido recuperação leve após a contração inicial do ano, o desemprego subiu para o nível mais alto em quatro anos, o que contradiz a ideia de um boom próximo.

Os números da inflação não mentem

Enquanto Trump fala de queda de preços, os indicadores mostram o contrário. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) ficou em 3% em setembro – exatamente a mesma taxa de janeiro, e ligeiramente acima dos 2,9% de dezembro, último mês completo de Biden. Uma pesquisa da AP‑Norc revelou que a maioria dos americanos percebe preços mais altos para alimentos, energia e presentes de Natal.

Esses dados são importantes porque a inflação afeta diretamente o poder de compra das famílias. Quando o presidente promete “reduzir os preços”, mas a inflação permanece estável ou até sobe, a mensagem perde credibilidade.

O que mudou na política de saúde?

Trump mencionou que quer que o dinheiro vá direto às pessoas para pagar planos de saúde, criticando as seguradoras. A proposta de substituir subsídios do Affordable Care Act por pagamentos diretos ainda não tem apoio no Congresso. Sem um mecanismo claro, a ideia pode ficar apenas no discurso.

Dividendo para os militares

Um dos poucos pontos concretos foi o anúncio de um pagamento de US$ 1.776 para 1,45 milhão de militares. Essa medida pode ser vista como uma tentativa de reforçar o apoio das Forças Armadas – um grupo tradicionalmente favorável a Trump – e de gerar manchetes positivas antes das eleições.

Imigração: números inflados e retórica

Trump acusou Biden de permitir que o país fosse “invadido por um exército de 25 milhões de pessoas”. Essa cifra já foi desmentida por verificadores de fatos. Estimativas mais realistas apontam para cerca de 7,4 milhões de imigrantes indocumentados que cruzaram a fronteira durante o governo Biden, chegando a pouco mais de 10 milhões se contarmos entradas legais irregulares. Essa disparidade entre fato e discurso é típica da estratégia de Trump de usar números exagerados para mobilizar sua base.

Reação dos democratas e da opinião pública

Uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que apenas 33% dos adultos americanos aprovam a forma como Trump lida com a economia. Senadores como Mark Warner (Virgínia) chamaram o discurso de “triste tentativa de distração”, enquanto figuras como o governador da Califórnia, Gavin Newsom, responderam com curtidas e emojis, mostrando a polarização que ainda domina o debate.

O que isso significa para nós, brasileiros?

Mesmo que o discurso seja interno, ele tem reflexos globais. A política tarifária americana afeta exportações brasileiras, especialmente de soja, carne e minério de ferro. Se as tarifas forem mantidas ou aumentadas, nossos produtores podem enfrentar custos maiores e perder competitividade. Por outro lado, um suposto “boom econômico” nos EUA poderia elevar a demanda por commodities, beneficiando exportadores.

Além disso, a instabilidade política americana costuma mexer nos mercados financeiros. Investidores globais observam de perto as eleições de meio de mandato, e qualquer turbulência pode impactar a taxa de câmbio do real e o fluxo de capitais para o Brasil.

Perspectivas para 2026

Se Trump conseguir entregar, ainda que parcialmente, algum dos benefícios que prometeu – como redução de preços ou aumento de empregos – ele pode consolidar sua base e pressionar os democratas nas urnas. Mas, se a inflação permanecer alta, o desemprego continuar a subir e as políticas tarifárias criarem mais incertezas, o discurso pode ser visto como vazio, prejudicando sua candidatura.

Para os americanos, a mensagem central é clara: o presidente quer que a gente acredite que a economia está prestes a decolar. Para o resto do mundo, a lição é observar como a retórica econômica se traduz em números reais – e como isso afeta relações comerciais, fluxos de investimento e, claro, a vida cotidiana das pessoas.

Conclusão

O discurso de Trump foi, antes de tudo, um esforço de campanha. Ele misturou elogios ao próprio governo, críticas ao antecessor, promessas de dinheiro direto ao cidadão e números inflados de investimentos. A realidade, refletida nos indicadores de inflação, desemprego e nas respostas da população, ainda está longe do “boom econômico” que ele promete.

Se você acompanha a política internacional ou tem interesse em como os EUA influenciam a economia global, vale ficar de olho nas próximas semanas: a atualização dos dados de inflação, as discussões no Congresso sobre saúde e os resultados das eleições de meio de mandato. Cada um desses pontos pode mudar o panorama que Trump tenta pintar para o público.

Em resumo, prometeu‑se muito, mas o que realmente está acontecendo nos bastidores é muito mais complexo. E, como sempre, o futuro dependerá de como esses planos se transformarão em políticas concretas e, principalmente, de como a população – tanto nos EUA quanto aqui no Brasil – reagirá a elas.