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Por que a ceia de Natal é feita com perua e não com peru? Desvendando o mistério da ave natalina

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Por que a ceia de Natal é feita com perua e não com peru? Desvendando o mistério da ave natalina

Um Natal diferente do que a gente imagina

Todo ano, quando chega a época das festas, eu já sinto aquele cheirinho de tempero no ar e a expectativa de montar a tradicional ceia de Natal. Na maioria das casas, a estrela da mesa é o peru. Mas, se você prestar atenção nas embalagens do supermercado, vai perceber que, na verdade, quem está no prato costuma ser a perua, a fêmea da espécie. Essa diferença pode parecer só um detalhe, mas tem tudo a ver com economia, produção e até com o sabor que a gente tanto ama.

Peru x Perua: qual a diferença?

Primeiro, vamos esclarecer a confusão que costuma aparecer nos cardápios. O termo “peru” virou sinônimo da ave inteira, mas biologicamente ele se refere ao macho da espécie Meleagris gallopavo. A perua, por sua vez, é a fêmea. E a diferença de tamanho entre eles é bem significativa: o macho pode chegar a 25 kg, enquanto a perua costuma pesar entre 4 kg e 5 kg quando é abatida para a ceia.

Por que a perua domina a mesa de Natal?

O pesquisador Elsio Figueiredo, da Embrapa Suínos e Aves, explica que a escolha da perua tem mais a ver com custo-benefício do que com tradição. Veja alguns motivos:

  • Tempo de abate: as peruas são abatidas por volta das 10 semanas de idade, quando atingem cerca de 5 kg. Esse ciclo rápido permite que os produtores tenham mais rebanhos em menos tempo.
  • Rendimento ideal: a carcaça de 4 kg da perua se encaixa perfeitamente no tamanho das travessas de Natal. O macho, que pode pesar até 25 kg, exigiria um espaço muito maior e geraria mais desperdício.
  • Separação de ração: perus e peruas são criados em lotes separados para evitar que o macho, que cresce mais rápido, consuma toda a ração. Assim, a produção fica mais equilibrada.
  • Preço da ração: alimentar um macho que ganha até 10 kg a mais com a mesma quantidade de ração encarece a produção.

O que acontece com o macho?

O macho não desaparece da cadeia produtiva. Ele tem dois destinos principais:

  1. Carne em pedaços: quando o macho atinge 20 semanas e cerca de 25 kg, sua carne é desmembrada para produzir peito de peru, salsichas, produtos defumados e outros itens que encontramos nos supermercados.
  2. Exportação de cortes premium: alguns produtores vendem cortes especiais para restaurantes ou para o mercado de exportação, onde há demanda por carne de ave de maior porte.

Mas o macho raramente chega ao consumidor inteiro na ceia. O custo de abatê‑lo inteiro e o tamanho da ave não compensam.

Por que a perua é mais cara?

Se você já percebeu que o preço do peru costuma ser mais alto que o de outras carnes, há uma razão bem prática por trás:

  • Produção de ovos: a perua põe poucos ovos – cerca de 80 por vida – enquanto uma galinha comum chega a 180 ovos. Menor produção significa que a criação de peruas exige mais investimento em reposição de animais.
  • Custo dos pintinhos: os pintos de peru são mais caros para criar, pois precisam de cuidados especiais e um ambiente controlado.

Esses fatores elevam o custo da cadeia produtiva e, consequentemente, o preço na prateleira.

Curiosidades que você talvez não soubesse

Além dos pontos acima, tem outras curiosidades que deixam a história da perua ainda mais interessante:

  • O peru é originário da América do Norte e foi introduzido no Brasil pelos colonizadores portugueses no século XVI.
  • No Brasil, a criação de perus cresceu mais de 300 % nas últimas duas décadas, impulsionada pela demanda de festas natalinas.
  • A perua tem um comportamento mais dócil que o macho, o que facilita o manejo nas granjas.
  • Algumas regiões do país, como o Sul, têm tradição de assar perus defumados, o que agrega valor ao produto final.

Como escolher a perua perfeita para a sua ceia

Na hora de comprar, vale ficar de olho em alguns detalhes para garantir que a ave vai ficar suculenta e saborosa:

  1. Peso: procure uma ave entre 4 kg e 5 kg. Essa faixa garante que a carne será macia e que a ave cabe na maioria dos fornos.
  2. Cor da pele: a pele deve ser de cor uniforme, sem manchas escuras que podem indicar má alimentação.
  3. Cheiro: evite aves com odor forte ou desagradável; isso pode sinalizar falta de higiene na granja.
  4. Data de validade: verifique a data de abate e a validade da embalagem. Quanto mais fresca, melhor o resultado.

Um toque pessoal: minha receita de perua assada

Eu sempre gosto de temperar a perua com uma mistura simples, mas que faz toda a diferença:

  • 2 colheres de sopa de manteiga derretida
  • 1 colher de chá de alecrim fresco picado
  • 1 colher de chá de tomilho
  • Raspas de 1 limão siciliano
  • Sal e pimenta a gosto

Esfregue a mistura por dentro e por fora da ave, deixe descansar na geladeira por, no mínimo, 2 horas e asse a 180 °C, coberta com papel alumínio nos primeiros 45 min, retirando o papel depois para dourar a pele. O resultado? Uma carne suculenta, pele crocante e aquele perfume que faz todo mundo correr para a mesa.

O que isso tudo significa para o seu bolso?

Entender a diferença entre peru e perua ajuda a tomar decisões mais conscientes na hora da compra. Saber que a perua é mais econômica de produzir, mas tem um custo maior por causa da reprodução, pode explicar por que o preço varia de ano para ano. Também abre espaço para considerar alternativas, como comprar peruas de produtores locais, que podem oferecer preço mais justo e ainda apoiar a agricultura familiar.

Conclusão

Na próxima vez que você abrir a embalagem de “peru” para a ceia, lembre‑se de que, na maioria das vezes, está levando para casa uma perua. Essa escolha não é aleatória; ela reflete toda uma cadeia produtiva que busca equilibrar tamanho, tempo de abate, custo de alimentação e preço final. Agora, armado com esse conhecimento, você pode escolher, preparar e saborear a ave com ainda mais prazer, sabendo exatamente por que ela está no seu prato.

Feliz Natal e bom apetite!