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Juros nas alturas: o que o novo patamar da Selic significa para o seu bolso

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Juros nas alturas: o que o novo patamar da Selic significa para o seu bolso

Introdução

Se você tem conta bancária, cartão de crédito ou financiamento, provavelmente já sentiu o aperto nas contas nos últimos meses. O Banco Central acabou de divulgar que a taxa média de juros cobrada pelos bancos em operações com pessoas físicas chegou a 59,4% ao ano, o maior nível desde 2017. Essa alta não acontece ao acaso; ela está diretamente ligada à taxa Selic, que permanece em 15% ao ano – o patamar mais alto em quase duas décadas. Neste texto eu vou explicar, de forma simples, por que esses números são importantes, como eles afetam o dia a dia das famílias e o que você pode fazer para se proteger.

Por que os juros estão tão altos?

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Quando o Banco Central a eleva, o objetivo é conter a inflação, encarecendo o crédito e desestimulando o consumo excessivo. Em dezembro de 2024 a Selic ficou em 15% ao ano, um nível que não vemos desde 2005. Essa decisão tem reflexos imediatos nos juros que os bancos cobram de nós, consumidores, porque a maior parte dos empréstimos bancários tem como referência a taxa básica.

  • Juros para pessoas físicas: subiram de 58,5% para 59,4% ao ano em novembro.
  • Juros para empresas: caíram levemente, de 25,1% para 24,5% ao ano.
  • Cheque especial: 141,7% ao ano, aumento de 2,6 pontos percentuais.
  • Cartão de crédito rotativo: 440,5% ao ano, praticamente inalterado, mas ainda proibitivo.

Esses números são assustadores, mas vale lembrar que eles são calculados sobre recursos “livres”, ou seja, excluem empréstimos habitacionais, rurais e do BNDES. Mesmo assim, o impacto nas finanças pessoais é enorme.

Como isso afeta a gente no dia a dia?

O efeito mais imediato é o aumento do custo do crédito. Quando você deixa de pagar a fatura completa do cartão, o rotativo entra em ação e, com juros acima de 400% ao ano, a dívida pode dobrar em poucos meses. O mesmo vale para o cheque especial, que costuma ser usado como “reserva de emergência”. A taxa de 141,7% ao ano transforma R$ 1.000 em quase R$ 1.200 em apenas um ano, se você ficar usando o limite de forma recorrente.

Além disso, o endividamento das famílias já está em 49,3% da renda acumulada nos últimos 12 meses – o maior nível desde a pandemia. Isso significa que quase metade da renda familiar está comprometida com pagamentos de dívidas bancárias. Quando a inadimplência chega a 4,7% nas pessoas físicas, o risco de cortes de crédito, restrições no nome e até processos judiciais aumenta.

Mas nem tudo é pessimismo. O volume total de crédito bancário ainda cresceu 0,9% em novembro, chegando a R$ 7 trilhões, e o crédito ao consumidor (cartão de crédito, financiamento de veículos, etc.) registrou pequenos aumentos. Isso indica que, apesar dos juros altos, a demanda por crédito continua, embora mais cautelosa.

Dicas práticas para lidar com juros altos

Não adianta só entender o cenário; é preciso agir. Aqui vão algumas estratégias que eu mesmo já coloquei em prática e que podem ajudar a reduzir o impacto dos juros exorbitantes:

  1. Pague a fatura do cartão integralmente. Se não for possível, priorize pagar o valor que cobre os juros mais altos (geralmente o rotativo).
  2. Evite o cheque especial. Use-o somente em emergências reais e procure transferir o saldo para uma conta com rendimento positivo.
  3. Renegocie dívidas. Muitos bancos oferecem descontos para pagamento à vista ou parcelamento com juros menores. Vale a pena ligar e negociar.
  4. Planeje seu orçamento. Separe uma parte da renda para pagamentos de dívidas e outra para um fundo de reserva, evitando depender do crédito caro.
  5. Considere alternativas de crédito. Empréstimos com garantia (como consignado ou com imóvel) costumam ter juros menores que o rotativo.

O que esperar nos próximos meses?

O Copom decidiu manter a Selic em 15% ao ano em dezembro, mas a tendência é que a taxa permaneça alta até que a inflação esteja sob controle. Enquanto isso, o Conselho Monetário Nacional (CMN) já limitou o valor total da dívida no cartão rotativo a 100% da dívida original, mas o IOF ainda não está incluído nessa regra, o que pode gerar custos adicionais.

Para as empresas, a leve queda nos juros pode sinalizar um alívio futuro, já que o crédito empresarial ainda é mais barato que o de pessoa física. No entanto, a inadimplência das empresas também está em patamares próximos ao recorde histórico (2,3% em novembro), o que indica que o risco de calote ainda está presente.

Em resumo, a combinação de Selic alta, juros bancários recordes e inadimplência crescente cria um cenário desafiador para quem depende de crédito. A boa notícia é que, com planejamento e disciplina, dá para reduzir o peso dessas dívidas e até melhorar a saúde financeira.

Conclusão

Os juros nas alturas não são uma novidade, mas o fato de estarem no maior patamar em oito anos nos obriga a repensar nossos hábitos de consumo e de pagamento. Se você ainda não tem um plano de pagamento de dívidas, este é o momento de começar. Analise suas contas, priorize quitar o rotativo e o cheque especial, e procure alternativas mais baratas quando precisar de crédito.

Eu sei que falar de juros de 400% ao ano pode parecer assustador, mas lembre‑se: a informação é a melhor arma. Quanto mais você entender como funciona o sistema, mais preparado estará para tomar decisões que protejam seu bolso. E, claro, fique de olho nas próximas decisões do Banco Central – elas vão continuar moldando o custo do crédito nos próximos anos.