Quando ouvi falar que Cuba – aquele país carinhosamente conhecido pelos carros antigos e pela música que não sai da cabeça – está finalmente abrindo a economia para o capital estrangeiro, confesso que fiquei meio cético. Afinal, há décadas a ilha vive sob um embargo que parece mais um muro de pedra do que um obstáculo burocrático. Mas, ao acompanhar as declarações do ministro Oscar Pérez‑Oliva na Feira Internacional de Havana, percebi que estamos diante de um momento que pode mudar não só a vida dos cubanos, mas também abrir oportunidades para quem pensa em investir fora do Brasil.
Por que a Cuba está em crise?
Antes de mergulhar nas novidades, vale entender o pano de fundo. A economia cubana já estava frágil antes da pandemia. O turismo – que responde por quase 40% do PIB – despencou quando os voos foram cancelados e as fronteiras fecharam. Ao mesmo tempo, o embargo dos EUA continua bloqueando acesso a tecnologias, crédito e até a alguns mercados essenciais.
O resultado? Apagões frequentes, escassez de alimentos, combustível e peças de reposição. A infraestrutura pública está se deteriorando, e o governo tem que importar quase tudo que o país consome. Para tentar driblar essa situação, Cuba tem “dolarizado” gradualmente setores como varejo, postos de gasolina e turismo, permitindo pagamentos em moedas estrangeiras.
O que mudou na Feira de Havana?
Durante o evento, Pérez‑Oliva anunciou um pacote de medidas que promete simplificar e acelerar a entrada de investimentos estrangeiros. Não são apenas promessas vazias; o ministro detalhou mudanças concretas:
- Processos de aprovação de projetos mais rápidos e menos burocráticos.
- Flexibilização na contratação de trabalhadores, permitindo que empresas estrangeiras paguem salários em dólares e ofereçam bônus.
- Possibilidade de exigir pagamento em moeda estrangeira para determinados bens e serviços.
- Criação de um novo instrumento de financiamento para atrair capital.
Essas alterações visam tornar Cuba um ambiente “mais confiável e dinâmico” para investidores, algo que faltava até então.
Como isso pode afetar você?
Talvez você esteja se perguntando: e eu, que moro no Brasil, como me beneficio disso? A resposta não é direta, mas há alguns caminhos:
- Investimento direto: Se você tem capital para aplicar, setores como agricultura, energia renovável e turismo estão abertos a parcerias. O caso da empresa vietnamita que já cultiva arroz em Pinar del Río pode ser um modelo de negócios rentável.
- Empreendedorismo digital: Com a abertura do setor bancário, há espaço para fintechs que ofereçam serviços de pagamento ou câmbio entre pesos cubanos, dólares e reais.
- Importação e exportação: Produtos brasileiros, como alimentos processados ou equipamentos agrícolas, podem encontrar um mercado em expansão, especialmente se a produção local ainda não cobre a demanda.
- Turismo de nicho: O interesse por destinos “alternativos” está crescendo. Investir em hotéis ou pousadas que ofereçam experiências autênticas pode ser lucrativo, principalmente se houver liberdade operacional maior, como o projeto piloto de arrendamento de hotéis.
Claro, tudo isso vem acompanhado de riscos, principalmente a instabilidade política e as sanções dos EUA. Mas, como todo investimento, o retorno está ligado ao grau de tolerância ao risco que cada um tem.
O que já funcionou (e o que ainda falhou)
A Cuba já tentou abrir sua economia antes. Em 2013, criou a Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, oferecendo incentivos fiscais e alfandegários. No entanto, processos lentos e a pressão das sanções impediram que grandes projetos decolassem.
Agora, a diferença está na vontade política. O economista Omar Everleny Pérez Villanueva, da Universidade de Havana, destaca que a rapidez nos processos de aprovação demonstra um compromisso real do governo. Ainda assim, ele alerta que as mudanças podem ser insuficientes se não houver um esforço maior para reduzir a dependência do embargo.
Prós e contras da nova abertura
Para ajudar a visualizar, separei os principais pontos positivos e negativos:
| Prós | Contras |
|---|---|
| Maior fluxo de divisas estrangeiras, aliviando a escassez de moeda. | Risco de dependência excessiva de capital externo. |
| Modernização de setores como energia, agricultura e turismo. | Possíveis conflitos com as sanções americanas. |
| Criação de empregos e transferência de tecnologia. | Desigualdade social se os lucros não forem bem distribuídos. |
| Flexibilidade na contratação e pagamento de salários em dólares. | Incerteza jurídica para investidores que não conhecem o sistema cubano. |
O futuro: o que esperar nos próximos anos?
Se tudo correr como o governo espera, nos próximos cinco a dez anos poderemos ver:
- Um aumento significativo nas exportações de produtos agrícolas, especialmente arroz, soja e frutas tropicais.
- Um setor de turismo mais diversificado, com hotéis internacionais e experiências de ecoturismo.
- Uma reforma do sistema bancário, permitindo que bancos estrangeiros operem ao lado dos cubanos.
- Possível revisão do embargo se a relação EUA‑Cuba evoluir politicamente.
Mas, como todo processo de transição, haverá tropeços. A chave para quem quiser participar é acompanhar de perto as decisões do governo cubano, as reações dos EUA e, claro, as primeiras histórias de sucesso – como a fazenda de arroz vietnamita ou a empresa alemã de hidráulica que já opera em Mariel.
Conclusão: vale a pena ficar de olho?
Eu, pessoalmente, vejo a abertura econômica de Cuba como um convite para pensar além das fronteiras habituais. Não se trata apenas de investir dinheiro, mas de entender como um país que viveu décadas sob isolamento pode se reinventar. Se você tem curiosidade por novas oportunidades, seja no setor agrícola, turístico ou tecnológico, vale a pena pesquisar, conversar com especialistas e, quem sabe, dar o primeiro passo.
O que importa, no fim das contas, é que a Cuba está tentando virar a página. E nós, como observadores e possíveis atores desse novo capítulo, temos a chance de participar – ou, pelo menos, de aprender com um experimento econômico que pode inspirar outras nações em situações semelhantes.
Fique atento às próximas notícias, acompanhe os projetos piloto e, se surgir a oportunidade, avalie com cautela. Quem sabe, talvez um dia você esteja desfrutando de um café cubano enquanto seu investimento rende frutos em uma terra que, há muito tempo, só conhecíamos pelos seus ritmos e histórias.



