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Emendas “ressuscitadas”: o que a suspensão de Dino significa para o orçamento brasileiro

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Emendas “ressuscitadas”: o que a suspensão de Dino significa para o orçamento brasileiro

O que aconteceu?

Na última semana, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, recebeu uma visita inesperada: o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino. O motivo? Explicar por que o STF suspendeu um trecho de projeto de lei que pretendia “ressuscitar” emendas parlamentares não pagas entre 2019 e 2023.

Um pouco de contexto

Emendas parlamentares são recursos que o Congresso reserva no Orçamento da União para que deputados e senadores possam direcionar dinheiro a projetos de suas bases. Normalmente, essas emendas são aprovadas, executadas e, se não houver recursos suficientes, ficam como “restos a pagar”.

Nos últimos anos, parte desses restos acabou sendo chamada de “orçamento secreto” porque, segundo críticos, faltou transparência na escolha dos beneficiários. Foi esse o pano de fundo que motivou o STF a declarar inconstitucionais certas modalidades de emendas.

O que o projeto de lei pretendia?

Durante a votação do orçamento de 2026, o Congresso aprovou um texto que incluía um artigo conhecido como “jabuti”. Esse artigo reduzia em 10% benefícios tributários, mas, ao mesmo tempo, criava um mecanismo para que o Executivo pudesse pagar as emendas pendentes – ou seja, “ressuscitar” valores que já estavam bloqueados.

  • Valor estimado a ser liberado: cerca de R$ 3 bilhões.
  • Beneficiados: deputados e senadores que tinham emendas canceladas nos anos anteriores, inclusive aquelas associadas ao chamado “orçamento secreto”.
  • Origem da proposta: casa civil da Presidência, com apoio de ministros de mais de dez ministérios.

O objetivo, segundo o governo, seria destinar recursos a obras inacabadas e projetos que ainda precisam de financiamento.

Por que o STF interveio?

Flávio Dino, atendendo a um pedido de parlamentares do PSOL e da Rede, analisou a constitucionalidade do trecho que permitia a “ressurreição” das emendas. Em sua decisão, o ministro destacou que:

“A disciplina ora impugnada extrapola os parâmetros institucionais e as balizas fixadas em conjunto pelos Três Poderes, para a superação das inconstitucionalidades então reconhecidas.”

Em outras palavras, o STF entendeu que reviver essas emendas seria incompatível com o regime jurídico, sobretudo num cenário de grave desequilíbrio fiscal.

O que isso muda para o cidadão?

Para a maioria dos brasileiros, a discussão parece distante, mas tem impactos diretos no bolso e na prestação de serviços públicos:

  • Financiamento de obras locais: Se as emendas fossem liberadas, municípios poderiam receber mais recursos para pavimentação, escolas ou postos de saúde.
  • Equilíbrio fiscal: O governo já enfrenta desafios para cumprir a meta fiscal. Liberar R$ 3 bilhões sem contrapartidas pode agravar o déficit.
  • Transparência: A suspensão reforça a necessidade de processos claros, evitando a sensação de que recursos são distribuídos por favores políticos.

Quem são os protagonistas?

Além de Hugo Motta (representante do estado da Paraíba) e Flávio Dino, outros nomes ganharam destaque:

  • Gleisi Hoffmann (Ministra de Relações Institucionais) – negou que o governo tenha participado de acordo para inserir o artigo.
  • Randolfe Rodrigues (senador do Acre) – relator no Senado que manteve o trecho controverso.

Esses atores mostram como a política de orçamento envolve negociação entre diferentes poderes e regiões.

Próximos passos

Com a suspensão, o texto volta ao Congresso para nova avaliação. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ainda precisa sancionar ou vetar o orçamento completo. Enquanto isso, o debate sobre o “orçamento secreto” e a necessidade de maior transparência deve continuar nos corredores do poder.

O que eu acho?

Confesso que, como cidadão que acompanha as notícias de perto, fico dividido. Por um lado, a ideia de liberar recursos que ficaram presos parece boa – afinal, quem paga por obras inacabadas?

Por outro, a forma como isso foi feito, sem clareza sobre quem receberia o dinheiro, me lembra de práticas que já geraram escândalos. Se o governo realmente quer melhorar a infraestrutura, deveria buscar caminhos que não comprometam a disciplina fiscal e que sejam transparentes para a população.

Resumo rápido

  • STF suspende trecho de PL que “ressuscitaria” R$ 3 bi em emendas não pagas.
  • Projeto foi inserido em acordo entre Casa Civil e ministérios, visando financiar obras pendentes.
  • Decisão de Dino reforça a necessidade de respeitar limites constitucionais e o equilíbrio fiscal.
  • Governo nega participação em acordo para incluir o artigo; debate sobre transparência continua.

Se você acompanha o orçamento da sua cidade ou tem interesse em entender como o dinheiro público circula, vale ficar de olho nos próximos desdobramentos. Afinal, cada mudança na lei pode significar um investimento a mais (ou a menos) nos serviços que usamos no dia a dia.