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Por que 25 cidades concentram mais de um terço do PIB do Brasil? Entenda o que isso significa para você

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Por que 25 cidades concentram mais de um terço do PIB do Brasil? Entenda o que isso significa para você

Um panorama rápido

Se você acompanha as notícias econômicas, já deve ter visto a manchete do IBGE: 25 municípios brasileiros responderam por 34,2% do PIB nacional em 2023. Parece um número pequeno para representar tanto da riqueza do país, né? Mas, quando a gente para para pensar, descobre que esse fato tem raízes históricas, sociais e até políticas que afetam diretamente a nossa vida cotidiana.

Como chegamos a esse cenário?

O levantamento do IBGE analisou 5.570 municípios, mas apenas 25 conseguiram acumular mais de um terço da produção econômica do Brasil. Três delas – São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Brasília (DF) – juntas somam quase 17% do PIB nacional. Essa concentração não é novidade: desde 2002, quando o IBGE começou a publicar a série histórica, as capitais já dominavam o ranking.

História de concentração

Em 2002, as capitais respondiam por 36,1% do PIB. Antes da pandemia, em 2019, esse número já havia caído para 31,4%, indicando uma leve desconcentração. A crise da Covid‑19 acelerou esse processo, levando a participação das capitais a 27,5% em 2022 – o ponto mais baixo da série. Em 2023, houve recuperação, mas ainda ficamos abaixo do patamar pré‑pandemia.

Quem são esses 25 municípios?

Além das três capitais citadas, o ranking inclui:

  • 9 cidades do interior de São Paulo (ex.: Campinas, São José dos Campos)
  • 4 do Rio de Janeiro (ex.: Niterói, São Gonçalo)
  • 1 de Minas Gerais (Betim, que entrou no ranking em 2023)
  • 1 da Bahia (São Francisco do Conde)
  • 1 do Mato Grosso (Santa Rita do Trivelato)
  • Outras espalhadas entre Sul, Centro‑Oeste e Norte, mas em número menor.

O que une a maioria delas? Uma economia baseada em serviços, indústria de capital intensivo ou exploração de recursos naturais.

PIB per capita: o outro lado da moeda

Quando olhamos apenas para o PIB total, vemos onde a economia é maior. Mas o PIB per capita nos mostra onde a riqueza por habitante é mais alta. Em 2023, a média nacional foi de R$ 53.886,67, mas cidades como Saquarema (RJ) registraram incríveis R$ 722.441,52 por pessoa – mais de 13 vezes a média.

Esses números elevados costumam aparecer em municípios com:

  • Atividades extrativas de petróleo e gás (ex.: São Francisco do Conde, Maricá)
  • Indústrias de refino (ex.: Paulínia – SP)
  • Usinas hidrelétricas ou mineração de ferro

São setores que demandam grande investimento de capital, mas empregam relativamente poucas pessoas, o que eleva o PIB per capita.

Desigualdade regional à vista

O contraste entre o PIB total e o per capita evidencia a desigualdade brasileira. Enquanto o Sudeste concentra a maior parte do PIB total, o Norte e Nordeste ainda apresentam os menores PIBs per capita. Isso tem implicações diretas nos serviços públicos, na qualidade de vida e nas oportunidades de emprego nas diferentes regiões.

O que isso significa para o cidadão comum?

Talvez você pense: “Isso é coisa de economista, não tem nada a ver comigo”. Mas a concentração econômica afeta:

  • Mercado de trabalho: cidades com maior PIB tendem a oferecer mais vagas, porém também costumam ter custo de vida mais alto.
  • Investimentos públicos: governos federais e estaduais costumam direcionar recursos de acordo com a produção econômica, o que pode gerar menos investimentos em áreas menos produtivas.
  • Infraestrutura: rodovias, aeroportos e serviços de saúde são mais desenvolvidos nas regiões economicamente fortes.
  • Política de impostos: a arrecadação de tributos está intimamente ligada ao PIB; cidades que produzem mais pagam mais impostos, mas também recebem mais repasses de fundos federais.

Em resumo, a concentração econômica cria um ciclo onde as áreas já ricas ficam ainda mais ricas, enquanto as demais lutam para atrair investimentos.

Setores em foco: serviços, indústria e agropecuária

Entre 2022 e 2023, o setor de Serviços consolidou sua liderança, passando de 67% para 67,8% do Valor Adicionado Bruto (VAB). Dentro dele, destacam‑se:

  • Atividades financeiras e de seguros
  • Administração pública, educação e saúde
  • Outros serviços, que formam o maior subgrupo

A Agropecuária foi o setor que mais cresceu em volume (16,3% de alta), embora tenha sentido queda nos preços. Já a Indústria perdeu participação, de 26,3% para 25,4%, principalmente devido à queda nos preços das indústrias extrativas.

Por que a indústria está perdendo espaço?

Alguns fatores explicam essa tendência:

  • Desindustrialização global: a competição internacional, especialmente da Ásia, pressiona os preços.
  • Custos de energia: altas tarifas impactam a produção industrial.
  • Política de incentivos: o foco em serviços e tecnologia tem atraído investimentos que antes iam para a indústria.

Para quem pensa em abrir um negócio, isso indica que setores de serviços de alta qualificação (tecnologia, finanças, saúde) podem oferecer melhores retornos do que fábricas tradicionais.

O que pode mudar esse cenário?

Algumas estratégias podem ajudar a reduzir a concentração e promover um desenvolvimento mais equilibrado:

  1. Descentralização de investimentos: criar incentivos fiscais para que empresas se instalem em municípios menores.
  2. Infraestrutura de qualidade: melhorar transportes e conectividade digital nas regiões menos desenvolvidas.
  3. Educação e capacitação: programas de formação profissional focados nas demandas locais.
  4. Políticas de apoio à agroindústria: transformar a produção agrícola em produtos de maior valor agregado.

Essas medidas não são fáceis, mas podem gerar um efeito multiplicador: mais empregos, mais renda e, consequentemente, maior arrecadação para melhorar serviços públicos.

Como você pode usar essas informações?

Mesmo que você não seja economista, entender onde a riqueza está concentrada pode orientar decisões pessoais:

  • Escolha de carreira: áreas de serviços, tecnologia e finanças têm maior presença nas cidades mais ricas.
  • Investimentos: imóveis em cidades com alta geração de PIB podem valorizar mais, mas também têm risco de sobrevalorização.
  • Planejamento familiar: considerar custo de vida versus oportunidades de emprego ao escolher onde morar.

Em outras palavras, a informação do IBGE pode ser uma bússola para quem está pensando em mudar de cidade, investir ou simplesmente entender melhor o Brasil em que vive.

Conclusão

Os 25 municípios que concentram mais de um terço do PIB brasileiro são, ao mesmo tempo, símbolos de desenvolvimento e de desigualdade. Eles mostram a força das capitais e de cidades com indústrias de capital intensivo, mas também revelam como o resto do país ainda luta por mais atenção e recursos.

Se a gente conseguir usar esses dados para promover políticas que incentivem o crescimento em outras regiões, talvez o Brasil consiga distribuir melhor a riqueza e melhorar a qualidade de vida de todos. Enquanto isso, ficar atento a esses números pode nos ajudar a tomar decisões mais informadas – seja na carreira, nos investimentos ou na escolha do lugar onde queremos viver.

Então, da próxima vez que ouvir que “São Paulo responde por quase 10% do PIB nacional”, lembre‑se de que esse número tem impactos reais nas estradas que você usa, nos salários que recebe e nas oportunidades que tem à sua frente.