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Acordo Mercosul‑UE: O que muda para o Brasil e por que a França não pode barrar a negociação

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Acordo Mercosul‑UE: O que muda para o Brasil e por que a França não pode barrar a negociação

Oi, pessoal! Hoje eu quero conversar com vocês sobre um assunto que tem aparecido bastante nas notícias: o acordo de livre‑comércio entre o Mercosul e a União Europeia. Parece papo de diplomatas, mas, na prática, esse tratado pode mexer no nosso dia a dia, seja no preço da carne, no acesso a novos produtos ou até nas oportunidades de emprego.

Um pouco de história

O caminho para esse acordo começou há mais de 25 anos. Desde os anos 1990, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – os países que compõem o Mercosul – vêm tentando abrir as portas para a maior união econômica do mundo: a UE. Foram longas rodadas de negociação, protestos de agricultores, críticas de ambientalistas e, claro, muita paciência dos negociadores de ambos os lados.

Recentemente, a coisa ganhou novo impulso. Em dezembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu uma carta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa. Na carta, os europeus reafirmam o compromisso de assinar o acordo ainda em janeiro de 2026.

Por que a assinatura foi adiada?

A imprensa brasileira noticiou que a assinatura, que estava prevista para acontecer em Foz do Iguaçu (Paraná) durante a cúpula do Mercosul, foi adiada porque ainda faltavam alguns trâmites internos no Conselho Europeu. Não é nada de novo: a UE costuma exigir que, para aprovar acordos comerciais, haja o apoio de pelo menos 15 países que representem 65 % da população do bloco. Essa chamada maioria qualificada garante que decisões tão importantes tenham respaldo amplo.

O ponto delicado agora são alguns países europeus que ainda têm dúvidas. A França, por exemplo, tem um setor agrícola muito forte e tem medo de que a entrada de produtos sul‑americanos mais baratos prejudique os agricultores franceses. A Itália, representada pela primeira‑ministra Giorgia Meloni, também levantou questões sobre subsídios agrícolas e a distribuição de verbas dentro da UE.

Lula e a postura da França

Em entrevista, Lula deixou bem claro que, se a UE como bloco está pronta para assinar, a França não pode, sozinha, bloquear o acordo. “Se ela estiver pronta para assinar e faltar só a França, não haverá possibilidade de a França, sozinha, não permitir o acordo”, disse o presidente.

Ele ainda explicou que a resistência francesa não é novidade. O que mudou foi a forma como a questão foi trazida à tona: agora, além da França, a Itália também tem expressado preocupações. Mas, segundo os europeus, esses obstáculos são mais políticos do que técnicos. A carta enviada a Lula agradece o esforço do governo brasileiro e pede que o presidente dialogue com os demais integrantes do Mercosul para fechar o pacto no “espírito de unidade e responsabilidade compartilhada”.

O que está em jogo?

O acordo prevê a redução gradual de tarifas sobre uma série de produtos – de automóveis a soja, de vinhos a carnes. Para o Brasil, isso pode significar:

  • Exportações mais competitivas: produtos como carne bovina, soja e café poderiam ganhar acesso mais fácil a mercados europeus, aumentando a demanda e, potencialmente, os preços que os produtores recebem.
  • Importações mais baratas: máquinas agrícolas, equipamentos industriais e produtos farmacêuticos europeus poderiam chegar ao Brasil com menos impostos, beneficiando indústrias locais e consumidores.
  • Regras de origem mais claras: empresas brasileiras teriam um caminho mais transparente para certificar seus produtos como “origem Mercosul”, facilitando a entrada no mercado europeu.

Mas nem tudo são flores. Agricultores franceses temem que a concorrência de carne bovina e soja brasileiras, produzidas em condições que eles consideram menos rigorosas em termos ambientais, possa derrubar os preços no interior da França. Há também a questão das normas sanitárias e de rastreabilidade, que podem exigir investimentos adicionais dos exportadores sul‑americanos.

Impactos para o consumidor brasileiro

Você pode estar se perguntando: “E eu, que não lido com comércio internacional, como isso me afeta?” Boa pergunta. Quando um acordo como esse entra em vigor, a redução de tarifas costuma refletir nos preços das prateleiras. Por exemplo, se a UE reduzir os impostos sobre máquinas agrícolas, os agricultores brasileiros podem comprar tratores mais baratos, o que pode melhorar a produtividade e, a longo prazo, reduzir o custo da produção de alimentos.

Do outro lado, se as exportações brasileiras aumentarem, pode haver um efeito de valorização da moeda local (o real) devido ao fluxo maior de divisas. Isso, por sua vez, pode tornar produtos importados – como eletrônicos ou roupas – ligeiramente mais caros, mas também pode equilibrar a balança comercial do país.

O que o futuro reserva?

Se tudo correr como o esperado, a assinatura oficial deve acontecer em janeiro de 2026, possivelmente em Montevidéu, no Paraguai, onde os líderes do Mercosul costumam se reunir. Depois da assinatura, ainda resta a fase de ratificação nos parlamentos de cada país – tanto no Brasil quanto nos 27 estados membros da UE.

Para o Brasil, a ratificação pode ser mais rápida, já que o Congresso tem demonstrado apoio ao acordo, vendo nele uma oportunidade de diversificar mercados e reduzir a dependência da China e dos EUA. Na UE, o processo pode ser mais demorado, especialmente se houver pressão de grupos de lobby agrícola.

Um ponto que vale ficar de olho é a questão ambiental. A UE tem reforçado a exigência de que produtos importados cumpram padrões de sustentabilidade. Isso pode levar a mudanças nas práticas agrícolas brasileiras, como maior adoção de tecnologias de baixo carbono ou certificações de produção responsável. Embora isso represente um custo adicional no curto prazo, pode abrir portas para nichos de mercado premium que pagam mais por produtos sustentáveis.

Como você pode acompanhar?

Se você tem interesse em comércio exterior, agricultura ou simplesmente quer entender como decisões tomadas em Bruxelas podem chegar ao seu carrinho de compras, vale acompanhar:

  • Os debates no Conselho Europeu – eles são transmitidos ao vivo e costumam ter legendas em português.
  • As sessões da cúpula do Mercosul – o governo brasileiro costuma publicar documentos e vídeos explicando os pontos principais.
  • Os relatórios de organizações de produtores, como a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Além disso, fique de olho nas notícias sobre a aprovação do acordo nos parlamentos. Cada voto conta, e a opinião pública pode influenciar os legisladores, principalmente quando o tema envolve questões de soberania alimentar e preservação ambiental.

Conclusão

Em resumo, o acordo Mercosul‑UE tem o potencial de transformar a forma como o Brasil se relaciona com o maior mercado consumidor do mundo. Não é apenas um papel assinado em uma conferência; é uma porta que pode abrir oportunidades para exportadores, reduzir custos para indústrias e, ao mesmo tempo, colocar desafios para quem precisa adaptar suas práticas a novos padrões.

Para nós, cidadãos, o mais importante é acompanhar o desenrolar desses debates, entender os argumentos de cada lado e, quando possível, participar das discussões públicas. Afinal, decisões comerciais afetam o preço da carne no supermercado, a qualidade dos produtos que consumimos e até o futuro da nossa agricultura.

Fique ligado, compartilhe essa informação com quem você acha que pode se interessar e, quem sabe, na próxima vez que abrir a geladeira, você vai lembrar que aquele bife veio de um acordo que começou a ser negociado há mais de duas décadas.