Introdução
Se você acompanha as notícias de comércio exterior, já deve ter ouvido falar do tão aguardado acordo entre o Mercosul e a União Europeia. A expectativa era que ele fosse assinado já nesta semana, mas um último obstáculo europeu adiou a cerimônia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista após a cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu (Paraná), garantiu que a França, sozinha, não tem força para barrar o tratado. Mas o que está por trás dessa disputa e como isso afeta a gente, que vive de exportação, importação ou simplesmente de preço no supermercado?
O que está em jogo?
O acordo Mercosul‑UE é o maior bloco de livre‑comércio do mundo em termos de PIB. Ele prevê a redução gradual ou eliminação de tarifas sobre milhares de produtos, desde soja e carne bovina até máquinas industriais e serviços digitais. Além das tarifas, o tratado inclui regras comuns sobre propriedade intelectual, investimentos e padrões regulatórios. Em números, a zona combinada representa cerca de 1,2 bilhão de consumidores, o que abre portas para produtores brasileiros entrarem em mercados que antes eram quase inacessíveis por causa de impostos elevados.
Por que a França se opõe?
O presidente francês Emmanuel Macron tem sido o rosto da resistência dentro da UE. A principal preocupação dele – e de grande parte dos agricultores franceses – é a competição com produtos agrícolas sul‑americanos, que costumam ser mais baratos e produzidos sob normas ambientais diferentes. A frase que mais circula nos noticiários é que a França quer “salvaguardas” para proteger sua agricultura. Em termos práticos, isso significa que o governo francês pede:
- Quotas de importação temporárias para carne bovina e suína.
- Regras mais rígidas sobre uso de agrotóxicos e rastreabilidade.
- Compensações financeiras para agricultores que perderem mercado.
Essas exigências, embora compreensíveis do ponto de vista interno da França, entram em conflito com a proposta de livre‑comércio que o Mercosul tem defendido durante 25 anos de negociações.
O papel da Itália
Ao lado da França, a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, também manifestou reservas, mas de forma mais flexível. Ela concorda em apoiar o acordo desde que sejam atendidas as demandas dos agricultores italianos. A diferença é que a Itália tem buscado um “adiamento” de um mês para negociar detalhes, ao invés de um bloqueio total. Essa postura ajudou a criar a esperança de que, com a maioria dos países europeus a favor, a assinatura ainda seja possível.
Quem está do lado do acordo?
Além da Alemanha e da Espanha, que já declararam apoio ao tratado, países nórdicos e alguns membros do centro‑leste europeu também veem o acordo como uma oportunidade de reduzir a dependência dos EUA e da China, especialmente em setores de minerais e tecnologias verdes. O chanceler alemão Friedrich Merz chegou a dizer que a UE precisa manter credibilidade na política comercial global, e que decisões devem ser tomadas agora.
Como o acordo pode impactar o Brasil?
Para quem mora no Brasil, o que realmente importa são as consequências no dia a dia:
- Exportadores agrícolas: menos tarifas significa preços mais competitivos nos mercados europeus, o que pode aumentar a demanda por soja, milho, carne e café.
- Indústria: acesso a componentes e máquinas europeias com custos menores, facilitando a modernização de fábricas.
- Consumidores: produtos importados, como vinhos, queijos e eletrodomésticos, podem ficar mais baratos nas prateleiras.
- Pequenos produtores: há risco de concorrência mais acirrada, especialmente se as salvaguardas europeias não forem suficientemente fortes.
Em resumo, o acordo tem potencial de gerar crescimento econômico, mas também exige atenção para que os benefícios cheguem a todos os elos da cadeia produtiva.
O futuro próximo
Lula sugeriu que a assinatura pode acontecer já no primeiro mês da presidência do Paraguai, com o presidente Santiago Peña liderando a cerimônia. A Comissão Europeia, representada por Ursula von der Leyen, afirmou estar confiante de que há maioria qualificada – pelo menos 15 países representando 65 % da população da UE – para aprovar o tratado.
Se tudo correr como o Brasil espera, a assinatura poderia acontecer ainda em 2025, com a ratificação formal nos parlamentos nacionais nos próximos meses. Caso a França insista em bloqueios, o processo pode se arrastar, gerando incerteza para exportadores que já estão preparando a expansão de produção.
Conclusão
O ponto central da fala de Lula é que a França não tem poder de veto sozinha. No Conselho Europeu, decisões exigem apoio de maioria qualificada, e a maioria dos membros já demonstrou inclinação favorável ao acordo. Isso significa que, apesar da oposição francesa, o tratado tem boas chances de avançar.
Para nós, brasileiros, a mensagem é clara: ficar de olho nas negociações e nos detalhes das salvaguardas. Se o acordo for ratificado, poderemos ver um impulso significativo nas exportações e, quem sabe, preços mais competitivos nos mercados internos. Mas também será preciso políticas de apoio ao pequeno produtor, para que a liberalização não se transforme em ameaça.
Então, enquanto a Europa discute detalhes técnicos, nós podemos nos preparar para aproveitar as oportunidades que vêm pela frente. E, como sempre, o melhor caminho é acompanhar de perto, entender as nuances e, se possível, adaptar nossos negócios às novas regras do comércio internacional.



