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A frustração da indústria alemã com o adiamento do acordo UE‑Mercosul: o que isso significa para o Brasil?

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A frustração da indústria alemã com o adiamento do acordo UE‑Mercosul: o que isso significa para o Brasil?

Por que eu me importo com a briga entre a UE e o Mercosul?

Se você, assim como eu, costuma se perguntar como decisões tomadas em Bruxelas ou Berlim podem chegar até a nossa mesa de jantar, este texto é pra você. Recentemente, associações industriais da Alemanha – a maior economia da Europa – manifestaram frustração porque a assinatura do acordo de livre‑comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul foi adiada para janeiro. Parece distante, mas o impacto desse atraso pode reverberar diretamente nas exportações brasileiras, nos preços dos alimentos e até na criação de empregos aqui.

O que está em jogo?

O acordo UE‑Mercosul tem mais de 25 anos de negociação. Quando concluído, ele seria o maior tratado da UE em volume de redução de tarifas, abrangendo produtos agrícolas, industriais e, principalmente, commodities como soja, carne bovina e minério de ferro. Para a Alemanha, que tem um setor industrial altamente dependente de cadeias de suprimentos globais, o acordo representa uma oportunidade de reduzir custos e ganhar competitividade.

  • Redução de tarifas: cerca de 85 % das exportações europeias para o Mercosul pagam tarifas que somam aproximadamente 4 bilhões de euros por ano.
  • Potencial de crescimento: estimativas da associação BGA apontam que as exportações da UE podem subir até 39 % até 2040.
  • Diversificação estratégica: acesso a minerais e alimentos que diminuiriam a dependência da China e das políticas tarifárias dos EUA.

O ponto de vista da indústria alemã

Representantes como Tanja Goenner (BDI) e Hildegard Mueller (VDA) foram claros: o adiamento é um “retrocesso” e um “sinal de fraqueza” da Europa. Eles argumentam que, em um cenário de protecionismo crescente – pense nas tarifas impostas pelos EUA nos últimos anos – a estabilidade de regras comerciais é essencial para empresas que exportam máquinas, veículos e componentes eletrônicos.

Para a Volkswagen, por exemplo, que tem fábricas espalhadas pela Europa e depende de matérias‑primas como o níquel, um acordo mais ágil poderia garantir preços mais estáveis e previsíveis. O mesmo vale para a indústria automotiva alemã, que vê no Mercosul um mercado emergente para veículos elétricos e tecnologia de baterias.

Por que alguns países da UE ainda dizem não?

Nem tudo são flores no bloco europeu. França e Itália, por exemplo, temem que a abertura de mercado para commodities mais baratas – soja, milho e carne – prejudique os agricultores europeus. Na última quinta‑feira, protestos com tratores em Bruxelas mostraram a força desse lobby rural.

Essas preocupações são legítimas: agricultores que já enfrentam margens apertadas podem ver sua competitividade ainda mais ameaçada. No entanto, o argumento dos críticos muitas vezes ignora que o acordo também traz benefícios para setores que dependem de insumos agrícolas, como a indústria de biocombustíveis e de alimentos processados.

O que isso significa para o Brasil?

Para nós, o adiamento tem duas faces:

  • Oportunidade de exportação: se o acordo for finalmente assinado, exportadores brasileiros de soja, carne e minério podem ganhar acesso a mercados europeus com tarifas reduzidas, aumentando a margem de lucro.
  • Risco de competição: a mesma redução de tarifas pode abrir portas para produtos europeus mais baratos, como queijos, vinhos e máquinas agrícolas, pressionando produtores locais.

Além disso, o atraso pode retardar investimentos europeus em infraestrutura brasileira, como projetos de energia renovável e logística, que costumam acompanhar grandes acordos comerciais.

Como podemos nos preparar?

Mesmo que o acordo ainda esteja em suspenso, há algumas estratégias que podemos adotar:

  1. Investir em diferenciação: produtos com certificação de origem, sustentabilidade ou qualidade premium tendem a se destacar mesmo em mercados mais competitivos.
  2. Buscar novos mercados: diversificar destinos de exportação para além da UE, como Ásia e África, reduzindo a dependência de um único bloco.
  3. Fortalecer a cadeia de valor local: apoiar fornecedores de tecnologia agrícola, que podem agregar valor ao produto final e justificar preços mais altos.
  4. Monitorar a política: ficar atento às negociações dentro da UE, pois mudanças nas posições de países como Alemanha e Espanha podem acelerar o processo.

Um olhar para o futuro

Se a UE conseguir superar as resistências internas e fechar o acordo ainda em 2024, podemos estar à beira de uma nova era de comércio global mais equilibrado. Por outro lado, se o bloqueio persistir, a Europa pode buscar acordos bilaterais com países fora do Mercosul, o que deixaria o Brasil em desvantagem competitiva.

Eu acredito que a chave está em encontrar um meio‑termo: tarifas mais baixas para commodities, mas com salvaguardas para os agricultores que dependem de políticas de apoio. A experiência da UE com acordos anteriores, como o da UE‑Canadá (CETA), mostra que é possível criar mecanismos de ajuste que protejam setores vulneráveis sem fechar as portas ao comércio.

Conclusão

O adiamento do acordo UE‑Mercosul não é apenas um detalhe burocrático; é um termômetro da confiança da Europa no multilateralismo e um indicativo de como o Brasil será visto nos próximos anos. Enquanto a indústria alemã lamenta a “fraqueza” da UE, nós temos a chance de usar essa pressão a nosso favor, preparando nossos produtos, reforçando nossa competitividade e, quem sabe, influenciando as negociações para que incluam cláusulas que beneficiem os produtores brasileiros.

Fique de olho nas próximas rodadas de negociação e, se você tem um negócio que depende de exportação, comece a analisar agora mesmo como o futuro acordo pode mudar sua estratégia. Afinal, o comércio internacional é um jogo de xadrez: quem pensa alguns movimentos à frente tem mais chances de ganhar.