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TikTok nos EUA: o que muda agora que a ByteDance cede o controle?

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TikTok nos EUA: o que muda agora que a ByteDance cede o controle?

Se você acompanha as notícias de tecnologia, provavelmente já viu a manchete sobre a ByteDance transferindo o controle do TikTok nos Estados Unidos para um grupo de investidores liderado pela Oracle. Para quem usa o aplicativo no dia a dia, ou mesmo para quem só ouve falar dele, a notícia pode parecer mais um capítulo de uma novela política do que algo que vai mudar a sua rotina. Mas, na prática, o acordo tem implicações que vão muito além de uma simples troca de acionistas.

Um pouco de história

O TikTok chegou ao Brasil e ao mundo em 2018, depois que a empresa chinesa ByteDance comprou a Musical.ly e fundiu as duas plataformas. Desde então, o app virou fenômeno: mais de 170 milhões de usuários nos EUA, milhões de criadores de conteúdo e um fluxo constante de tendências que acabam influenciando tudo, desde a moda até a forma como marcas se comunicam.

Mas a popularidade também atraiu atenção política. Em 2020, o então presidente Donald Trump tentou banir o TikTok, alegando que o governo chinês poderia ter acesso aos dados dos usuários americanos. Na época, o argumento era de segurança nacional – algo que, para muitos, soava como mais uma disputa geopolítica do que um risco concreto.

O que mudou?

Depois de anos de incerteza, a ByteDance finalmente assinou, na quinta‑feira (19), acordos vinculativos que transferem o controle das operações americanas do TikTok para uma nova empresa chamada TikTok USDS Joint Venture LLC. Entre os novos investidores estão a Oracle, o fundo de private equity Silver Lake e a MGX, com sede em Abu Dhabi. A ByteDance ficará com 19,9% da participação; os investidores americanos e internacionais, com 80,1%.

O ponto crucial é que, ao atender às exigências de desinvestimento previstas na legislação aprovada em 2024, o acordo evita a proibição total do aplicativo nos EUA. Em outras palavras: o TikTok continua disponível, mas agora sob uma estrutura de controle que, teoricamente, reduz o risco de que dados de usuários americanos sejam repassados ao governo chinês.

Por que a Oracle?

  • Infraestrutura de nuvem: a Oracle tem um dos maiores data centers do mundo e pode oferecer um ambiente mais “americano” para armazenar dados.
  • Credibilidade política: ao ter um gigante da tecnologia dos EUA como parceiro, o TikTok ganha um selo de confiança perante reguladores.
  • Sinergia de produtos: a Oracle pode integrar ferramentas de análise e publicidade que beneficiem tanto o TikTok quanto seus próprios clientes corporativos.

Vale notar que as ações da Oracle subiram quase 6% no pré‑mercado logo após o anúncio, sinalizando que o mercado recebeu bem a notícia.

O que isso significa para nós, usuários?

Na prática, a maioria das pessoas não sentirá diferença na interface ou nos recursos do aplicativo. O feed continuará mostrando os mesmos vídeos curtos, as trends seguirão surgindo e os criadores ainda poderão monetizar seu conteúdo. O que pode mudar, porém, são alguns bastidores:

  1. Política de privacidade: a nova empresa terá que seguir normas americanas mais rígidas, o que pode resultar em termos de uso mais claros e menos “surpresas” sobre onde os dados são armazenados.
  2. Publicidade: com investidores como a Oracle, pode haver uma integração maior de soluções de anúncios corporativos, potencialmente oferecendo novas oportunidades para criadores e marcas.
  3. Segurança: a presença de um parceiro americano pode acelerar auditorias de segurança e garantir que vulnerabilidades sejam corrigidas com mais rapidez.

Os números por trás do acordo

Embora o valor exato da transação não tenha sido divulgado, a nova empresa foi avaliada em torno de US$ 14 bilhões – um número abaixo das expectativas dos analistas na época. Ainda assim, o fato de que 80,1% da empresa ficará nas mãos de investidores americanos indica uma mudança significativa de poder.

Para colocar em perspectiva, imagine que a ByteDance, que antes detinha 100% do controle, agora passa a ser apenas um dos acionistas minoritários. Isso altera a dinâmica de decisão, especialmente em questões estratégicas como políticas de conteúdo, expansão de mercado e parcerias tecnológicas.

O que ainda pode acontecer?

O acordo ainda está sujeito a aprovação regulatória nos EUA. Se o Departamento de Justiça ou a Comissão Federal de Comércio (FTC) decidirem que a estrutura não atende completamente às exigências de segurança nacional, ainda pode haver ajustes. Além disso, o cenário político pode mudar: um futuro presidente pode rever a postura em relação a aplicativos de origem chinesa.

Mas, por enquanto, o consenso entre especialistas é que o TikTok conseguiu “comprar tempo” e evitar um banimento imediato. Isso significa que a comunidade de criadores, que depende da plataforma para renda e visibilidade, tem um alívio considerável.

Como isso afeta criadores de conteúdo?

Se você produz vídeos no TikTok, talvez se pergunte se deve mudar de plataforma ou ficar de olho nas políticas. Aqui vão algumas dicas práticas:

  • Diversifique seu público: não dependa apenas do TikTok. Ter presença no Instagram Reels, YouTube Shorts ou até no próprio YouTube pode proteger sua audiência.
  • Fique atento aos termos de uso: quando a nova empresa publicar suas políticas, leia com calma. Se algo parecer desfavorável, procure adaptar seu conteúdo ou negociar com marcas.
  • Monetização: explore os novos recursos de anúncios que podem surgir com a Oracle. Programas de afiliados e parcerias corporativas podem abrir novas fontes de renda.

Um olhar para o futuro

O caso do TikTok nos EUA pode ser um precedente para outras empresas de tecnologia chinesas que operam no ocidente. Se a estratégia de ceder parte do controle funcionar, poderemos ver mais acordos semelhantes, onde investidores locais ganham participação majoritária para atender a requisitos de segurança.

Para o usuário comum, a grande lição é que a tecnologia está cada vez mais interligada com a política. Decisões que parecem ser só de executivos em salas de reunião podem, no fim das contas, impactar o conteúdo que vemos nos nossos feeds.

Conclusão

O TikTok ainda está aqui, e provavelmente continuará sendo um dos principais palcos de criatividade digital nos EUA e no mundo. O acordo com a Oracle e outros investidores traz mais estabilidade ao aplicativo, reduzindo o risco de um banimento súbito. Para nós, isso significa menos interrupções, mais segurança nos nossos dados e, possivelmente, novas oportunidades de monetização.

Mas, como tudo no universo tech, é bom ficar de olho nas próximas movimentações. Se a legislação mudar, se surgirem novos acordos ou se a própria ByteDance decidir mudar de estratégia, o panorama pode mudar novamente. Enquanto isso, continue curtindo, criando e, quem sabe, aproveitando as novas ferramentas que podem aparecer com a parceria Oracle‑TikTok.